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Amir Haddad

Nascimento: 1937 Guaxupé, MG / Rio de Janeiro, RJ
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Ator, diretor e professor nascido em Guaxupé em 1937. Ajudou a fundar o Teatro Oficina em 1958 e criou o Tá na Rua em 1980.

Amir Haddad queria ser ator e foi reprovado no exame da Escola de Teatro, aplicado por Alfredo Mesquita. No grupo Oficina, criado em 1958 com José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi e outros colegas da Faculdade de Direito, o lugar que lhe coube foi a direção. O abandono da faculdade veio junto com o grupo. Décadas depois, o mesmo homem passaria a defender que o teatro não precisa de prédio, de papel fixo nem de plateia comprada na bilheteria.

Quem procura o nome encontra um diretor, ator e professor nascido em Guaxupé, Minas Gerais, em 2 de julho de 1937. Não é o cantor francês que divide o nome em outras línguas. É o mineiro que ajudou a abrir o Teatro Oficina, deixou o grupo no começo dos anos 1960 e, em 1980, fundou no Rio de Janeiro o Tá na Rua, coletivo de teatro feito em praça, largo e calçada. Aos 89 anos, segue em cena com esse grupo.

Quem é Amir Haddad

Filho de Jorge Abrahão Haddad e de Nassima Camillo Abrahão, ambos de origem síria, Amir saiu de Guaxupé aos cinco anos, quando a família foi para Rancharia, no oeste de São Paulo. Aos 14 anos mudou-se para a capital. Estudou no Colégio Estadual Franklin Delano Roosevelt e entrou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na Universidade de São Paulo. O teatro entrou antes do diploma. No pátio da escola, viu Uma mulher e dois palhaços, dirigida por José Renato, do Teatro de Arena, com Eva Wilma, Sérgio Britto e John Herbert. O curso de Direito ficou pelo caminho quando o Oficina nasceu.

Ele vive e trabalha no Rio de Janeiro. Santa Teresa é o bairro que o abriga há mais de cinquenta anos, e foi num apartamento desse morro que, em 2022, deu um depoimento ao Arquivo Geral da Cidade. A trajetória pública, portanto, não cabe num único palco: há o estudante de Direito que vira diretor à força do exame perdido, o encenador de sala, o professor e o homem da rua.

Como o Oficina virou laboratório e não carreira de ator

O relato mantido pelo Tá na Rua é direto: Amir desejava ser ator, mas a reprovação com Alfredo Mesquita fechou essa porta. No Oficina, o desejo não se cumpriu do jeito imaginado. Coube dirigir. No fim dos anos 1950 o grupo não se apresentava como empresa. A decisão era manter uma espécie de laboratório, em conversa com um teatro de autores brasileiros, num momento em que a direção profissional ainda tinha o sotaque do Teatro Brasileiro de Comédia.

Entre os trabalhos do período está a direção de Cândida, de Bernard Shaw, convite que partiu dos colegas José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi. O Oficina segue em atividade, hoje com o nome Uzyna Uzona. Amir deixou o núcleo no começo da década de 1960. A saída não apagou a convivência histórica: em 2024, na festa do Prêmio Shell, ele e Renato Borghi foram homenageados como fundadores do Oficina.

O que Belém e o Rio mudaram na cena

Em 1962, em Belém, o contato com as expressões dramáticas da cultura popular do Pará entrou na conta que o grupo passa a contar como origem da linguagem. Amir participou, como professor de direção, da implantação do Curso de Formação de Ator do Serviço de Teatro da Universidade Federal do Pará, curso que depois levaria à Escola de Teatro da UFPA. Dali a cena iria se abrir: disposição não convencional, uso franco do espaço, troca entre atores e quem assiste, desmonte do texto fechado.

Em 1965 mudou-se para o Rio de Janeiro para assumir a direção do Teatro da Universidade Católica. No fim dessa década, à frente do grupo A Comunidade, instalado no Museu de Arte Moderna, dirigiu A construção, de Altimar Pimentel, e recebeu o Prêmio Molière de direção de 1969. No espetáculo já aparecia a fusão de palco e plateia que a biografia do Tá na Rua aponta como marca. Em 1970 dirigiu O marido vai à caça, de Georges Feydeau, com Fernanda Montenegro, Italo Rossi, Sérgio Britto e Jacqueline Laurence, e o grupo registra um segundo Molière de direção.

Como o Tá na Rua ocupa a cidade

O Tá na Rua nasce em 1980. A frase que o diretor repetiu em público resume o programa: dramaturgia sem literatura, ator sem papel e teatro sem arquitetura. O sentido prático é outro. O espetáculo sai do edifício, entra em praça e largo, e aceita quem estiver passando. Em 2026, ao falar de financiamento da arte popular, Amir separou a sala fechada, onde a bilheteria escolhe um público parecido consigo mesmo, da rua, onde a plateia não é selecionada.

