No Maranhão, José Ribamar Ferreira era nome de fila. Todo mundo se chamava Ribamar. Então ele inventou outro: pegou o Ferreira do pai, o Goulart da mãe, mudou a grafia e ficou Ferreira Gullar — “um nome inventado, como a vida é inventada”, disse. O truque de batismo avisa o resto da biografia: um poeta que passou seis décadas testando até onde o poema ainda era poema.
Quem busca o nome hoje chega quase sempre pelo Poema sujo, escrito no exílio em Buenos Aires, ou pela lista de vestibular. Por trás do título há um crítico de arte, um dramaturgo do Teatro Opinião, o teórico do neoconcretismo e um cronista da Folha de S.Paulo. Nasceu em São Luís em 10 de setembro de 1930 e morreu no Rio de Janeiro em 4 de dezembro de 2016.
Quem foi Ferreira Gullar além do Poema sujo?
Filho de Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, um dos onze irmãos, cresceu em São Luís numa infância de rua, bola e pesca no rio Bacanga — o retrato que ele mesmo devolveu em entrevistas e no poema longo. Aos 18 frequentava os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero Recreativo, onde aos domingos se lia verso em voz alta. Leu com fúria Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira; primeiro se escandalizou com o modernismo, depois aderiu.
O primeiro livro, Um pouco acima do chão, saiu em 1949. O que o tornou autoridade não foi a estreia, e sim a recusa de ficar numa só escola. A luta corporal (1954) já quebra a página: espacializa o verso, fragmenta a palavra, antecipa o que os paulistas do grupo Noigandres iam chamar de poesia concreta. A Enciclopédia Itaú Cultural registra o encontro com Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari nesse ciclo, e a participação na 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM de São Paulo, em 1956.
Depois veio a briga. Em 1957 Gullar publicou o artigo que recusa o racionalismo excessivo da poesia concreta e pede subjetividade. Em 1959 escreveu o Manifesto Neoconcreto no Jornal do Brasil e a Teoria do não-objeto. Ao lado de Hélio Oiticica e Lygia Clark, deslocou a vanguarda da lógica matemática para a experiência do corpo. Inventou o livro-poema, o poema espacial e o poema enterrado — uma sala no subsolo, cubos coloridos, a palavra “rejuvenesça” escondida no último. Foi a última peça neoconcreta dele. A palavra, concluiu, estava prestes a abandonar a poesia. Ele saiu do grupo.
De São Luís ao Rio: vanguarda, CPC e o teatro
Morando no Rio, Gullar atravessou a vanguarda e desembocou na política. Em 1962 foi eleito presidente do Centro Popular de Cultura da UNE. Em 1964 filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro no dia do golpe, segundo ele mesmo. A poesia mudou de método outra vez: cordel, fala popular, peça de resistência. Com Oduvaldo Vianna Filho escreveu Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), que levou os prêmios Molière e Saci. Com Dias Gomes, Dr. Getúlio, sua vida e sua glória. Depois do golpe, ajudou a fundar o Teatro Opinião.
Com o AI-5, em 1968, foi preso com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Caiu na clandestinidade. Em 1971 exilou-se: Paris, Moscou, Santiago, Lima, Buenos Aires. Enviava artigos ao Pasquim. Em 1975 publicou Dentro da noite veloz, livro da Guerra Fria, do Vietnã, de Che Guevara e do Rio visto de longe. No ano seguinte saiu o Poema sujo, cerca de cem páginas escritas em Buenos Aires como “testemunho final, antes que me calassem para sempre”.
Voltou em 1977. Foi preso e torturado; a libertação veio sob pressão internacional. Trabalhou na imprensa carioca e como roteirista da Rede Globo, inclusive ao lado de Dias Gomes. As memórias desse desterro estão em Rabo de foguete, relançado pela José Olympio.
- A luta corporal (1954): o laboratório que antecipa a poesia concreta
- Manifesto Neoconcreto e Teoria do não-objeto (1959)
- Dentro da noite veloz (1975) e Poema sujo (1976)
- Toda poesia, reunião revista pelo autor, na Companhia das Letras
- Rabo de foguete: o relato em prosa dos anos de exílio
Quais livros marcam as fases da obra?
A crítica costuma fatiar Gullar em movimentos, e a fatia ajuda se ninguém tratar cada fase como identidade descartável. Primeiro o intimismo e a experimentação gráfica. Depois o neoconcretismo. Depois o engajamento — cordel, CPC, teatro. Depois o exílio, que mistura tudo no Poema sujo. Por fim a volta: Na vertigem do dia (1980), Barulhos (1987), Muitas vozes (1999), Em alguma parte alguma (2010, Jabuti de Livro do Ano de ficção).
Toda poesia, na edição da Companhia das Letras de 2021, reúne os dez livros de poemas, de A luta corporal a Em alguma parte alguma, com posfácio de Antonio Cicero. É o mapa da literatura que ele deixou em verso. O aprofundamento de cada título principal fica nas páginas de projetos; no perfil cabe o arco.
Há ainda ensaio de arte — Vanguarda e subdesenvolvimento, Etapas da arte contemporânea, Relâmpagos — e a biografia Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde. Na televisão, colaborou em Irmãos Coragem, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Araponga.
Prêmios, ABL e por onde começar a ler
Foi indicado ao Nobel de Literatura em 2002 por professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal. Ganhou o Jabuti com Resmungos (2007) e de novo com Em alguma parte alguma (2011). Em 2010 recebeu o Prêmio Camões e o título de doutor honoris causa da UFRJ. Em 9 de outubro de 2014 foi eleito para a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras — a mesma que João Cabral de Melo Neto ocupara — e tomou posse em 5 de dezembro. A cadeira tem como patrono Tomás Antônio Gonzaga. Recusara convites anteriores.
Nas décadas finais criticou o socialismo que defendera na juventude e os governos petistas, posição registrada em entrevistas. Continua sendo lido, sobretudo, pela poesia.
Quem chega pela escola pode ler “O açúcar”, “Não há vagas” e o Poema sujo sem culpa, desde que não pare no recorte de antologia. Para ver o experimentalista, A luta corporal ainda é a porta. Para o poeta da ditadura, Dentro da noite veloz. Para o conjunto, Toda poesia. As edições correntes da Companhia das Letras e da José Olympio são a rota estável em português. O perfil de autor na Amazon concentra o que está em circulação. A Enciclopédia Itaú Cultural e a Wikipédia em português sustentam a cronologia.
Em São Luís há avenida com o nome dele. Em Imperatriz, um teatro. No Rio, o corpo foi velado na Biblioteca Nacional — pedido dele — e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério de São João Batista. O que circula de fato é o verso. O nome inventado cumpriu o que prometeu: uma vida feita de rupturas, e um poema sujo no meio delas.




