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Boris Fausto

Nascimento: 1930 São Paulo, SP
Paulistano, professor da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências. Consagrou-se com A Revolução de 1930 e o volume didático História do Brasil.

Ele gostava de se chamar historiador de domingo. A frase tinha expediente atrás: por décadas, Boris Fausto pesquisou a República brasileira no intervalo de uma carreira jurídica na Universidade de São Paulo, como assessor jurídico e procurador do Estado. Quem busca o nome dele hoje costuma chegar com uma dúvida concreta — qual livro ler, se o volume grosso da Edusp basta, se A Revolução de 1930 ainda desmonta o que a escola simplificou — e encontra um autor que passou o século XX recusando versões fáceis da história nacional.

Paulistano, filho de imigrantes judeus, professor do Departamento de Ciência Política da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências, Fausto morreu em São Paulo em 18 de abril de 2023, aos 92 anos. A procura pelo nome mistura vestibular, concurso, Getúlio Vargas e a vontade de ler o Brasil sem carapaça pronta.

Quem foi Boris Fausto

Boris Fausto nasceu em São Paulo em 8 de dezembro de 1930, no mesmo ano do episódio que depois se tornaria o objeto de sua tese mais célebre — coincidência de calendário, não destino. A mãe, Eva, viera da Turquia; o pai, Simon, da Transilvânia, hoje Romênia. A casa paulistana misturava ladino, jornais lidos em voz alta e uma infância marcada pela imigração judaica na capital.

Frequentou o Colégio Mackenzie no primário e no ginasial e o Colégio São Bento no colegial. A formação ampla veio depois, em duas frentes que ele nunca fingiu ser a mesma: bacharelou-se em Direito pela Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, em 1953, e só na década seguinte concluiu bacharelado e licenciatura em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O ofício público que o tornou conhecido — historiador da República, da imigração e da criminalidade em São Paulo — conviveu longo tempo com o gabinete. Foi advogado, consultor jurídico da USP e procurador do Estado. A pesquisa, no começo, ocupava noites e fins de semana. Daí o apelido que ele mesmo cultivou, e que virou título de memórias: historiador de domingo.

Do Direito na São Francisco à História na USP

A virada para a História teve nome próprio. Em 1961 casou-se com a educadora Cynira Stocco Fausto, sócia fundadora da Escola Vera Cruz, que o estimulou a cursar a graduação em História a partir de 1963. Os filhos Sérgio, sociólogo, e Carlos, antropólogo, nasceram dessa união. O irmão Ruy Fausto seguia outro caminho das humanidades, o da filosofia.

O doutorado veio em 1968, na FFLCH/USP, com orientação de Sérgio Buarque de Holanda. No mesmo ano concluiu a pós-graduação em metodologia da História. A livre-docência em ciência política, em 1975, o ancorou no Departamento de Ciência Política — não no de História —, um detalhe de organograma que explica o diálogo constante com sociologia, pensamento autoritário e conflito social.

O golpe de 1964 atravessou essa formação. Fausto havia militado no trotskismo na juventude e, segundo relato posterior à Folha de S.Paulo, chegou a se apresentar no Dops e a ficar preso por três dias. Em 1970, já sob o AI-5, foi levado à Operação Bandeirante depois de um episódio envolvendo uma vizinha ligada à luta armada. A carreira acadêmica formal, nesse clima, parecia bloqueada. Ele fez os títulos, disse depois, não pelos títulos: fez o que tinha vontade de fazer, sem largar o posto jurídico que sustentava a casa.

  • 1953: bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da USP.
  • 1966: bacharel e licenciado em História pela FFLCH/USP.
  • 1968: doutor em História pela mesma faculdade, com orientação de Sérgio Buarque de Holanda.
  • 1975: livre-docente em ciência política; a partir de 1988, professor colaborador aposentado do departamento.
  • 2001: ingresso na Academia Brasileira de Ciências.

Por que A Revolução de 1930 ainda é lida

O primeiro livro, nascido da tese, saiu em 1970: A Revolução de 1930 — historiografia e história. Fausto atacava a leitura então hegemônica, associada a Nelson Werneck Sodré e ao dualismo das sociedades dependentes, que via 1930 como triunfo da burguesia nacional contra elites agrárias atrasadas. A pesquisa deslocou o eixo: o fim da Primeira República vinha sobretudo de conflitos no interior das oligarquias regionais, tensão acumulada nos anos 1920, e não de um duelo simples entre progresso e atraso.

O gesto importava duas vezes. Primeiro, porque um paulista recusava a versão que defendia São Paulo na Revolução de 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932. Segundo, porque a República ainda era objeto raro nas teses da USP, mais ocupada da Colônia e do Império. Ângela de Castro Gomes chegou a chamar o livro de primeira grande contribuição historiográfica que tomou 1930 como objeto. Continua sendo o título que o leitor de política brasileira encontra quando quer sair do slogan e entrar no mecanismo.

