Branca Dias salva o padre de um afogamento. O gesto é boca a boca, urgência, vida. O Santo Ofício lê outra coisa: lascívia, heresia, perigo. A moça cristã-nova, filha de Simão Dias e noiva de Augusto Coutinho, descobre que a bondade sem testemunha autorizada vira prova contra si.
O santo inquérito, peça de 1966, é o Dias Gomes da intolerância institucional no grau máximo. Sem o humor de Sucupira e sem o adro de Zé do Burro, o texto encena o tribunal que deturpa a intenção até caber na sentença. Escrita sob ditadura, a Inquisição do século XVIII funciona como espelho: o poder que interpreta, distorce e pune. Por isso a peça entrou em vestibular, em sala de teatro e em catálogo escolar — não como aula de história colonial, mas como mecanismo ainda reconhecível.
A fábula e o que Dias Gomes recusa
A fonte é o episódio, histórico ou lendário, de Branca Dias, às vezes lida como “Joana d’Arc cabocla”. O dramaturgo afasta o espetáculo romântico: não há pompa vistosa, não há martírio de vitral. Interessa o conflito entre a pureza da personagem — boa-fé, sinceridade, corpo que reage para salvar — e o olhar que transforma cada hábito em ameaça à ordem. O padre que ela tira da água participa da engrenagem que a condena. A gratidão não atravessa o dogma.
O volume é curto, pouco mais de cento e vinte páginas na edição Bertrand. A densidade está no interrogatório, na inversão das palavras, na família que tenta negociar sobrevivência. Branca não entende o código do tribunal porque o código não foi feito para ser entendido: foi feito para ser aplicado. Quem já leu Kafka no colégio reconhece o ar; quem já viu inquérito político reconhece o método.
Para quem a peça trabalha
- Aluno de literatura que precisa de teatro brasileiro moderno com tema de Inquisição e intolerância religiosa.
- Elenco e diretor à procura de um texto enxuto, de conflito claro, sem aparato de cenografia barroca.
- Leitor de Dias Gomes que já conhece o Pagador e o Bem-Amado e quer o lado sem gargalhada.
Não é romance histórico. Não reconstitui o Recife setecentista com nota de rodapé. O século XVIII é o pretexto; o objeto é o abuso de quem tem o monopólio da interpretação. Troque a Igreja por outra instituição com poder de inquérito e o texto continua de pé — o próprio autor construiu a peça para essa transposição.
Como ler o tribunal
Preste atenção no que Branca conta de si e no que o tribunal ouve. O descompasso é a dramaturgia. O beijo que reanima o padre vira prova de despudor. O relato do cotidiano vira inventário de pecados. A noiva que quer viver vira corpo a ser corrigido. Dias Gomes não precisa do fogo da fogueira no palco: precisa da linguagem que amarra o pulso, imagem que a capa da edição atual traduz com a corda no antebraço.
Em 1966, no Brasil do AI crescente, encenar a Inquisição era falar de censura sem pedir licença ao censor pelo nome. A peça sobreviveu ao contexto porque o mecanismo é anterior e posterior à ditadura: autoridade que não suporta virtude fora do formulário. Por isso professores a usam para discutir religião, gênero, colônia e poder, e por isso o leitor adulto ainda trava no mesmo ponto — a impossibilidade de se defender quando o acusador define o dicionário.
Edição Bertrand
A edição em português da Bertrand Brasil, da série do teatro de Dias Gomes, traz o texto dramático sem aparato escolar pesado. É o original para leitura e para cena. Quem quiser contextualizar, cruza com O pagador de promessas (fé popular versus paróquia) e com Apenas um subversivo (o autor sob a palavra “subversivo” que o Estado lhe colou). Três ângulos da mesma ofensa: a instituição que não tolera o gesto que não controla.
Leia em voz alta os interrogatórios. A peça cabe numa noite. O desconforto não cabe: fica no dia seguinte, quando qualquer “esclarecimento” público começa a soar como o santo ofício com outro timbre.




