Amir Haddad de todos os teatros não ensina um passo a passo de direção. O título foi escolhido pelo próprio Amir Haddad, e o miolo desfaz a espera de fórmula. Na introdução de um dos capítulos, ele escreve que não há método: o que há é liberdade. O volume, publicado em 2022 pela Editora Cobogó, organiza falas e escritos que durante décadas circularam em aula, ensaio e praça.
Claudio Mendes e Gustavo Gasparani, atores e diretores, montaram o livro a partir do acervo de Amir. Daniel Schenker, crítico e professor, abre com um texto sobre a carreira. A orelha é de Clarice Niskier. A edição tem 176 páginas, formato 14 por 21 centímetros, capa brochura e ISBN 978-65-5691-069-7. O lançamento ocorreu na sede do Tá na Rua, no dia em que Amir completou 85 anos.
Como o livro está organizado
A Revista Continente descreve a obra em partes, e a primeira não é de Amir: chama-se Amir Haddad: múltiplo por excelência e foi escrita por Schenker. A segunda, Na sala de ensaio, reúne depoimentos do diretor colhidos ao longo dos anos. É ali que entra a recusa do método e a comparação com Bertolt Brecht, Peter Brook e Constantin Stanislavski, não como modelos a copiar, mas como gente que pensou o teatro e mudou a prática. Outra passagem expõe a arte pública, o nome que ele dá ao teatro tirado do prédio e posto na esfera da rua.
O leitor que espera biografia corrida vai encontrar outra coisa. Há trajetória, porque Schenker a conta, mas o centro são frases de trabalho: como ler um texto, errar no ensaio, tratar o ator, recusar a plateia passiva. Quem quiser a narrativa de vida escrita por um biógrafo tem outro livro, de 2026, Amir Haddad: a utopia representada, de Thiago Sogayar Bechara, nas Edições Sesc São Paulo. Os dois volumes não se substituem.
Para quem vale abrir o volume
O livro serve a atores, diretores e leitores de teatro brasileiro que conhecem o Tá na Rua de ouvir falar e nunca acharam as ideias dele num só lugar. O próprio Amir, em entrevistas da época do lançamento, falava de quarenta anos de aula e da sensação de espalhar pensamento sem ver onde ele ficava. O volume responde a isso. Não promete formar diretor num prazo curto. Traz um recorte editado da fala de um encenador que já tinha o Molière, o Shell, o Sharp, a Ordem do Mérito Cultural e o honoris causa da UFRJ quando o papel finalmente saiu.
Também não é ficha de espetáculo. A construção, O marido vai à caça, o Oficina e o Tá na Rua aparecem como chão da reflexão, não como lista de ingressos. A capa, assinada pelo Bloco Gráfico, mostra Amir em traje de rua, com fitas e estandarte, o mesmo universo visual do grupo. Quem chega pelo livro e quer a cena ao vivo segue para o site do Tá na Rua. Quem chega pela rua e quer a frase escrita encontra o caminho inverso, na página da Cobogó.


