Ferreira Gullar escreveu o Poema sujo em Buenos Aires, em 1975, com a sensação de que o cerco ia fechar. “Decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”, registrou. O volume saiu em 1976 e virou o livro pelo qual o nome dele é procurado até hoje: um poema de cerca de cem páginas, infância em São Luís, corpo, cidade, ditadura e a língua em golfada.
A edição corrente da Companhia das Letras, de 2016, traz o texto em 112 páginas, com prefácio de Antonio Cicero. Não é antologia. É um único poema, longo, que mistura o experimentalismo da juventude, a fala do cordel e a urgência do exílio. A editora o descreve como “expressão máxima de uma subjetividade convulsa pela atmosfera sufocante da ditadura”. A Enciclopédia Itaú Cultural o trata como a obra que consolida Gullar entre os grandes da poesia brasileira moderna.
Do que trata este poema
Gullar disse que quis “vomitar, em escrita automática, sem ordem discursiva, a massa da experiência vivida” e, a partir desse magma, construir o poema. O resultado não é diário. É memória em estado de linguagem: o menino de São Luís, o cheiro, o sexo, o açúcar, o maranhão, o Rio, a política. José Guilherme Merquior falou de um realismo caricatural do apego à finitude das pessoas e das coisas. A crítica também nota a riqueza rítmica — palavras aglutinadas, som que às vezes atropela a sintaxe.
Quem chega pelo vestibular da UFPR, que o inclui como leitura obrigatória, encontra um texto mais sujo do que a escola costuma gostar. Há lixo, desejo, medo de desaparecer. Há também o poeta que já tinha sido concreto, neoconcreto e engajado, agora sem manifesto, escrevendo como se aquela fosse a última página.
Para quem este livro faz sentido
- Quem quer o livro central de Ferreira Gullar, não uma seleção tardia
- Estudantes e professores que trabalham ditadura, exílio e poesia brasileira do século XX
- Leitores que chegaram por “O açúcar” ou “Não há vagas” e precisam do poema longo
- Quem compara vanguarda e lírica social no mesmo autor
Contexto na carreira do autor
Antes do Poema sujo veio Dentro da noite veloz (1975), o volume político do exílio. Depois, a volta ao Brasil em 1977, a prisão, a imprensa e, em 1980, a primeira reunião de Toda poesia. O poema longo não substitui esses livros: concentra o que eles espalharam. Foi escrito quando a prisão por agentes da ditadura parecia iminente. Em 2011, inspirou a vídeoinstalação e, depois, a série documental Há muitas noites na noite, de Silvio Tendler, exibida na TV Brasil.
A Companhia das Letras republicou o texto quatro décadas depois da estreia, ainda tratando-o como clássico em circulação. É a rota editorial mais estável em português. Quem quer o conjunto dos dez livros de poemas vai a Toda poesia; quem quer o golpe único fica aqui.
Como ler e o que não esperar
Leia de um fôlego, mesmo que o fôlego falhe. O poema não se comporta como capítulo de romance nem como soneto escolar. Há trechos que parecem lista, trechos que parecem grito, trechos que voltam à infância. Não espere biografia linear: a ordem é a da memória sob ameaça. Não espere também o Gullar da peça de teatro ou o crítico de artes plásticas — esses ofícios aparecem só como vida que o verso arrasta.
A edição em capa comum da Companhia das Letras é a forma corrente de compra. Na Amazon, a página do item permite comparar o volume físico disponível no momento. Vale o poema inteiro, não o trecho que a internet recorta. Gullar temia ser calado; o livro é o que restou dessa pressa.



