O Largo da Palma reúne seis novelas de Adonias Filho publicadas em 1981, no centenário de Ilhéus, embora o palco principal seja um largo antigo de Salvador. Os títulos se encostam uns nos outros: A moça dos pãezinhos de queijo, O largo de branco, Um avô muito velho, Um corpo sem nome, Os enforcados e A pedra. O livro mistura sagrado e profano, urbano e rural, erudito e popular, sem transformar o conjunto em mosaico turístico.
Na abertura, o próprio autor descreve o largo: casarões antigos, ruas estreitas, uma ladeira pequena e torta que também se chama da Palma, e a igreja que empresta o nome ao lugar — “humilde e enrugadinha, com três séculos de idade”. Nada acontece ali que a igreja, na imagem dele, não testemunhe. Essa igreja de Nossa Senhora da Palma, no bairro de Nazaré, entre Mouraria e Pelourinho, é o eixo silencioso das seis histórias. Os personagens se tocam menos do que os lugares: padaria, bordel, casario, ladeira, adro.
Por que o livro circula fora da trilogia
O Largo da Palma é o Adonias das novelas urbanas. Quem só conhece Cajango ou as quatro velhas encontra aqui outro fôlego, mais curto e mais povoado. O poeta e crítico Mário da Silva Brito escreveu que o volume colhe “as mesmas lições de pânico e inconformismo das sagas anteriores”, narradas “com a mesma exemplar maestria” e “latejante sangue humano”. A frase ajuda a situar o livro: não é descanso do trágico. É o trágico mudado para a escala do largo.
O volume também chegou a banca de vestibular. Um dos textos, Um corpo sem nome, já foi usado em prova da Uneb. Isso explica parte da demanda em sebo e livraria: estudante atrás da edição certa, professor atrás de um Adonias mais manejável em sala, leitor curioso que prefere novela a romance fechado. A edição Bertrand em circulação é a 10ª, de 1994, com 112 páginas e ISBN 9788528603149.
Como entrar nas seis novelas
Não é obrigatório ler em ordem, mas o largo ganha corpo se o leitor atravessa o conjunto. Há história de amor, como a de Célia e Gustavo em A moça dos pãezinhos de queijo. Há perdição em Os enforcados. Há a tragédia do velho negro Loio em Um avô muito velho. Um corpo sem nome desloca o olhar para uma prostituta desconhecida. Os enredos se encostam pelos endereços, não por um herói comum. O personagem contínuo é o próprio largo.
Para quem visita Salvador, o livro funciona como contraponto ao olhar de Jorge Amado sobre a cidade alta. A comparação aparece com frequência em leitores que moraram ou estudaram na capital. Adonias não oferece o mesmo calor de rua. Oferece a pedra, a igreja velha e o destino comprimido em poucas páginas. Quem busca um guia de bairro sai no prejuízo. Quem busca prosa capaz de fazer o largo caber numa tarde de leitura encontra um dos volumes mais acessíveis do autor.
Vale a pena ter O Largo da Palma ao lado de O Forte se a pergunta for “como Adonias escreveu Salvador”. Vale ao lado de As Velhas se a pergunta for “ele só escreve mata e jagunço?”. Em ambos os casos, o livro responde com economia: seis novelas, um largo, nenhuma concessão ao folclore fácil.




