A vida como ela é nasceu como coluna diária, não como livro de contos. Nos anos 1950, na Última Hora de Samuel Wainer, Nelson Rodrigues entregava todo dia uma história curta de ciúme, obsessão, adultério, inveja e morte. O título já era programa: nada de vida edulcorada, nada de moral de almanaque. A coluna virou o maior sucesso jornalístico do autor e atravessou rádio, fotonovela, cinema, teatro e a série da TV Globo de 1996.
Esta edição da Nova Fronteira, A vida como ela é... em 100 inéditos, saiu em 2012 no centenário de nascimento. Não repete a seleção que o próprio Nelson fez em 1961, quando escolheu cem contos para livro — entre eles “A dama do lotação” e “A coroa de orquídeas”. Aqui estão outras cem narrativas garimpadas nos dez anos da coluna, inclusive a primeira da série, “O homem do cemitério”. São inéditos em livro, não inéditos de jornal.
O que essas histórias fazem
O motor é sempre o comezinho que descarrila. Um casal, um vizinho, um médico, uma mulher no lotação, um pai que descobre tarde demais. A prosa é ágil, de jornal, com o ouvido do repórter policial que Nelson foi aos treze anos. O desfecho quase nunca consola. Há graça e há desespero, às vezes no mesmo parágrafo. O autor oscila entre o humor cruel e a tragédia doméstica sem avisar de que lado virá o golpe.
Quem chega pelos filmes — A dama do lotação, de Neville d'Almeida, ou as dezenas de adaptações — encontra no volume o Nelson anterior à tela: mais seco, mais rápido, menos espetáculo de corpo e mais sentença. Cada conto cabe numa viagem de ônibus e deixa um gosto de manchete. A popularidade da coluna explica por que o nome dele ultrapassou o circuito teatral: o Brasil leu Nelson no jornal da tarde antes de vê-lo no Municipal.
Como ler este volume
Não é obra para ser devorada em ordem, como romance. O melhor uso é o da coluna original: um conto por vez, com intervalo. Lidos em sequência, os textos revelam a fórmula — e a fórmula, no Nelson, faz parte do método, não é defeito escondido. Há repetição de motivos (traição, fetiche, crime, humilhação) porque a vida que ele observava também repetia. O que muda é o corte, o detalhe, a última linha.
- Cem contos da coluna da Última Hora, inéditos em livro até 2012.
- Abre com “O homem do cemitério”, o primeiro texto da série.
- Edição comemorativa do centenário, pela Nova Fronteira.
- Caminho mais direto para quem quer o Nelson narrador, não só o dramaturgo.
Para o leitor que só conhece as frases de arquibancada ou a lenda do “anjo pornográfico”, este livro devolve a escala certa: um jornalista escrevendo para o dia seguinte, com a precisão de quem cobriu polícia e a imaginação de quem nunca saiu da infância na rua Alegre. A vida, no título, não é tema filosófico. É a matéria do copo d’água, da cama e do enterro.





