Jandira Martini estreou no teatro em 1965, em Santos, com A Crônica, texto de Carlos Alberto Soffredini, e passou as décadas seguintes entre atuação, dramaturgia e direção. A televisão a tornou conhecida em outra escala: foi Teodora Abdala em Sassaricando, Genu em Éramos Seis, Zoraide em O Clone e Farid Khalid em Salve Jorge. No teatro, escreveu com Marcos Caruso comédias que ficaram anos em cartaz e receberam prêmios como o Molière, o Shell e a APCA.
Nascida em Santos em 10 de julho de 1945, Jandira Lúcia Lalia Martini fez da comédia de costumes um território próprio, mas nunca se limitou a ele. Atuou em tragédia grega, Shakespeare e Nelson Rodrigues, dirigiu espetáculos, adaptou Feydeau e publicou memórias. Essa travessia entre palco, televisão e cinema explica por que o nome dela aparece tanto em buscas por novelas quanto em pesquisas sobre dramaturgia brasileira.
De Santos ao palco paulista
Filha do ourives Alfredo Lalia e da dona de casa Jandira Gião, Jandira nasceu em Santos e se formou em Letras pela Universidade Católica de Santos em 1967, ano em que começou a se envolver com teatro. Mais tarde, concluiu o curso de interpretação da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, a EAD-USP.
A estreia profissional veio em 1965, com A Crônica, em Santos. No ano seguinte, participou de uma montagem de A Falecida, de Nelson Rodrigues, dirigida por Celso Nunes, e passou a ser presença recorrente nos palcos paulistas. Em 1967, fez Pedro Pedreiro, de Renata Pallottini, com direção de Silnei Siqueira e trilha de Chico Buarque, e viveu Joana d'Arc em Joana d'Arc Entre as Chamas.
A década de 1970 consolidou o nome dela no teatro. Atuou em A Longa Noite de Cristal, de Oduvaldo Vianna, ao lado de Beatriz Segall e Fernando Torres; em Medeia, de Eurípides; e em Ricardo III, na adaptação de Antunes Filho, em que interpretou três personagens. Em 1978, integrou o elenco de Bodas de Papel, de Maria Adelaide Amaral, e, no ano seguinte, foi dirigida por Irene Ravache em As Avestruzes.
Em 1981, estreou na direção com Em Defesa do Companheiro Gigi Damiani, espetáculo que também escreveu com Eliana Rocha. A partir dali, passou a alternar palco e direção com mais frequência.
A parceria com Marcos Caruso e a comédia de costumes
Em 1986, Jandira e Marcos Caruso escreveram e montaram Sua Excelência, o Candidato, comédia sobre os bastidores da política brasileira. O espetáculo ficou quatro anos em cartaz e rendeu aos dois o Prêmio Molière de melhor autoria. A parceria se repetiria em outras peças e séries.
Em 1988, a dupla voltou aos palcos com Jogo de Cintura, que também escreveu e protagonizou. Segundo a Folha de S.Paulo, as duas comédias somaram mais de 650 mil ingressos ao longo das temporadas.
Em 1992, Jandira recebeu o Prêmio APCA de melhor autora por A Vida É Uma Ópera, espetáculo em que também atuou. No ano seguinte, estreou Porca Miséria, um de seus textos mais conhecidos. Dirigida por Gianni Ratto, a peça acompanha uma família de ascendência italiana no Bixiga, em São Paulo, e trata da degradação urbana e moral do centro da cidade. O espetáculo recebeu os prêmios APCA, Shell e Mambembe, além de registrar recordes de bilheteria.
A parceria continuou em O Céu da Pátria (1994) e na fundação do Teatro Paulista de Comédia, em 1996, ao lado de Caruso, Nilton Travesso e Carlos Duque. Depois vieram Os Reis do Improviso (1997), Gato por Lebre (1999), que ela dirigiu, traduziu e adaptou, Operação Abafa (2006) e O Eclipse (2008). Neste último, dirigido por Jô Soares, interpretou a atriz italiana Eleonora Duse e conquistou seu terceiro Prêmio APCA.
