Carlos Lacerda, segundo o próprio memorialista, teria sentenciado: Nelson Rodrigues era só pornográfico; Dias Gomes, pornográfico e subversivo. A frase caiu sobre a proibição de O berço do herói. Décadas depois, o xingamento vira título. Apenas um subversivo é a autobiografia em que o dramaturgo recusa a estátua e conta a carreira no tom de quem já escreveu Odorico: ironia, cena, tipo real tratado como personagem.
A Bertrand Brasil relançou o volume no centenário de 2022, 252 páginas, a partir do texto de 1998. Não é diário íntimo nem balanço acadêmico. É o autor no palco de si mesmo, tentando decifrar quem é sem esculpir o busto impecável que o gênero costuma pedir. Eduardo Portella, no comentário que a edição destaca, viu aí a subversão da autobiografia convencional. Laura Mattos notou o tom de romance: gente da vida real entra como se saísse de novela.
O que o livro cobre
Dias Gomes parte da Bahia natal, atravessa a mudança para o Rio, a temporada em São Paulo, o rádio, o PCB, as demissões, o teatro censurado, a TV Globo, o casamento com Janete Clair e os anos depois da ditadura. A imaginação, admite, tem “caráter compulsivo”: está sempre à caça de uma história que leve a alguma verdade. Por isso o memorial não se organiza como cronologia burocrática. Organiza-se como sequência de cenas — o DIP no dia da estreia, o contrato com Procópio, a lista negra, o convite da televisão, o telefone que a censura gravou.
Quem já leu a ficha do autor encontra aqui o avesso útil: o preço de cada virada, a briga política que encerrou parcerias, a forma como Janete sustentou a casa e os textos quando o nome dele não podia aparecer. O livro não substitui as peças. Ilumina por que as peças são do jeito que são. O homem que inventou o santo de Asa Branca sabia, na pele, o que é ter a biografia reescrita pelo Estado.
Para quem vale a pena
- Leitor de teledramaturgia que quer os bastidores sem folhetim de fofoca.
- Quem estuda teatro brasileiro e precisa da voz do dramaturgo, não só da crítica.
- Quem chegou por O pagador de promessas ou O bem-amado e quer o mapa da vida que produziu esses textos.
Não espere revelação de alcova. Espere política, ofício e autoironia. O título é a tese: subversivo, sim, mas “apenas” — a palavra reduz o pânico policial e devolve o tamanho humano. Dias Gomes se filiou ao PCB, tomou demissão, escreveu sob pseudônimo, viu peça e novela caírem no mesmo dia da estreia. Contar isso sem vitimismo é o feito do livro.
Como o texto se comporta
O ritmo é o do contador de casos, não o do ensaísta. Capítulos avançam por episódio. Intelectuais, atores, censores e parentes entram com o mesmo traço que o autor usava para criar tipo de novela: um gesto, uma fala, uma contradição. A ditadura não aparece como capítulo isolado de horror; aparece como clima que vai fechando o rádio, o palco, o telefone. Quando a Globo entra, o memorial não vira making-of ufanista: vira o relato de um homem de teatro que aceitou a televisão porque o resto tinha sido interditado.
A reedição de 2022 devolve o livro a quem só conhecia o autor pela reprise e pelo vestibular. O e-book existe; o item principal é o papel da Bertrand. Vale ter ao lado das peças, não no lugar delas. A autobiografia explica o temperamento; o teatro prova o ofício.
Depois de fechar o volume
O passo natural é voltar a O berço do herói / Roque Santeiro com o xingamento de Lacerda na cabeça, e a O pagador de promessas com a teimosia de quem não troca a palavra. O memorialista e o dramaturgo são o mesmo homem: os dois desconfiam do monumento. Apenas um subversivo é o documento em que Dias Gomes, perto do fim da vida, recusa o mármore e prefere a ata irônica da própria travessia — da Bahia ao acidente de 1999, do terreiro de Zé do Burro à cadeira 21 da ABL.




