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Marcia Theóphilo

Márcia Theóphilo

Fortaleza, CE / Roma, Itália
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Poetisa e antropóloga de Fortaleza radicada em Roma, autora de poesia bilingue sobre os mitos, rios e povos da Amazônia.

O jaguar que entra na aldeia à noite, nos versos de Marcia Theóphilo, não é bicho de livro infantil. É a deusa que ela carregou da floresta para a página bilingue, em português e em italiano, escrita a partir de Roma.

Quem busca o nome raramente quer um romance de enredo ou um curso. Quer a poeta brasileira da Amazônia que publica sobretudo na Itália: cearense de Fortaleza, doutora em antropologia, saída do país no começo da ditadura militar. A dúvida prática é outra. Se o verbete, o prêmio italiano e o livro da Mondadori falam da mesma mulher, e por que o rio, a árvore kupahúba e a deusa Jaguar voltam em quase tudo o que ela assina.

Quem é Marcia Theóphilo

Marcia Theóphilo nasceu em Fortaleza, no Ceará. O ano não fecha: parte das biografias aponta 1940, parte aponta 1941. O ofício, sim. Ela é poetisa e antropóloga, com contos, ensaios e uma sequência longa de livros de poesia. Mora e trabalha sobretudo em Roma desde o início dos anos 1970, com idas ao Brasil. A Mondadori resume a vida atual numa frase seca: vive entre a Itália e o Brasil.

Na Itália o prenome costuma levar acento, Márcia. No Brasil, a grafia mais estável é Marcia Theóphilo, com o h e o ph do sobrenome. As duas formas são a mesma autora. Já a grafia Teófilo, sem esse desenho, leva a outra pessoa: Márcia Teófilo, prenda e cantora do Paraná, nascida em Umuarama em 1980. Não é a poeta de Roma. Misturar as duas é o erro mais comum de quem chega pelo vídeo, não pelo livro.

Ela não montou empresa à vista, nem canal próprio fácil de achar, nem vitrine de curso. A autoridade pública está nos livros, nos festivais e numa defesa repetida do patrimônio natural e cultural da floresta. No mapa da literatura brasileira que circula em grande editora nacional, o nome dela quase não aparece. O circuito real é outro: Passigli, Mondadori, Tallone, De Luca, Edizioni dell'Elefante, prêmios de cidade italiana e prefácios de poetas europeus.

Fortaleza, o Acre e a antropologia

A cidade de nascimento é Fortaleza. A floresta, no relato que a própria Theóphilo dá em entrevistas, entrou pela família. A biografia pública aponta o pai e a avó paterna como nascidos no Acre. Ao Corriere della Sera ela disse que a avó era indígena e foi a primeira a lhe contar os mitos da floresta, a identidade de um povo, o rio e o vento. Isso não é certidão. É a origem que a poeta coloca no centro do que escreve, e que repetiu de novo em entrevistas italianas posteriores: a avó como matriarca que punha a neta em contato com as vozes da mata.

A formação seguiu trilha de cidade. Estudou em São Paulo e no Rio de Janeiro e doutorou-se em antropologia em Roma. O título não virou cátedra visível no Brasil. Virou método. Em vez de deixar o mito só como encanto, ela lê povo, rio, bicho e árvore com vocabulário de quem estudou antropologia, e devolve o material em verso.

Antes de Roma, houve uma fase paulistana concreta. De 1968 a 1971 trabalhou com jornalismo cultural e crítica de arte em São Paulo, em colaboração com artistas como Maria Bonomi, Tomie Ohtake e Otávio Araújo. Não foi contato de catálogo. Maria Bonomi, com Nelson Coelho, ilustrou Os convites, livro de contos publicado em 1969 pela Universidade de São Paulo. Esse volume, e não um livro de poemas, levou o Prêmio Nacional de Contos da Editora Abril. A poesia já existia ao lado das artes visuais. O reconhecimento inicial, porém, veio do conto.

A saída na ditadura e a volta de 1979

No começo da década de 1970, Theóphilo deixou o Brasil durante a ditadura militar e fixou-se em Roma. As datas oscilam entre 1971 e 1972. O motivo, nas biografias italianas e na página brasileira, é o mesmo: a censura fechava escrever e estudar. Na Itália ela passou a fazer o trânsito entre os dois países, a traduzir poetas e a organizar encontros. Uma peça teatral dessa fase, Arapuca, saiu em Roma em 1979. Outra, Dica a quelli che è da parte di Dulce, teve prefácio de Dacia Maraini.

Em 1979, com a reabertura, voltou a São Paulo como correspondente da revista italiana Noi Donne. Em 1980 publicou no jornal Avanti! um ensaio sobre Lula e o sindicalismo na transição democrática. Em 1981 estava outra vez em Roma e organizou, no Museu de Sant'Egidio, o encontro Pela democracia no Brasil. Desde 1986 representa a União Brasileira de Escritores junto ao sindicato dos escritores italianos. Desde 2003 integra o júri do Premio Internazionale Fregene. Desde 2007 participa do comitê ético-científico de Foreste per sempre, iniciativa ligada à floresta.

