Contexto e proposta de Adeus Pirandello
Adeus, Pirandello fecha a trilogia do Rio de Janeiro no século XX. O ponto de partida é factual: em 1927, Luigi Pirandello veio à então capital da República com sua companhia teatral, acompanhado da atriz Martha Abba. Marco Lucchesi pega essa visita e escreve um romance de solidão, epidemia, amor e literatura, publicado pela Rua do Sabão em 2021, depois de ter sido composto durante a pandemia.
O livro não reconstitui a temporada italiana como documentário. Mistura o Rio dos anos 1920 com o presente da escrita, o teatro de Pirandello com a cidade que o recebe, a paixão platônica do dramaturgo com o isolamento contemporâneo. Antônio Torres, na quarta capa, descreveu o resultado como concerto de prosa e poesia, com enredos labirínticos e fragmentos memorialísticos. A descrição ajuda: quem busca um romance de enredo único pode se perder; quem aceita corte e contraponto encontra o tom.
Na trilogia, este é o deslocamento mais nítido. O Dom do Crime falava o século de Machado; O bibliotecário do imperador falava a queda da Corte; Adeus, Pirandello fala a capital republicana, o palco europeu e uma cidade já outra. A epidemia entra como clima, não como tese. O teatro entra como ofício. O adeus do título é ao mesmo tempo biográfico e formal: despedir-se de um autor é também despedir-se de um modo de encenar a verdade.
O romance é curto, de leitura densa. Serve a quem já acompanhou Lucchesi na poesia e quer a prosa mais recente, e a quem interessa a circulação de escritores europeus no Rio. Não serve a quem pede linearidade. Críticos e leitores dividem-se entre entusiasmo pela mistura de tempos e reserva diante do hermetismo. Os dois polos existem e não precisam ser escondidos.
Para entrar na obra em prosa do autor, este volume pode ser o terceiro da série ou, para quem chega pelo teatro e por Pirandello, o primeiro. Em qualquer ordem, o que ele oferece é um Rio visto pelo palco, não pelo cartão-postal.




