Toda poesia não é um “melhores de”. É o arquivo em verso: dez livros de Ferreira Gullar, de A luta corporal (1954) a Em alguma parte alguma (2010), na edição revista pelo próprio poeta e publicada pela Companhia das Letras em 2021. São 536 páginas. Quem quer um único título para entender a curva — do laboratório concreto ao Jabuti tardio — começa aqui.
O volume tem posfácio de Antonio Cicero, escrito para esta edição. Cicero insiste que a produção inclui “não apenas a beleza, mas a contingência, a precariedade, a banalidade, a feiura, a morte mesma”. É um aviso útil: Gullar não cabe no cartão-postal do poeta nacional. A reunião confirma o que a biografia já mostra por etapas — ele mudava de método quando o método ameaçava virar doutrina.
O que este volume reúne
Entre um livro e outro há página preta, índice por livro no começo e índice alfabético de poemas no fim. A editora descreve o arco de quase sessenta anos. Cabe o experimentalismo gráfico de A luta corporal, os poemas concretos e neoconcretos, os romances de cordel, Dentro da noite veloz, o Poema sujo, Na vertigem do dia e os livros da volta. Não é fac-símile de cada primeira edição: é o texto que o autor deixou revisado.
Quem já tem o Poema sujo em volume avulso não está comprando o mesmo objeto. Ali está o golpe único do exílio. Aqui o golpe aparece no meio de uma vida inteira de poemas, com vizinhança: o intimismo, o teatro da fala, a velhice. A diferença é de escala e de uso. Uma coisa é ler o testemunho. Outra é ver onde ele se encaixa.
Para quem este livro faz sentido
- Quem quer a obra poética completa em português, num só volume
- Professores e pesquisadores que precisam localizar um poema sem caçar dez edições
- Leitores que chegaram pelo Poema sujo e querem o antes e o depois
- Quem prefere a edição revista pelo autor à soma de sebos
Contexto editorial
A primeira reunião com o título Toda poesia saiu em 1980, depois da volta do exílio. Foi reeditada e aumentada ao longo das décadas, inclusive pela José Olympio. A Companhia das Letras publicou esta edição em 1º de julho de 2021, com projeto de capa de Elaine Ramos. É a forma corrente de encontrar o conjunto em livraria e na Amazon.
Gullar morreu em 2016. O volume de 2021 não inventa livro póstumo: organiza o que ele já havia revisado, até Em alguma parte alguma, Jabuti de 2011. O Prêmio Camões, recebido em 2010, aparece na orelha como marco da consagração em língua portuguesa. A reunião serve a essa consagração sem transformar o poeta em estátua: o índice alfabético devolve o leitor ao poema solto, que é como a obra realmente circula na escola e na internet.
Como ler e o que não esperar
Não leia de A a Z por dever. Use o índice. Entre por A luta corporal se a pergunta for vanguarda; por Dentro da noite veloz se a pergunta for ditadura; pelo Poema sujo se a pergunta for o nome do autor. O posfácio de Cicero ajuda a não tratar cada fase como conversão religiosa. Gullar não “evolui”: ele abandona e reaproveita.
A edição em capa comum da Companhia das Letras é a compra estável. Há também Kindle. Não há, neste volume, o teatro, as crônicas de Resmungos nem as memórias de Rabo de foguete. Quem busca só o poema longo pode ir ao livro avulso. Quem busca o poeta inteiro em verso fica com este.



