Rabo de foguete é o livro em que Ferreira Gullar conta, em prosa, o que o Poema sujo já tinha vomitado em verso: a clandestinidade, o desterro e a volta para o porão. Publicado originalmente em 1998 e relançado pela José Olympio em dezembro de 2024, o volume descreve os anos 1970 como odisséia pessoal e documento de uma geração perseguida na América Latina.
A editora o apresenta como memórias com ritmo de romance. Davi Arrigucci Jr. escreveu na Folha de S.Paulo que a exemplaridade do destino do poeta, “transformado em personagem de si mesmo”, tem valor simbólico para chegar a cada um. Não é tratado de história política. É o relato de quem foi voz contrária ao regime, caiu na ilegalidade no fim dos anos 1960 e só voltou ao Brasil em 1977.
Do que trata este livro
Gullar narra o abrigo de amigos no Rio, depois o desterro no Uruguai, na Argentina, na União Soviética, no Chile e no Peru. A odisseia termina com o retorno ainda como perseguido político, até os porões do DOI-CODI. A edição da José Olympio traz fotografias do exílio e imagens inéditas do passaporte cancelado pela ditadura e de relatórios do Serviço Nacional de Informação sobre o paradeiro do poeta.
Há trechos que a crítica destaca: o “curso” em Moscou, o golpe no Chile, a firmeza na cadeia ao lado de Caetano Veloso, Antonio Callado e Paulo Francis — o próprio Caetano lembrou essa convivência. Gullar não poupa só o regime militar: critica também erros de estratégia do PCB. O tom é o de quem já tinha se desiludido do socialismo sem apagar a desigualdade que o levou a militar.
Para quem este livro faz sentido
- Quem leu o Poema sujo e quer o chão factual do exílio
- Leitores de memórias da ditadura e da esquerda latino-americana
- Quem pesquisa o Teatro Opinião, o CPC e o PCB a partir de um testemunho de artista
- Quem prefere prosa narrativa à densidade do poema longo
Contexto na carreira do autor
O livro sai duas décadas depois da volta. Entre o exílio e as memórias, Gullar escreveu para jornal e televisão, reuniu a poesia, entrou na ABL só em 2014. Rabo de foguete não compete com Toda poesia: é outro gênero. A poesia do exílio está em Dentro da noite veloz e no Poema sujo. Aqui a matéria é a vida que tornou esses livros possíveis — e o preço pago por eles.
A reimpressão de 2024, com 256 páginas, recoloca o título em circulação quando o debate sobre os anos de chumbo volta à estante. Nélida Piñon, em depoimento ao Globo, falou de uma vida “bonita, difícil e de grande dignidade”. Antonio Carlos Secchin sublinhou a coragem de defender a liberdade em momentos críticos. São juízos de pares, não orelha vazia.
Como ler e o que não esperar
Leia como testemunho, não como manual. Há lacuna, humor e acerto de contas. Não espere a teoria do não-objeto nem o manifesto neoconcreto: a vanguarda dos anos 1950 mal entra. Não espere também o teatro de 1966, a não ser como vida anterior ao salto. O livro cobre a década em que o poeta virou clandestino e, depois, exilado.
A edição em capa comum da José Olympio é a forma corrente de compra, com Kindle disponível. Na Amazon, a página do item permite comparar o volume físico. Quem quer só o poema vai ao livro da Companhia das Letras. Quem quer saber como Gullar sobreviveu para escrevê-lo fica com o rabo de foguete.