Sérgio Buarque de Holanda o convidou a organizar os volumes republicanos da coleção História geral da civilização brasileira. O diálogo com as ciências sociais se aprofundou em Trabalho urbano e conflito social, livre-docência publicada em 1976, sobre classe trabalhadora e movimento operário em São Paulo e no Rio entre 1890 e 1920, em conversa com Francisco Weffort e o Cebrap.

História do Brasil e o leitor que não é especialista

Se a tese de 1930 consagrou o colega de ofício, História do Brasil, lançada em 1994 na coleção didática da Edusp, levou Fausto à estante de vestibular, professor e leitor comum. São mais de quinhentos anos — da colonização portuguesa aos regimes autoritários do século XX — em linguagem que não finge ser romance e não se esconde em jargão. O Jabuti de 1995, na categoria livro didático, só confirmou o que as salas de aula já faziam: o volume virou mapa.

Há diferença de temperamento em relação a quem conta o mesmo país em trilogia de reportagem. Laurentino Gomes chegou à formação brasileira pela redação e pelo fôlego narrativo de 1808, 1822 e 1889. Fausto chegou pelo arquivo, pela historiografia e pela ciência política. Os dois ocupam a prateleira de literatura de não ficção histórica, mas não resolvem a mesma fome: um reconta o século XIX como enredo; o outro oferece o esqueleto institucional da formação nacional.

Edições posteriores de História do Brasil ganharam atualização do sociólogo Sérgio Fausto, cobrindo o trecho do fim de Sarney aos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva. Há ainda a História concisa do Brasil, da mesma editora, para quem quer o desenho das linhas sem o tijolo de quase setecentas páginas. Nenhum dos dois substitui a tese de 1930; cada um atende a um uso.

Crime, imigração e a São Paulo reconstruída

A partir dos anos 1980, Fausto fechou a escala. Crime e cotidiano, publicado em 1984 pela Brasiliense e depois reeditado pela Edusp, examina a criminalidade em São Paulo entre 1880 e 1924: não o crime como anedota, e sim as relações sociais, o controle e a repressão numa cidade de imigrantes. A formação de advogado, nesse ponto, deixou de ser biografia paralela e virou instrumento de leitura dos autos.

O recorte voltou em chave de micro-história em O crime do restaurante chinês (Companhia das Letras, 2009), sobre o quádruplo homicídio da Quarta-Feira de Cinzas de 1938, e mais tarde em O crime da Galeria de Cristal (2019). Carnaval, futebol, imprensa sensacionalista e doutrina racial no banco dos réus entram como tecido da metrópole, não como enfeite. O menino que lera jornais para o avô cego reaparecia no historiador que tratava o noticiário como fonte.

A imigração, tema de casa, rendeu Negócios e ócios (1997), Jabuti de ciências humanas, e a organização de Fazer a América. A fase memorialista — Memórias de um historiador de domingo, o diário de luto O brilho do bronze após a morte de Cynira em 2010, e Vida, morte e outros detalhes (2021) — não apaga o ensaísta político. Aparece o goleiro corintiano da avenida Angélica, o colunista da Folha entre 1998 e 2003, o colaborador da revista piauí. Getúlio Vargas ganhou ensaio próprio, Getúlio Vargas: o poder e o sorriso (2006), longe do culto e longe da caricatura.

Prêmios, imprensa e o que ficou

Além do Jabuti de 1995, vieram o de ciências humanas em 1998, o da seção de Crime, Law and Deviance da American Sociological Association em 1999 e outro Jabuti de ciências humanas em 2000. A posse na Academia Brasileira de Ciências, em 2001, reconhecia o trânsito entre história e ciência política que o organograma da USP já descrevia.

Em junho de 2021 sofreu um acidente vascular cerebral e teve recuperação parcial nos meses seguintes. Continuou publicando. A morte, em 18 de abril de 2023, fechou uma bibliografia que o vestibular resume em um título e a historiografia espalha em vários: República, imigração, crime, Vargas, memória. Para quem monta estante, o caminho mais honesto ainda começa pela pergunta que ele fez a 1930 — que forças estavam em confronto, de fato — e só depois escolhe o formato: o clássico curto, o didático longo ou o processo-crime que cabe num sábado.

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Projetos de Boris Fausto

História do Brasil
História do Brasil
Volume didático da Edusp em que Boris Fausto percorre mais de cinco séculos da formação brasileira, da colonização aos regimes autoritários do século XX.
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A Revolução de 1930
A Revolução de 1930
Clássico de Boris Fausto sobre o fim da Primeira República: historiografia, classes, oligarquias e o Estado que emergiu depois de 1930.
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Crime e cotidiano
Crime e cotidiano
Estudo de Boris Fausto sobre a criminalidade em São Paulo entre 1880 e 1924, entre imigração, controle social e a cidade que virava metrópole.
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O crime do restaurante chinês
O crime do restaurante chinês
Ensaio de Boris Fausto sobre o quádruplo homicídio de 1938 em São Paulo, entre carnaval, futebol, imigração e a justiça da era Vargas.
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