O caderno rosa de Lori Lamby é o livro com o qual Hilda Hilst, em 1990, declarou guerra ao próprio prestígio. Aos sessenta anos, quatro décadas depois de Presságio e inconformada com a recepção tímida da obra que ela considerava séria, anunciou a despedida da “literatura séria” para escrever “adoráveis bandalheiras”. O resultado foi um diário fictício narrado por Lori, menina de oito anos que, com o consentimento dos pais, decide se prostituir e anotar tudo — o dinheiro, a sedução, o prazer da transação — com humor ácido e autoconsciência brutal.
O escândalo foi imediato e, em parte, calculado. Massao Ohno publicou a primeira edição com ilustrações de Millôr Fernandes. Críticos e jornalistas dividiram-se entre ofensa, defesa da liberdade formal e a suspeita, que a própria Hilda alimentou em entrevista, de que o livro era uma banana às editoras. A premissa constrange. Deve constranger. Não é um manual, não é um relato factual e não pede identificação afetiva com a narradora. É um artefato literário escrito para romper o pacto de “boa literatura” que, na visão da autora, a havia deixado inaudível.
O que o livro é — e o que não é
É o primeiro volume da chamada tetralogia obscena, seguida de Contos d’escárnio / Textos grotescos (1990), Cartas de um sedutor (1991) e, em verso, Bufólicas (1992). É também o título que mais gente ainda busca quando digita o nome da autora. Isso cria um problema de leitura: muita gente conhece Hilda só por Lori, e muita gente recusa Hilda por causa de Lori. Os dois gestos empobrecem. O caderno não substitui Da poesia nem A obscena senhora D. Expõe o ponto em que a poeta decidiu usar o mercado como palco.
Vera Iaconelli, no posfácio da reedição da Companhia das Letras, lê o texto pela ousadia de questionar certezas e o limite da razão. Outras leituras enfatizam a paródia, a fábula cruel, o ataque ao gosto médio. Nenhuma leitura séria trata a obra como elogio da violência contra criança. A narradora é máscara. O diário é dispositivo. O constrangimento é o método. Quem precisa de outro recorte — lírico, teológico, teatral — tem dezenas de títulos melhores para começar.
Para quem faz sentido abrir este livro
Faz sentido para leitor já familiarizado com a autora, para pesquisa sobre a recepção dos anos 1990, para quem quer entender por que o adjetivo “obscena” colou no nome de Hilda com força de marca. Não faz sentido como primeira obra, como presente casual nem como “polêmica para postar”. O texto é curto — cerca de oitenta páginas na edição de 2021 — e mesmo assim pede contexto: a queixa de Hilda contra a distribuição precária, o histórico de prêmios que não viraram público amplo, a decisão explícita de agredir o campo literário.
Há uma ironia documentada. A manobra comercial que ela descreveu como busca de venda acabou, com o tempo, puxando leitores de volta para a poesia e para a prosa anterior. Não é milagre nem estratégia de gabinete. É o efeito colateral de um gesto que recusou o lugar de “poeta hermética” e aceitou o risco de ser lida pelo pior motivo. Quem lê o caderno hoje precisa sustentar os dois fatos: o livro ofende convenções; o livro não esgota Hilda Hilst.
Edição em circulação
A Companhia das Letras relançou o título em 17 de maio de 2021, ISBN 978-65-592-1055-8, com capa de Elisa von Randow. Existe e-book. A edição em papel já passou por indisponibilidade e previsão de reimpressão, o que importa na hora da compra: conferir o item certo, não uma edição antiga sem o posfácio. Como os demais avulsos da autora no selo, o volume é brochura curta, não caixa de colecionador.
Se a pergunta for “preciso ler isto para entender Hilda?”, a resposta honesta é não. Se a pergunta for “preciso entender isto para entender por que o nome dela ainda incomoda?”, a resposta é sim. O caderno rosa é um documento de ruptura, não o coração da obra. Tratar os dois como a mesma coisa é exatamente o equívoco que a própria autora, em outros textos, passou a vida tentando desfazer.




