Abuso espiritual: a manipulação invisível começa por uma pergunta que costuma ser feita em voz baixa dentro de comunidades de fé: como uma pessoa madura, instruída e bem-intencionada aceita, por anos, ser controlada por um líder religioso? Publicado pela Paulus Editora em 2024, o livro de Gabriel Perissé enfrenta o tema sem transformar a religião em ré e sem tratá-la como assunto intocável.
O que o livro chama de abuso espiritual
Perissé não trata o abuso espiritual como uma categoria isolada. Ele o compara a outros tipos de abuso para mostrar o que existe de específico nesse campo: o uso da fé, do medo e da autoridade em nome de Deus para submeter consciências. A obra descreve quem o abusador procura — o que chama de vítima preferencial — e os mecanismos que mantêm a relação de dependência, como culpa, isolamento, vigilância e a sensação de que duvidar é pecado.
Do lado de quem abusa, o livro examina o complexo de santidade, o clericalismo e o narcisismo religioso que blindam o líder de críticas. Do lado das instituições, aponta a dificuldade que grupos fechados têm de reconhecer a própria dinâmica, inclusive quando já existem denúncias.
Os truques da manipulação invisível
O título do livro não é metáfora. O abuso espiritual costuma ser invisível porque não deixa marcas visíveis: ele age pela palavra, pelo silêncio e pela culpa. Entre os pontos abordados estão a ideologia do medo, os sinais de que um líder religioso é abusivo, o medo do inferno e da punição divina como instrumentos de controle e as razões pelas quais é tão fácil entrar em uma seita sem perceber.
Na parte final, o livro muda de direção e aponta saídas: como se libertar de um grupo abusivo, como se recuperar do trauma e como cultivar uma espiritualidade crítica, capaz de distinguir fé profunda de fanatismo.
Uma crítica que não despreza a fé
O autor escreve a partir de dentro do campo religioso. Filósofo, teólogo e analista junguiano, ele não propõe abandonar a fé, mas exercitar o discernimento e construir uma cultura do cuidado e do encontro. Essa escolha dá ao livro um tom diferente das críticas puramente externas à religião: o problema não é crer, e sim deixar de pensar enquanto se crê.
Reconhecimento e desdobramentos
Abuso espiritual esteve entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti 2025, na categoria ciências da religião e teologia. O tema levou Gabriel Perissé a levar palestras e formações a dioceses, paróquias, ordens religiosas, seminários e livrarias em várias cidades brasileiras, além de entrevistas e podcasts sobre o assunto. Quem quiser aprofundar encontra um projeto dedicado ao tema no site Cristologia do Encontro.
Para quem o livro é útil
- Lideranças religiosas e formadores que querem prevenir o problema em suas comunidades;
- Catequistas, agentes de pastoral e acompanhantes espirituais;
- Psicólogos e terapeutas que atendem pessoas com histórico de trauma religioso;
- Leitores que viveram esse tipo de experiência e procuram entender o que aconteceu;
- Estudantes de teologia, filosofia e ciências da religião.
São 208 páginas em edição brochura, com linguagem acessível a quem não tem formação acadêmica. O livro funciona tanto como leitura individual quanto como material de apoio para encontros de formação em comunidades de fé.





