Ele gostava de se chamar historiador de domingo. A frase tinha expediente atrás: por décadas, Boris Fausto pesquisou a República brasileira no intervalo de uma carreira jurídica na Universidade de São Paulo, como assessor jurídico e procurador do Estado. Quem busca o nome dele hoje costuma chegar com uma dúvida concreta — qual livro ler, se o volume grosso da Edusp basta, se A Revolução de 1930 ainda desmonta o que a escola simplificou — e encontra um autor que passou o século XX recusando versões fáceis da história nacional.
Paulistano, filho de imigrantes judeus, professor do Departamento de Ciência Política da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências, Fausto morreu em São Paulo em 18 de abril de 2023, aos 92 anos. A procura pelo nome mistura vestibular, concurso, Getúlio Vargas e a vontade de ler o Brasil sem carapaça pronta.
Quem foi Boris Fausto
Boris Fausto nasceu em São Paulo em 8 de dezembro de 1930, no mesmo ano do episódio que depois se tornaria o objeto de sua tese mais célebre — coincidência de calendário, não destino. A mãe, Eva, viera da Turquia; o pai, Simon, da Transilvânia, hoje Romênia. A casa paulistana misturava ladino, jornais lidos em voz alta e uma infância marcada pela imigração judaica na capital.
Frequentou o Colégio Mackenzie no primário e no ginasial e o Colégio São Bento no colegial. A formação ampla veio depois, em duas frentes que ele nunca fingiu ser a mesma: bacharelou-se em Direito pela Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, em 1953, e só na década seguinte concluiu bacharelado e licenciatura em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
O ofício público que o tornou conhecido — historiador da República, da imigração e da criminalidade em São Paulo — conviveu longo tempo com o gabinete. Foi advogado, consultor jurídico da USP e procurador do Estado. A pesquisa, no começo, ocupava noites e fins de semana. Daí o apelido que ele mesmo cultivou, e que virou título de memórias: historiador de domingo.
Do Direito na São Francisco à História na USP
A virada para a História teve nome próprio. Em 1961 casou-se com a educadora Cynira Stocco Fausto, sócia fundadora da Escola Vera Cruz, que o estimulou a cursar a graduação em História a partir de 1963. Os filhos Sérgio, sociólogo, e Carlos, antropólogo, nasceram dessa união. O irmão Ruy Fausto seguia outro caminho das humanidades, o da filosofia.
O doutorado veio em 1968, na FFLCH/USP, com orientação de Sérgio Buarque de Holanda. No mesmo ano concluiu a pós-graduação em metodologia da História. A livre-docência em ciência política, em 1975, o ancorou no Departamento de Ciência Política — não no de História —, um detalhe de organograma que explica o diálogo constante com sociologia, pensamento autoritário e conflito social.
O golpe de 1964 atravessou essa formação. Fausto havia militado no trotskismo na juventude e, segundo relato posterior à Folha de S.Paulo, chegou a se apresentar no Dops e a ficar preso por três dias. Em 1970, já sob o AI-5, foi levado à Operação Bandeirante depois de um episódio envolvendo uma vizinha ligada à luta armada. A carreira acadêmica formal, nesse clima, parecia bloqueada. Ele fez os títulos, disse depois, não pelos títulos: fez o que tinha vontade de fazer, sem largar o posto jurídico que sustentava a casa.
- 1953: bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da USP.
- 1966: bacharel e licenciado em História pela FFLCH/USP.
- 1968: doutor em História pela mesma faculdade, com orientação de Sérgio Buarque de Holanda.
- 1975: livre-docente em ciência política; a partir de 1988, professor colaborador aposentado do departamento.
- 2001: ingresso na Academia Brasileira de Ciências.
Por que A Revolução de 1930 ainda é lida
O primeiro livro, nascido da tese, saiu em 1970: A Revolução de 1930 — historiografia e história. Fausto atacava a leitura então hegemônica, associada a Nelson Werneck Sodré e ao dualismo das sociedades dependentes, que via 1930 como triunfo da burguesia nacional contra elites agrárias atrasadas. A pesquisa deslocou o eixo: o fim da Primeira República vinha sobretudo de conflitos no interior das oligarquias regionais, tensão acumulada nos anos 1920, e não de um duelo simples entre progresso e atraso.
