Crime e cotidiano é o livro em que Boris Fausto troca a escala da Revolução de 1930 pela rua, pelo auto e pela delegacia. A primeira edição saiu em 1984 pela Brasiliense; a Edusp republicou o estudo, que examina a criminalidade em São Paulo entre 1880 e 1924 — recorte da Primeira República em que a cidade engolia imigrantes, fábricas e um aparato policial ainda em formação.
O tema parece lateral para quem conhece o autor só pelo volume didático. Na trajetória dele, porém, o crime é instrumento: uma via para ler relações sociais, controle e repressão sem passar apenas pelo palácio. A formação de advogado, tanto tempo vista como emprego paralelo, vira aqui lente sobre processos, inquéritos e o cotidiano de uma capital que se pretendia moderna.
O que a pesquisa observa
Fausto não coleciona casos célebres para entreter. Observa padrões: quem era acusado, como a polícia e a justiça classificavam condutas, que papel tinham imigrantes, trabalhadores e a própria ideia de ordem numa São Paulo em expansão. O subtítulo da edição corrente — a criminalidade em São Paulo no período — descreve o objeto com precisão de recorte, não de marketing.
O livro conversa com a sociologia urbana e com a história social. Depois de Trabalho urbano e conflito social, o passo seguinte não foi outro tratado sobre o Estado Novo: foi descer ao chão da cidade. Imigração, já presente na biografia familiar do autor, deixa de ser pano de fundo e vira variável. O delito aparece cercado de vizinhança, trabalho, honra e burocracia.
Por que o título ainda interessa
Quem lê noticiário policial do século XXI reconhece a tentação de tratar o crime como espetáculo. Fausto faz o movimento contrário: usa o arquivo para reconstruir o tecido. O resultado serve ao historiador da República, ao jurista curioso da genealogia das instituições e ao leitor de São Paulo que quer a metrópole antes do concreto armado dos anos 1950.
- Pesquisador da Primeira República, da imigração e da história urbana paulistana.
- Estudante de direito ou ciências sociais que busca o crime como fato social, não como enredo.
- Leitor que chegou a Fausto pelos livros da Companhia das Letras sobre processos célebres e quer a base analítica anterior.
- Quem monta bibliografia sobre controle social e polícia no Brasil republicano.
Relação com os outros livros de crime
O crime do restaurante chinês e O crime da Galeria de Cristal fecham a lente num caso, num inverno, numa manchete. Crime e cotidiano abre a lente sobre quatro décadas. Os títulos posteriores devem a este o método: o auto como fonte, a cidade como problema, a imprensa como vetor de pânico e classificação. Começar pelo estudo de 1984 evita tomar os volumes de 2009 e 2019 por true crime de prateleira.
A edição da Edusp é a rota pública mais estável do texto em português. Não compete com o didático da mesma casa: resolve outra pergunta. Se História do Brasil organiza o país, este organiza uma cidade no momento em que ela deixa de ser vila de imigrantes e tenta ser metrópole — com tudo o que isso custa em polícia, justiça e estigma.
Limites honestos
O recorte para em 1924. Não cobre o Estado Novo nem a São Paulo do crime organizado contemporâneo. Não substitui estatística nova nem etnografia. Vale como clássico de história social do delito, escrito por alguém que conhecia o direito por dentro e a República por ofício. Para esse uso, continua sendo o volume certo.