Teodora, Genu e Zoraide: a televisão amplia o nome
A televisão entrou cedo na carreira, mas foi nos anos 1980 que Jandira passou a ser reconhecida pelo grande público. Depois de participações em novelas como Eu Compro Esta Mulher (1966) e Braço de Ferro (1983), ela viveu Teodora Abdala em Sassaricando (1987), a megera que morre no início da trama e volta como espírito para atormentar o marido, interpretado por Paulo Autran.
Na década de 1990, foi contratada pelo SBT e viveu Genu em Éramos Seis (1994), personagem que formou par romântico com Virgulino, de Marcos Caruso. Ainda na emissora, criou e protagonizou a série Brava Gente (1996), em que interpretava a matriarca Augusta Messinari. Antes, havia trabalhado na Manchete como roteirista e atriz de A História de Ana Raio e Zé Trovão (1990) e de O Fantasma da Ópera (1991).
Em 2001, voltou à Globo para a minissérie Os Maias e, no mesmo ano, entrou em O Clone como Zoraide, a governanta da casa de Jade. O papel rendeu a Jandira o Prêmio Qualidade Brasil de melhor atriz coadjuvante e a transformou em uma das figuras mais lembradas da novela. Depois vieram A Casa das Sete Mulheres (2003), América (2005), Amazônia, de Galvez a Chico Mendes (2007), Desejo Proibido (2007), Caminho das Índias (2009), Escrito nas Estrelas (2010), Morde & Assopra (2011) e Salve Jorge (2012), sua última novela.
Os personagens variavam de mães e governantas a vilãs e figuras cômicas. Em Caminho das Índias, viveu Puja, uma dalit que lutava contra o sistema de castas; em Escrito nas Estrelas, a cartomante Madame Gilda; em Morde & Assopra, a vilã Salomé Sampaio; em Salve Jorge, a turca Farid Khalid.
Cinema, monólogos e os últimos anos
No cinema, Jandira atuou em Uma Escola Atrapalhada (1990), Olga (2004), Chorar de Rir (2019), 10 Horas para o Natal (2020) e Uma Pitada de Sorte (2022). Em 2013, atuou no monólogo Prof! Profa!, em que interpretava uma professora à beira do colapso, e recebeu indicação ao Prêmio APCA.
Em 2020, retomou o teatro com Em Busca do Bonde Perdido, texto de sua autoria sobre o impacto de um diagnóstico e as mudanças de perspectiva que ele provoca. No mesmo ano, publicou o livro de memórias Casaco de astracã verde ou Em busca do bonde perdido, pela Galáxia.
Fora dos palcos, foi casada por 57 anos com Geraldo Dias Martini, com quem teve dois filhos, Lucas e Maria Fernanda. Jandira Martini morreu em 29 de janeiro de 2024, aos 78 anos, no Hospital 9 de Julho, em São Paulo, depois de enfrentar um câncer de pulmão.
Por que Jandira Martini continua sendo buscada
Quem digita o nome hoje pode chegar por uma novela, por uma peça, por um livro ou pela parceria com Caruso. Em todos os casos, encontra uma carreira que não se encaixa em um único rótulo: a atriz de televisão que escrevia comédias premiadas, a autora que dirigia, a intérprete que passou por tragédia e vaudeville.
- Teodora Abdala, em Sassaricando (1987): a megera que morre no início da trama e volta como espírito para atormentar o marido.
- Genu, em Éramos Seis (1994): a personagem solidária que formou par com Virgulino, de Marcos Caruso.
- Zoraide, em O Clone (2001): a governanta que rendeu à atriz o Prêmio Qualidade Brasil de melhor atriz coadjuvante.
- Porca Miséria (1993): a comédia sobre uma família de ascendência italiana no Bixiga, escrita e protagonizada com Caruso.
- Casaco de astracã verde (2020): o livro de memórias em que revisita Santos, o carnaval e a doença.
Os textos teatrais da dupla estão reunidos em Comédias de Jandira Martini e Marcos Caruso. As memórias dela podem ser lidas em Casaco de astracã verde ou Em busca do bonde perdido. A trajetória também se cruza com a de Gloria Perez, autora de novelas em que atuou, e com a de Marcos Caruso, parceiro de escrita e amigo.



