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Foto de perfil de Adonias Filho

Adonias Filho

Nascimento: 1915 Itajuípe, Bahia
Romancista, jornalista e crítico baiano da terceira fase do Modernismo, imortal da ABL e autor da trilogia do cacau e do Jabuti As Velhas.

No sul da Bahia, o cacau já teve cronista de rua, festa e coronel. Adonias Filho pegou o mesmo chão e desceu para outro lugar: a vingança, o destino e a alma em conflito. Quem chega ao nome dele costuma esperar mais um retrato da lavoura e encontra um romance seco, trágico, quase de pesadelo.

Nasceu Adonias Aguiar Filho em 1915, na Fazenda São João, em Itajuípe — então Pirangi, terra ainda ligada a Ilhéus. Morreu em 1990 na mesma região. Entre uma data e outra, foi jornalista, crítico literário, ensaísta, diretor da Biblioteca Nacional, presidente da Associação Brasileira de Imprensa e imortal da Academia Brasileira de Letras. A obra, porém, é o que ainda o puxa para a busca: a trilogia do cacau, Corpo Vivo, As Velhas e um jeito de escrever a Bahia sem cartão-postal.

  • Nasceu em 27 de novembro de 1915, na Fazenda São João, em Itajuípe, Bahia.
  • Estreou no romance em 1946, com Os Servos da Morte.
  • Ocupou a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras em 1965, recebido por Jorge Amado.
  • Dirigiu a Biblioteca Nacional entre 1961 e 1971.
  • Ganhou o Prêmio Jabuti de romance em 1975, com As Velhas.
  • Faleceu em 2 de agosto de 1990, em Ilhéus.

Quem foi Adonias Filho e por que ainda é buscado

O leitor costuma chegar por uma comparação que já virou rótulo: o “Dostoiévski brasileiro”. A frase circula em perfis, ensaios e matérias recentes, e serve menos como medalha do que como aviso. Adonias não descreve a zona cacaueira para catalogar costumes. Ele usa a mata, o jagunço, o coronel e o trabalhador rural para encenar conflitos que ele próprio chamava de sociológicos, psicológicos e metafísicos: instinto contra razão, destino contra vontade, violência contra alguma forma de redenção.

Isso o diferencia de outros nomes da literatura baiana do século XX. Jorge Amado, contemporâneo de ginásio em Salvador, popularizou o mesmo recorte geográfico com outra temperatura. Adonias endureceu a frase, cortou o pitoresco e deixou o sangue à vista. Cyro de Mattos chegou a chamar seu legado romanesco de “uma das perpendiculares de nossa literatura”. Afrânio Coutinho viu em seus livros “grandes dramas de conteúdo religioso”. O crítico Carlos Ribeiro resumiu a leitura como “um convite ao pesadelo”.

Há ainda o Adonias das instituições. Crítico de jornal no Rio, diretor do Serviço Nacional de Teatro, do Instituto Nacional do Livro e da Biblioteca Nacional, presidente da ABI e do Conselho Federal de Cultura, ele ocupou o centro da vida letrada brasileira por décadas. A busca pelo nome mistura, por isso, duas curiosidades: quem escreveu aqueles romances ásperos do cacau e quem foi o homem de Estado que, ao mesmo tempo, apoiou o golpe de 1964 e ajudou a libertar intelectuais perseguidos, inclusive Jorge Amado.

Da fazenda de Itajuípe ao Rio de Janeiro

Filho de Adonias Aguiar e Rachel Bastos de Aguiar, passou a infância entre a fazenda do pai e Ilhéus, onde frequentou o Ateneu Fernando Caldas. As férias na roça o colocaram perto dos trabalhadores das plantações e das histórias orais daquela costa. Em 1928 foi para o internato do Ginásio Ipiranga, em Salvador; interrompeu os estudos, voltou à fazenda, leu Camilo Castelo Branco, Macedo e José de Alencar, e só depois retomou o ginásio. Concluiu o secundário em 1934. Começou um primeiro romance, Cachaça, e o destruiu.

Na juventude participou da Ação Integralista Brasileira. Em 1936 fixou-se no Rio de Janeiro e entrou no círculo católico de Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria e Rachel de Queiroz. Colaborou no Correio da Manhã, fez crítica em A Manhã, de Cassiano Ricardo, e em 1937 publicou o ensaio Renascimento do Homem, ligado à doutrina integralista. Traduziu George Sand e trabalhou, com Octavio de Faria, em romances de Jakob Wassermann. Em 1944 fundou a Editora Ocidente, de vida curta, e chegou a planejar as obras completas de William Faulkner.

Casou-se com Rosa Galeano em 1945. Tiveram a filha Raquel e o filho Adonias Neto. A estreia romanesca veio em 1946, com Os Servos da Morte, pela José Olympio. Em 1950 candidatou-se a deputado federal pela UDN na Bahia e não se elegeu; na estada aproveitou para concluir Memórias de Lázaro, publicado em 1952, livro que ele considerava o melhor dos seus. A trilogia se fecha em 1962 com Corpo Vivo, escrito desde 1954 depois de queimar uma primeira versão.

Como ele escreveu o sul da Bahia sem virar folclore

Adonias defendia um romance que fugisse da “narrativa direta e objetiva de episódios”. Queria o solilóquio, o monólogo, a discussão interior da personagem. A região, para ele, não era paisagem a fotografar: estava dentro da pessoa. O cacau, a mata e a vingança viravam cenário de uma tragédia de instintos. Os homens de seus livros se dividem, na leitura crítica corrente, entre os que forjam o destino e os que o obedecem.

