As Velhas põe no centro quatro mulheres que a crítica descreveu como parcas. Não são figurantes da zona rural. São autoridade, memória, rancor e cegueira vingativa. O romance, publicado em 1975, rendeu a Adonias Filho o Prêmio Jabuti na categoria romance e o Prêmio Nacional de Literatura do Instituto Nacional do Livro. Muita gente que chega ao autor por uma lista de clássicos baianos encontra neste livro o ponto alto da consagração.
A ação se passa na mata primitiva do sul da Bahia. Há cheiro de terra, andança dura e um filho que procura os ossos do pai, assassinado vinte anos antes. Ao redor dessa busca, as quatro velhas entrelaçam destinos e tragédias. A edição da Bertrand já apresentava o recorte com clareza: “como são terríveis e poderosas, na sua fragilidade caduca”. A reedição da Editora Sator, em circulação em 2026, mantém o mesmo núcleo: aventura, amor e ferocidade num cenário que parece mítico sem deixar de ser baiano.
Por que este livro pesa na obra
As Velhas não é variação da trilogia do cacau. É um romance mais tarde, depois de O Forte, das novelas de Léguas da Promissão e de Luanda Beira Bahia. Adonias já tinha o método: frase enxuta, destino como eixo, recusa do pitoresco. Aqui ele desloca o protagonismo. Os homens da vingança continuam no horizonte, mas quem conduz o livro são as velhas. A crítica de então tratou o resultado como obra-prima. O Jabuti de 1975, na esteira de Lygia Fagundes Telles e antes de Ivan Ângelo, fixou o volume no calendário da literatura brasileira.
Para o leitor de agora, o interesse é duplo. De um lado, o livro oferece um romance curto — 160 páginas na Bertrand, 170 na Sator — que dá para ler sem se perder em aparato acadêmico. De outro, mostra o que Adonias fazia de melhor quando apertava a narrativa: personagens que parecem maiores do que o enredo, linguagem poética sem maneirismo e um gótico inesperado no interior da Bahia, como leitores da edição em circulação têm notado.
Como ler sem transformar o livro em ficha
As Velhas pede atenção ao coro. Cada velha traz um tipo de poder: lembrança, interdito, ódio, cuidado distorcido. O filho em busca dos ossos do pai atravessa esse coro como quem pede licença a um tribunal antigo. Quem espera um romance de costumes da lavoura pode se frustrar. Quem aceita o tom de tragédia encontra um dos textos mais fechados e mais livres do autor: livre do dever de “explicar” o cacau, fechado na lógica do destino.
A edição mais fácil de achar hoje é a da Editora Sator, ISBN 9786561230278, vendida como capa comum. A Bertrand antiga, ISBN 9788528602128, continua em sebos e anúncios de usado. São a mesma obra, não dois projetos. Vale escolher o volume disponível, não colecionar capas. Não há preço estável o bastante para cravar no texto; o que se pode dizer é que o livro voltou a circular em edição nova, o que raramente acontece com títulos de Adonias.
Se Corpo Vivo é a porta da vingança masculina e da mata como escola, As Velhas é a porta da memória feminina e da autoridade que não precisa de cargo. Os dois livros se conversam, mas não se repetem. Para quem quer um único volume capaz de mostrar por que o autor foi comparado a Dostoiévski sem copiar a Rússia, este é o candidato mais honesto: o inferno fica no sul da Bahia, e quem o governa são quatro velhas.




