Zé do Burro carrega uma cruz até Salvador para cumprir promessa feita a Iansã. Odorico Paraguaçu precisa de um cadáver para inaugurar o cemitério. Roque Santeiro só vira santo porque Asa Branca fatura o milagre. Três invenções de Alfredo de Freitas Dias Gomes — o baiano que passou a vida empurrando o palco brasileiro para a rua e, quando a ditadura fechou o rádio, para a televisão.
Quem procura Dias Gomes hoje raramente quer só a ficha de um romancista da Academia Brasileira de Letras. Quer o dramaturgo de O Pagador de Promessas, o inventor de Sucupira, o homem que teve Roque Santeiro proibida em 1975 e devolvida ao ar dez anos depois. É essa passagem — do teatro censurado à novela que virou conversa nacional — que ainda explica o nome.
Quem foi Dias Gomes
Nasceu em Salvador, em 19 de outubro de 1922, filho do engenheiro Plínio Alves Dias Gomes e de Alice Ribeiro de Freitas Gomes. Fez o primário no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, dos Irmãos Maristas, e começou o secundário no Ginásio Ipiranga. Em 1935 a família mudou para o Rio de Janeiro. Entrou na Faculdade de Direito em 1943 e largou no terceiro ano: o texto já tinha ganhado o rumo.
Aos quinze anos escreveu A Comédia dos Moralistas, premiada pelo Serviço Nacional de Teatro e pela UNE. Nunca foi encenada. O palco profissional chegou em 1942, com Pé-de-Cabra, escrita para Procópio Ferreira. O Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo vetou a estreia por “conteúdo marxista”. Dias Gomes ainda não tinha lido Marx. Procópio arrancou a liberação com corte de dez páginas. A parceria rendeu contrato de exclusividade e mais textos — Zeca Diabo, João Cambão, Dr. Ninguém — até o desentendimento político. Procópio não aceitava a preocupação social que o jovem autor insistia em colocar na boca das personagens.
Casou-se em 13 de março de 1950 com Janete Stocco Emmer, a Janete Clair do rádio e da novela. Tiveram filhos juntos. Viúvo em 1983, casou-se no ano seguinte com a atriz Bernadeth Lyzio. Morreu em 18 de maio de 1999, aos 76 anos, num acidente de trânsito na Avenida 9 de Julho, em São Paulo, ao voltar de uma encenação de Madame Butterfly.
Rádio, PCB e a lista negra
Entre 1944 e 1964 adaptou cerca de quinhentas peças, contos e novelas para o rádio. Oduvaldo Vianna o chamou para a Rádio Panamericana, em São Paulo. Passou pela Tupi-Difusora, América, Bandeirantes, Rádio Clube do Brasil e, de 1956 a 1964, pela Rádio Nacional. A oficina radiofônica afiou o diálogo e o tipo popular que depois migrariam para a TV.
Com o fim do Estado Novo, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e integrou o Comitê Cultural. Em 1953 viajou à União Soviética numa delegação de intelectuais. Voltou demitido e perseguido. Escreveu para a televisão ainda incipiente sob anonimato; Janete Clair negociava os textos. Distante dos palcos por quase uma década, voltou com Os Cinco Fugitivos do Juízo Final (1954). O golpe de 1964 o tirou da Rádio Nacional. O palco, um a um, foi fechando.
- O Berço do Herói (1965) — proibida no dia da estreia; viraria Roque Santeiro.
- O Santo Inquérito (1966) — Branca Dias diante da Inquisição.
- Dr. Getúlio, Sua Vida, Sua Glória (1968) — escrita com Ferreira Gullar para o Grupo Opinião.
- Campeões do Mundo (1979) — o sequestro do embaixador americano, em tom de autocrítica.
O Pagador de Promessas e o teatro que virou cinema
A virada definitiva chegou em 1959–1960. O Pagador de Promessas, encenada no Teatro Brasileiro de Comédia, narra o calvário de Zé do Burro: o sitiante baiano que promete a Iansã carregar uma cruz até a igreja de Santa Bárbara se o burro sarar. O padre tranca a porta porque a promessa nasceu no candomblé. Anatol Rosenfeld leu no herói um traço mítico que naufraga nos códigos da cidade moderna. O texto segue nas salas de aula, nos vestibulares e nas remontagens.
