Amazzonia verde d'acqua é o volume em que a Mondadori, em 2020, recolhe o canto longo de Márcia Theóphilo sobre a floresta. Não é reedição de Amazzonia madre d'acqua, nem caixa com os livros velhos. É um livro novo na coleção Lo Specchio, poesia bilingue, posto à venda em 16 de junho de 2020, com 336 páginas e ISBN 9788804727446.
Quem abre o índice encontra a estrutura em vez de um prefácio genérico. Há blocos chamados água, terra, ar, árvores e os filhos da deusa Jaguar, e a mesma divisão repetida em português: água, terra, ar, árvores, os filhos da deusa Jaguar. O livro também traz uma seção de eros e fruta. A língua não está escondida na tradução. O italiano e o português ocupam o mesmo projeto, como em outros volumes da autora, para que o verso original não suma atrás da versão.
Para quem este livro serve
O leitor italiano de poesia contemporânea chega aqui pela coleção. Lo Specchio é a linha da Mondadori em que a casa põe poetas, não romance de estação. Theóphilo entra nessa prateleira tarde, depois de décadas de livros menores em editoras de poesia, e o efeito é de soma: a casa trata o volume como o ponto em que o desenho amazônico dela fica legível de uma vez.
O leitor de português chega por outro motivo. Boa parte da obra circula pouco nas livrarias do Brasil. Este é um dos poucos títulos recentes em que o original segue impresso ao lado da tradução, numa editora que o livreiro reconhece. Não substitui Os meninos jaguar nem Kupahúba. Quem quer o livro do WWF e do Prêmio Fregene precisa ir a 1995. Quem quer o prêmio Sandro Penna precisa ir a 2007. Verde d'acqua é a fase tardia, a floresta já escrita como conjunto.
O que o livro faz, e o que não faz
A matéria é a de sempre, agora organizada como mapa. A natureza não aparece como cenário. Humanos entram como parte dela. A deusa Jaguar se transforma em planta, animal, rio e chuva. As árvores contam história. O eu do poema se mistura a isso, e a devastação não fica de fora: a floresta sem fim convive com o desprezo de quem a trata como estoque.
Não é guia de viagem, nem relatório de antropologia, nem programa político com meta e prazo. Theóphilo é antropóloga de formação, mas o contrato deste volume é o verso. Quem espera ficha de povo, mapa de rio ou denúncia em prosa vai achar outra coisa: nome, mito e repetição, no ritmo de quem passou a vida voltando ao mesmo lugar. A Mondadori descreve o conjunto como um canto de atmosfera, com memória de imensidões verdes. A frase de capa é da casa. O que o índice confirma, sem marketing, é a divisão em elementos e em filhos da deusa.
Como este volume se separa dos anteriores
Catuetê Curupira, de 1983, é um livro curto de uma figura. Os meninos jaguar, de 1995, é o livro das crianças, da aldeia e da cidade. Kupahúba, de 2000, concentra a árvore. Madre d'acqua, de 2007, é o livro da água premiado em Perúgia. Verde d'acqua chega treze anos depois e tenta segurar esses fios no mesmo tomo, já com a autora reconhecida por prêmios de trajetória, do LericiPea ao festival de Vercelli.
Há também edição digital, com outro ISBN, 9788835702559. É o mesmo texto, não outro projeto. A edição que interessa na estante é a impressa da Lo Specchio, brochura, 336 páginas. O preço oscila conforme a loja e o tempo. O que não oscila é o livro: Mondadori, 2020, bilingue, com o nome Márcia Theóphilo na capa verde.