A sede fica na Lapa, na Avenida Mem de Sá, 35. Em entrevista, ele contou que a casa foi cedida em comodato no governo Brizola. O Estado do Rio de Janeiro reconheceu o trabalho como patrimônio cultural imaterial. O próprio grupo contabiliza mais de 250 espetáculos em mais de sessenta anos de ofício. A rua não apagou a sala. Amir dirigiu Noite de reis, de Shakespeare, em 1997, com Renata Sorrah, Pedro Cardoso e Tonico Pereira; A alma imoral, de Nilton Bonder, com Clarice Niskier, estreada em 2006 e retomada em temporadas; e Antígona, de Sófocles, com Andréa Beltrão, em 2016. Também assinou O mercador de Veneza, com Maria Padilha e Pedro Paulo Rangel, e dirigiu shows de Ney Matogrosso e Beto Guedes. Na televisão, o nome aparece em trabalhos como Explode coração, Como uma onda, Sob pressão e Órfãos da terra.

O que essa lista mostra

  • Sala e rua convivem: Feydeau, Shakespeare e Sófocles de um lado, cortejo e praça do outro.
  • O prêmio de 1969 e o de 1970 são de direção, não de atuação, o ofício que o exame lhe negou.
  • O grupo, e não um método com marca registrada, é o lugar onde a linguagem de rua se sustenta desde 1980.
  • A sede da Lapa e o site do coletivo são o endereço estável para quem quer a agenda, o acervo e a história.

Quais prêmios ajudam a ler a carreira

Os prêmios não substituem os espetáculos, mas impedem que a rua seja lida como falta de ofício. A biografia mantida pelo Tá na Rua alinha alguns marcos:

  • Prêmio Molière de direção, 1969, por A construção, de Altimar Pimentel.
  • Segundo Prêmio Molière de direção, 1970, por O marido vai à caça, de Georges Feydeau.
  • Prêmio Shell de diretor, 1989, por Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar.
  • Prêmio Sharp de diretor, 1997, por O mercador de Veneza, de William Shakespeare.
  • Título de comendador da Ordem do Mérito Cultural, em 2006.
  • Doutor honoris causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2019.

Em 2024, na entrega do Prêmio Shell, a homenagem conjunta a Amir e a Renato Borghi tratou os dois como fundadores do Teatro Oficina. O gesto fecha um arco que começou no Largo de São Francisco e não se resolveu só na calçada.

Onde o pensamento dele foi parar em livro

Durante décadas a transmissão foi oral: aula, ensaio, praça. Em 2022, a Editora Cobogó publicou Amir Haddad de todos os teatros, 176 páginas, título escolhido por ele. Claudio Mendes e Gustavo Gasparani organizaram o volume a partir do acervo do diretor. Daniel Schenker assina o texto sobre a carreira, e Clarice Niskier escreveu a orelha. O livro não se apresenta como biografia nem como manual. Numa das partes, chamada Na sala de ensaio, Amir avisa que não há método à espera do leitor. O que há, diz ele, é liberdade. Outra passagem reúne o que ele chama de arte pública: teatro fora do espaço institucional, na rua e na praça.

O lançamento coincidiu com os 85 anos, na sede do Tá na Rua. Em 2026, outro livro entrou em circulação, agora escrito por outra pessoa: Amir Haddad: a utopia representada, de Thiago Sogayar Bechara, pela Edições Sesc São Paulo, com prefácio de Fernanda Montenegro e depoimentos de artistas que trabalharam com ele, entre eles Ney Matogrosso, Renata Sorrah, Andréa Beltrão e Clarice Niskier. É um volume sobre a trajetória, não um substituto do livro em que as frases são dele.

Onde acompanhar o trabalho hoje

Zaratustra: uma transvaloração dos valores nasceu do encontro com o livro de Nietzsche que a atriz Camila Amado levou à casa de Santa Teresa. Amir dirige e também atua, com o elenco do Tá na Rua. Em 2024 o espetáculo entrou no Palco Giratório do Sesc Brasil e percorreu 11 cidades. Em abril de 2026 houve apresentação no Teatro I PRIO, no Jockey Club do Leblon. Em julho de 2022, no aniversário de 85 anos, ele disse ao jornal O Globo que uma peça com Claudia Abreu seria o último trabalho como diretor. Os anos seguintes o mantiveram em cena com o Zaratustra.

O Festival de Teatro Amir Haddad começou em 2023. A idealização é de Máximo Cutrim, a direção geral é do próprio Amir e a realização é do Instituto Tá na Rua. A quarta edição ocupou a Lapa de 18 a 25 de setembro de 2026, com o tema Viva o Povo Brasileiro. O endereço contínuo do trabalho é o site do Grupo Tá na Rua. A trajetória comentada pelo coletivo está na página do grupo sobre Amir, e a ficha de carreira também pode ser cruzada na Enciclopédia Itaú Cultural.

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Projetos de Amir Haddad

Grupo Tá na Rua
Grupo Tá na Rua
Coletivo carioca de teatro de rua fundado por Amir Haddad em 1980, com sede na Lapa e apresentações em praça aberta.
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