Anselmo Duarte adaptou a peça para o cinema em 1962. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de filme estrangeiro. No mesmo ciclo vieram A Invasão, sobre favelados que ocupam um prédio abandonado no Rio, e A Revolução dos Beatos, no sertão de coronéis, cangaceiros e messianismo. A dramaturgia de Dias Gomes não ilustra o povo: coloca o povo no centro e deixa a instituição — igreja, exército, prefeitura, imprensa — mostrar a costura.
Como a televisão herdou o palco censurado
Depois do AI-5, restava o convite de Boni para a TV Globo. Janete Clair já estava na emissora desde 1967. Dias estreou em 1969 com A Ponte dos Suspiros, ainda “capa e espada”, assinada com o pseudônimo Stela Calderón para furar a censura. A segunda novela, Verão Vermelho, já ia com o nome verdadeiro, ambientada na Bahia, com desquite, reforma agrária e candomblé. Bandeira 2 (1971–1972) levou o jogo do bicho e o subúrbio da Zona Norte — Olaria, Ramos, Imperatriz Leopoldinense — para o horário nobre, com um bicheiro como protagonista.
Em 1973 escreveu a primeira novela diária em cores do Brasil: O Bem-Amado. O prefeito Odorico Paraguaçu quer inaugurar o cemitério de Sucupira e ninguém morre. Contrata o matador arrependido Zeca Diabo. A trama foi a primeira novela brasileira vendida para o exterior — antes só se comercializavam os textos. Virou seriado entre 1980 e 1984. Em 1974, O Espigão falava de crescimento desordenado e ecologia. Em 1976, Saramandaia meteu realismo fantástico na teledramaturgia: gente que pega fogo de tesão, explode de tanto comer, põe o coração pela boca. A alegoria era o país da censura, disfarçada de milagre.
A censura acertou em cheio em 1975. Roque Santeiro, com dezenas de capítulos gravados, foi proibida para as 20h. A peça-mãe, O Berço do Herói, já tinha sido vetada uma década antes, no governo de Carlos Lacerda. Só em 1985, com a abertura, a novela foi ao ar. Dias Gomes escreveu os primeiros e os últimos cinquenta capítulos; Aguinaldo Silva e Marcílio Moraes tocaram o miolo. Roque, Sinhozinho Malta e a Viúva Porcina viraram tipo nacional.
Janete Clair morreu de câncer em 1983. Dias supervisionou o fim de Eu Prometo e, em 1985, coordenou a Casa de Criação Janete Clair, núcleo da Globo para renovar roteiros. Nos anos 1990 virou as costas para a novela longa e escreveu minisséries: a adaptação de O Pagador de Promessas (1988), As Noivas de Copacabana (1992), Decadência (1995) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998), a partir de Jorge Amado, que o receberia na ABL.
Academia, livros e o que ficou
Foi eleito para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras em 11 de abril de 1991, na sucessão de Adonias Filho. Jorge Amado o recebeu em 16 de julho. Os romances da juventude — Duas sombras apenas, Um amor e sete pecados, A dama da noite, Quando é amanhã — ficaram para trás; o centro da obra é teatro e teledramaturgia. A autobiografia Apenas um subversivo toma o xingamento que Lacerda teria disparado quando O Berço do Herói caiu: Nelson Rodrigues seria só pornográfico; Dias Gomes, pornográfico e subversivo. O título vira ironia contra si mesmo.
A Bertrand Brasil reúne o teatro em edições correntes. Quem chega agora costuma começar por três portas: a cruz de Zé do Burro, o cemitério de Odorico e o santo fabricado de Asa Branca. O resto — rádio, PCB, Globo, ABL, a parceria com Janete — explica por que essas portas continuam abertas. Dias Gomes não cabe só na prateleira de literatura: cruza política porque a censura foi o palco invisível de quase tudo o que escreveu, e educação porque O Pagador e O Santo Inquérito viraram repertório de escola. Contemporâneo de Augusto Boal no teatro de intervenção, escolheu outro caminho: não inventou método de plateia, inventou tipos que o país inteiro repetiu em voz alta.
O que permanece não é a lenda do gênio incompreendido. É o ofício: diálogo curto, tipo popular, instituição exposta no cômico. Sucupira, Saramandaia e Asa Branca ainda funcionam porque o prefeito, o santo e o padre não envelheceram na mesma velocidade da maquiagem da TV.





