Poesia pois é poesia reúne a obra poética de Décio Pignatari numa estante — não só numa lâmina de xerox. O volume começa em Carrossel (1950) e segue até peças esparsas do início dos anos 2000. A edição da Companhia das Letras, de 2025, não inventa um Pignatari novo. Devolve o arquivo poético com capa e prefácio de Augusto de Campos e projeto gráfico de André Vallias.
O título já é tese. Poesia, pois é poesia: o objeto não precisa se desculpar em prosa. Dentro do livro convivem o verso de estreia, os diagramas concretos, as traduções e uma adenda com Noosfera e Oswald psicografado por Signatari, textos que a edição anterior não trazia. É o endereço certo para beba coca cola, LIFE, terra, Organismo e O lobisomem — poemas que a conversa pública cita e a prateleira, até há pouco, espalhava em edições esgotadas.
O que o volume reúne
A espinha é cronológica e, ao mesmo tempo, tipográfica. Os poemas da fase de Carrossel ainda cabem na tradição do verso; os da Noigandres e da Invenção pedem a página como campo. Traduções entram porque, no método de Pignatari, traduzir também é fazer poema. A edição respeita o conceito do autor e interveio pontualmente para tornar notas e organização mais claras, como registrou o cineasta Carlos Adriano a propósito desta publicação.
- Poesia de estreia e ruptura com a Geração de 45.
- Peças concretas publicadas nas revistas Noigandres e Invenção.
- Traduções e transcriações que o próprio poeta quis junto da obra original.
- Adenda com textos que faltavam na última reunião em livro.
Para quem este livro serve
Serve a quem vai ler poesia concreta pela primeira vez e precisa de um arco, não de um cartaz isolado. Serve a quem já conhece beba coca cola e quer ver o que Pignatari fez antes e depois do anagrama. Serve a professor, designer, publicitário e leitor de vanguarda que trata a página como suporte, não como recipiente de sentimento. Não serve a quem espera só confissão em versos. O volume é denso, visual e, em vários pontos, exige que o olho substitua o ouvido.
A edição impressa tem 402 páginas, formato 15,7 × 23 cm, e saiu em 28 de janeiro de 2025 pelo selo Companhia das Letras. ISBN 978-85-359-3723-7. Augusto de Campos assina a capa — um retrato em meio-tom vermelho — e o prefácio. André Vallias responde pelo projeto gráfico. A circulação do livro devolve Pignatari ao catálogo de uma editora que já havia publicado suas antologias de tradução nos anos 1990.
Como ler sem se perder
Não é obrigatório começar pelo manifesto. Uma rota honesta é abrir Carrossel, atravessar o salto concreto e só então voltar ao Plano-piloto, que está no entorno teórico, não neste volume. Outra rota é ir direto a beba coca cola e LIFE, depois recuar para ver de onde veio o recorte. As traduções no meio do livro não são apêndice: mostram o mesmo poeta trabalhando língua alheia com a mão de inventor.
Quem sai daqui para o ensaio encontra o complemento em O que é Comunicação Poética e em Informação, Linguagem, Comunicação. A poesia reunida não substitui a teoria; a teoria não substitui o poema. Este livro é o objeto. O restante da obra explica o método.