A linguagem segue essa escolha. Frase curta, ritmo sincopado, metáfora densa, cortes que lembram montagem de cinema. Ele admitia dívida com o modernismo brasileiro e lia Faulkner, Joyce, Dostoiévski, Balzac, Julien Green, Dickens, Wassermann, Bernanos e Camus. Ao mesmo tempo recusava o romance como “captação fonográfica” do falar local. Queria o lastro da língua portuguesa sem perder o chão brasileiro. O resultado é um regionalismo que não se contenta em pintar o sul da Bahia: usa aquele chão para chegar ao que ele chamava de “abismo humano”.

Depois da trilogia vieram O Forte (1965), as novelas de Léguas da Promissão (1968), Luanda Beira Bahia (1971), o ensaio Sul da Bahia: chão de cacau (1976) e As Velhas (1975), livro que a crítica tratou como obra-prima e que lhe valeu o Jabuti e o Prêmio Nacional de Literatura do Instituto Nacional do Livro. No fim da vida voltou-se também à literatura infantil e a textos paradidáticos, além do policial Noite sem Madrugada e da biografia romanceada O Homem de Branco, sobre Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha.

Cargos, Academia e o outro lado da vida pública

A carreira institucional corre paralela à ficção. Dirigiu o Serviço Nacional de Teatro de 1954 a 1956, com um intervalo no Instituto Nacional do Livro. Entre 1961 e 1971 esteve à frente da Biblioteca Nacional. Passou ainda pela Agência Nacional do Ministério da Justiça. Foi vice-presidente da ABI em 1966 e presidente entre 1972 e 1974. Integro o Conselho Federal de Cultura a partir de 1967 e o presidiu de 1977 até a morte. Em 1967 visitou Moçambique, a convite do governo português, e os Estados Unidos. Em 1983 recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia.

A política não é detalhe menor. Apoiou o golpe militar de 1964 e teve influência naquele momento. Amigo de Golbery do Couto e Silva, chegou a ser cogitado para cargo na Guanabara. Em 1974 foi indicado para suceder Antônio Carlos Magalhães no governo da Bahia, mas a oposição do então governador impediu a nomeação. Ao mesmo tempo, biografias e depoimentos registram que usou trânsito no regime para libertar intelectuais presos. A contradição fica no perfil: homem de letras de formação integralista, ocupante de cargos da ditadura e, ainda assim, interlocutor de colegas de outro campo, a ponto de Jorge Amado discursar em sua posse na ABL.

Eleito em 14 de janeiro de 1965 para a cadeira 21, em sucessão a Álvaro Moreyra, tomou posse em 28 de abril. Na Academia recebeu Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, Joracy Camargo e Mauro Mota. Depois de sua morte, a cadeira passou a Dias Gomes. Não manteve site pessoal nem redes: morreu antes dessa forma de presença. O que resta de institucional está na biografia da Academia Brasileira de Letras e nas edições que ainda circulam em livraria e sebo.

Por onde começar a leitura

Quem quer o Adonias da zona cacaueira pode entrar por Corpo Vivo, o romance da vingança de Cajango, ou por Memórias de Lázaro, que o próprio autor privilegiava. Os Servos da Morte mostra a estreia e o tom da trilogia. Quem prefere o livro da consagração crítica vai a As Velhas, com quatro mulheres poderosas na mata baiana. O Forte muda o palco para Salvador e um amor marcado pelo destino. O Largo da Palma reúne novelas urbanas, já usadas em vestibular, em torno de um largo antigo da capital.

Os romances foram traduzidos para o inglês, o alemão, o espanhol, o francês, o japonês e o eslovaco. Uma novela e três romances chegaram ao cinema. Nada disso o tornou autor de fácil circulação escolar, e essa distância explica parte da busca atual: o nome reaparece quando alguém descobre que o sul do cacau teve outro romance, mais sombrio, ao lado do de Jorge Amado. Depois da morte da mulher, em 1990, Adonias passou os últimos meses na fazenda Aliança, em Inema, distrito de Ilhéus, e morreu em 2 de agosto daquele ano.

O perfil que fica não é o de um autor de vitrine. É o de um romancista que tratou o cacau como tragédia, o jornal como ofício e a instituição como palco de poder. Para quem quer a ficha pública, a porta mais estável continua sendo a Academia. Para quem quer o livro, o caminho é a ficção — e ela não pede licença para ser áspera.

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Projetos de Adonias Filho

Corpo Vivo
Corpo Vivo
Romance de 1962 que fecha a trilogia do cacau: a vingança de Cajango na mata do sul da Bahia, depois do massacre da família.
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As Velhas
As Velhas
Romance de 1975, Prêmio Jabuti, sobre quatro velhas da mata baiana, rancor, destino e a busca pelos ossos de um pai assassinado.
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O Forte
O Forte
Romance de 1965 ambientado em Salvador: o Forte como palco de um amor marcado pelo destino, entre Jairo e Tibiti.
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O Largo da Palma
O Largo da Palma
Seis novelas de 1981 em torno do Largo da Palma, em Salvador: sagrado e profano, casario antigo e destinos cruzados.
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