O gesto importava duas vezes. Primeiro, porque um paulista recusava a versão que defendia São Paulo na Revolução de 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932. Segundo, porque a República ainda era objeto raro nas teses da USP, mais ocupada da Colônia e do Império. Ângela de Castro Gomes chegou a chamar o livro de primeira grande contribuição historiográfica que tomou 1930 como objeto. Continua sendo o título que o leitor de política brasileira encontra quando quer sair do slogan e entrar no mecanismo.
Sérgio Buarque de Holanda o convidou a organizar os volumes republicanos da coleção História geral da civilização brasileira. O diálogo com as ciências sociais se aprofundou em Trabalho urbano e conflito social, livre-docência publicada em 1976, sobre classe trabalhadora e movimento operário em São Paulo e no Rio entre 1890 e 1920, em conversa com Francisco Weffort e o Cebrap.
História do Brasil e o leitor que não é especialista
Se a tese de 1930 consagrou o colega de ofício, História do Brasil, lançada em 1994 na coleção didática da Edusp, levou Fausto à estante de vestibular, professor e leitor comum. São mais de quinhentos anos — da colonização portuguesa aos regimes autoritários do século XX — em linguagem que não finge ser romance e não se esconde em jargão. O Jabuti de 1995, na categoria livro didático, só confirmou o que as salas de aula já faziam: o volume virou mapa.
Há diferença de temperamento em relação a quem conta o mesmo país em trilogia de reportagem. Laurentino Gomes chegou à formação brasileira pela redação e pelo fôlego narrativo de 1808, 1822 e 1889. Fausto chegou pelo arquivo, pela historiografia e pela ciência política. Os dois ocupam a prateleira de literatura de não ficção histórica, mas não resolvem a mesma fome: um reconta o século XIX como enredo; o outro oferece o esqueleto institucional da formação nacional.
Edições posteriores de História do Brasil ganharam atualização do sociólogo Sérgio Fausto, cobrindo o trecho do fim de Sarney aos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva. Há ainda a História concisa do Brasil, da mesma editora, para quem quer o desenho das linhas sem o tijolo de quase setecentas páginas. Nenhum dos dois substitui a tese de 1930; cada um atende a um uso.
Crime, imigração e a São Paulo reconstruída
A partir dos anos 1980, Fausto fechou a escala. Crime e cotidiano, publicado em 1984 pela Brasiliense e depois reeditado pela Edusp, examina a criminalidade em São Paulo entre 1880 e 1924: não o crime como anedota, e sim as relações sociais, o controle e a repressão numa cidade de imigrantes. A formação de advogado, nesse ponto, deixou de ser biografia paralela e virou instrumento de leitura dos autos.
O recorte voltou em chave de micro-história em O crime do restaurante chinês (Companhia das Letras, 2009), sobre o quádruplo homicídio da Quarta-Feira de Cinzas de 1938, e mais tarde em O crime da Galeria de Cristal (2019). Carnaval, futebol, imprensa sensacionalista e doutrina racial no banco dos réus entram como tecido da metrópole, não como enfeite. O menino que lera jornais para o avô cego reaparecia no historiador que tratava o noticiário como fonte.
A imigração, tema de casa, rendeu Negócios e ócios (1997), Jabuti de ciências humanas, e a organização de Fazer a América. A fase memorialista — Memórias de um historiador de domingo, o diário de luto O brilho do bronze após a morte de Cynira em 2010, e Vida, morte e outros detalhes (2021) — não apaga o ensaísta político. Aparece o goleiro corintiano da avenida Angélica, o colunista da Folha entre 1998 e 2003, o colaborador da revista piauí. Getúlio Vargas ganhou ensaio próprio, Getúlio Vargas: o poder e o sorriso (2006), longe do culto e longe da caricatura.
Prêmios, imprensa e o que ficou
Além do Jabuti de 1995, vieram o de ciências humanas em 1998, o da seção de Crime, Law and Deviance da American Sociological Association em 1999 e outro Jabuti de ciências humanas em 2000. A posse na Academia Brasileira de Ciências, em 2001, reconhecia o trânsito entre história e ciência política que o organograma da USP já descrevia.
Em junho de 2021 sofreu um acidente vascular cerebral e teve recuperação parcial nos meses seguintes. Continuou publicando. A morte, em 18 de abril de 2023, fechou uma bibliografia que o vestibular resume em um título e a historiografia espalha em vários: República, imigração, crime, Vargas, memória. Para quem monta estante, o caminho mais honesto ainda começa pela pergunta que ele fez a 1930 — que forças estavam em confronto, de fato — e só depois escolhe o formato: o clássico curto, o didático longo ou o processo-crime que cabe num sábado.