Esse vai e volta explica uma estranheza de quem procura o nome numa livraria brasileira e não acha prateleira. A edição mais fácil de comprar, hoje, está em catálogo italiano. Não é abandono do português. Vários livros saem com as duas línguas na mesma página. O original fica visível. A tradução não o substitui.

O que o verso faz com a floresta

O assunto não troca de livro por estratégia de carreira. Rio, gente, mito, animal, árvore e a destruição da mata formam um vocabulário só. Ela mesma chama isso de dicionário. Foresta mio dizionario, de 2003, põe a palavra no título. A proposta não é cartão-postal para leitor europeu. É memória de um mundo que os livros tratam como ameaçado, com nomes de dentro da mata no corpo do poema: Curupira, Iurupari, a deusa Jaguar, a árvore kupahúba, que o título italiano de 2000 chama de árvore do espírito santo.

Os meninos jaguar, de 1995, mostra o limite desse canto. O livro, prefaciado por Mario Luzi e por Grazia Francescato, saiu com apoio do WWF Itália e ganhou o Prêmio Fregene em 1996. Os meninos aparecem na aldeia, ornados de penas de arara. Mais adiante dormem enrolados em jornal, na cidade. O mito não fica inteiro. A saída da floresta entra no poema, e com ela a denúncia de um mundo que empurrou essas crianças para fora.

Mario Luzi, poeta central da Itália no século XX, também prefacia Kupahúba e Foresta mio dizionario. Io canto l'Amazzonia, de 1992, das Edizioni dell'Elefante, traz texto de Rafael Alberti e prefácio de Armando Gnisci, e recebeu o prêmio Città di Roma. Esse entorno não faz de Theóphilo discípula de ninguém. Mostra em que mesa o livro foi lido, longe do circuito que costuma decidir o cânone brasileiro.

Prêmios amarrados a um livro

A lista italiana de láureas é longa e desigual. Pesam as que estão presas a um volume verificável, não a um adjetivo de carreira:

  • 1969: Prêmio Nacional de Contos da Editora Abril, por Os convites.
  • 1983: Prêmio Minerva, por Catuetê Curupira, edição bilingue da La Linea, em Roma.
  • 1992: Prêmio Città di Roma, por Io canto l'Amazzonia.
  • 1996: Prêmio Fregene, por Os meninos jaguar, das Edizioni De Luca.
  • 2000: Prêmio Sant'Egidio, por Kupahúba, da Tallone, em Turim.
  • 2008: Prêmio Sandro Penna, em Perúgia, por Amazzonia madre d'acqua, da Passigli.
  • 2011: LericiPea pela trajetória. Em 2012, o prêmio de ecopoesia do Montale Fuori di Casa.
  • 2015: prêmio de carreira do Festival Internacional de Poesia Civil de Vercelli, no ciclo da Expo de Milão, e o Panda de Fulco Pratesi, do WWF Itália, como testemunho da biodiversidade.

Sites e verbetes repetem uma candidatura ao Nobel de Literatura, às vezes datada de 2010 ou de 2015. As nomeações oficiais desse prêmio ficam fechadas por décadas, e não há ato público do comitê que confirme o caso. O que se confirma é a presença em festivais de fato: Poetry International em Roterdã, em 1977; a Feira do Livro de Frankfurt, em 1994; o Festivaletteratura de Mântua, em 2006 e 2009; a Expo Rio 2011, com o livro Ama+Zonia; a Expo de Milão, em 2015, também como testemunha da iniciativa Por uma Cultura da Biodiversidade, da Comissão Nacional Italiana da UNESCO.

O que ainda se encontra para ler

Dois livros seguem mais fáceis de achar em loja, e não são a mesma obra com capa nova. Amazzonia verde d'acqua saiu em 16 de junho de 2020 pela Mondadori, na coleção Lo Specchio: poesia bilingue, 336 páginas, dividida em água, terra, ar, árvores e os filhos da deusa Jaguar, com o original português ao lado do italiano. Amazzonia madre d'acqua é de 2007, da Passigli Poesia, e é o volume ligado ao Sandro Penna. Um canta a floresta já como soma de décadas. O outro é anterior, mais curto, e foi o que a crítica italiana premiou em 2008.

Os sites pessoais que durante anos reuniram a bibliografia deixaram de responder de forma estável. Não há perfil público firme no Instagram, no TikTok ou canal próprio no YouTube que se possa atribuir a ela sem confundi-la com a homônima do Paraná. O caminho que resta é o livro: editora, ISBN e a capa com o nome.

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Amazzonia verde d'acqua
Amazzonia verde d'acqua
Poesia bilingue de 2020, na coleção Lo Specchio da Mondadori, com o canto amazônico dividido em água, terra, ar e árvores.
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Amazzonia madre d'acqua
Amazzonia madre d'acqua
Poesia de 2007 da Passigli, ligada ao Prêmio Sandro Penna, com o verso bilingue sobre a água e a floresta.
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