Casaco de astracã verde ou Em busca do bonde perdido é o livro em que Jandira Martini troca o palco pela memória. Publicado em 2020 pela Galáxia, com 78 páginas, o texto reúne lembranças da infância em Santos, blocos carnavalescos, passagens dramáticas e a travessia de uma doença séria, sem transformar o relato em lamento.
Uma memória fora da ordem convencional
A editora descreve o livro como uma prosa autobiográfica que não segue a cronologia tradicional. Em vez de contar a carreira em ordem, Jandira justapõe flashes da infância, cenas de bastidores e momentos de tensão. O fio condutor é a lembrança, não a linha do tempo.
O resultado é um texto curto, direto e coloquial. A escrita não tenta imitar o tom de um manual autobiográfico; ela se aproxima da conversa, com frases enxutas e passagens de humor.
Santos, carnaval e a doença
Santos aparece como cenário recorrente. A cidade natal, os blocos carnavalescos e a infância formam o primeiro núcleo do livro. Jandira revisita esses ambientes com afeto, mas sem nostalgia fácil.
O segundo núcleo é a doença. A autora passou por uma cirurgia e por um tratamento sério, e o livro narra essa travessia com mordacidade. Em vez de se deter na dor, ela desloca o foco para o absurdo das situações e para as pessoas ao redor.
O que o título deve a Proust
O título remete à madeleine de Marcel Proust, o objeto que dispara a memória involuntária em Em Busca do Tempo Perdido. A apresentação da obra descreve o livro como uma madeleine: um detalhe material que abre uma cadeia de lembranças.
Jandira também recorre a outros escritores ao longo do texto, como Molière, Machado de Assis, Oscar Wilde e Shakespeare. As citações não funcionam como erudição decorativa; elas ajudam a iluminar as cenas e a manter o tom de conversa.
Para quem procura a Jandira escritora
O livro interessa a leitores de memórias, a admiradores do teatro brasileiro e a quem quer conhecer uma faceta menos associada à imagem de atriz de novela. As 78 páginas tornam a leitura rápida, mas o texto não é raso: cada cena curta carrega uma reflexão sobre memória, doença e ofício.
Quem quiser conhecer primeiro a dramaturgia dela pode começar por Comédias de Jandira Martini e Marcos Caruso, que reúne três peças escritas com Marcos Caruso.


