Contracomunicação recusa o corredor mais óbvio depois de Informação, Linguagem, Comunicação. O título já avisa: Pignatari não queria só descrever a mídia. Queria pensar contra o fluxo automático da mensagem — a comunicação que se vende como transparente e funciona como poder.
A primeira edição saiu em 1971 pela Perspectiva. A reedição da Ateliê Editorial (3ª, 2004) devolve o livro ao catálogo com o mesmo temperamento: ensaios de comunicação, literatura e arte escritos por um poeta que tinha ofício de publicitário e cátedra de semiótica. Não é continuação escolar do volume de 1968. É o mesmo autor em outro recorte, mais combativo, menos “introdução”.
O que o livro discute
Pignatari lê meios de massa, literatura e artes visuais como sistemas de signos que se interferem. McLuhan aparece no horizonte — ele traduziria o canadense mais tarde — mas o texto não é divulgação de guru. O interesse é brasileiro e concreto: como jornal, televisão, publicidade e poema fabricam sentido. A “contracomunicação” não é silêncio. É o uso da linguagem contra a linguagem já embalada.
- Ensaios de comunicação pensada, não de manual de redação.
- Trânsito entre literatura, arte, mídia e crítica de costumes.
- Diálogo com a teoria da informação e com a semiótica, sem jargão de vitrine.
- Continuidade polêmica com o volume de 1968, não repetição.
Para quem faz sentido
Faz sentido para quem já leu o livro de 1968 e quer o Pignatari ensaísta em modo de intervenção. Faz sentido para pesquisador de comunicação, letras e artes que precisa de fonte primária brasileira dos anos 1970, não de resumo posterior. Faz menos sentido como primeiro contato: o tom pressupõe leitor já irritado com a comunicação que se explica sozinha.
A edição Ateliê tem 272 páginas, ISBN 85-7480-207-7, e inclui índice onomástico. O objeto é ensaio, não poesia. Quem quiser o poema vai a Poesia pois é poesia. Quem quiser a aula curta sobre poema vai a O que é Comunicação Poética. Este volume é o teórico em estado de briga. A data importa: 1971 é o Brasil do milagre publicitário e da censura. Pignatari escreve de dentro dos dois — da agência e da universidade — sem pedir licença a nenhum dos dois.
O livro também se lê como oficina de irritação produtiva. O autor não oferece consolo de “comunicação consciente”. Oferece leitura de código. Quem vem da publicidade reconhece o olhar de redator que já montou layout. Quem vem da poesia reconhece o poeta que já desmontou slogan. Os dois ofícios, aqui, não se desmentem.
Como não ler errado
Não procure aqui um sistema fechado nem um ataque genérico à televisão. Pignatari desconfia da mensagem pronta, inclusive da mensagem “culta”. A contracomunicação é método: olhar o código, desmontar a embalagem, devolver a linguagem ao uso inventivo. Lido ao lado da poesia concreta, o livro explica por que o mesmo homem que escreveu beba coca cola passou a década seguinte falando de mídia como quem ainda estava no poema.




