Crônica do viver baiano seiscentista é o nome que James Amado deu à obra poética completa atribuída a Gregório de Matos. A edição da Record em dois volumes — 1.344 páginas, ISBN 978-85-010-3200-3 — condensa o códice que, na primeira forma, ocupou oito tomos e pela primeira vez reuniu os inéditos e toda a erótica deixada de fora da série da Academia Brasileira de Letras.
Quem busca “obra completa” na Amazon quase sempre cai neste conjunto. Não é antologia de vestibular. É depósito. A contra-capa da edição original já avisava: reúne a obra poética atribuída ao poeta, com muitos inéditos. A nuance está no verbo. Atribuída. Gregório não deixou autógrafo conhecido. O que Amado fez foi editar o acervo manuscrito que o século XX herdou, inclusive o que Afrânio Peixoto recusou imprimir entre 1923 e 1933.
O que este conjunto é, e o que não é
É a edição que a crítica comercial e acadêmica ainda aponta como a mais completa em língua portuguesa. É também livro de sebo e de encomenda: a Record lançou a quinta edição em 1991, e a Amazon costuma oferecê-la por livreiros, não como item de estoque contínuo da própria loja. Relatos de compra repetem um problema prosaico — anúncio de dois volumes, entrega de um. Vale conferir o anúncio antes de tratar o link como conjunto fechado.
Não é edição crítica no sentido filológico estrito que Wisnik cobrava já nos anos 1970. Não substitui o debate de autoria poema a poema. Não é o volume para levar à prova. É o volume para quem já leu a antologia e quer o arquivo: sátira, lírica, sacro, burlesco e o erótico que a ABL adiou.
- Obra poética completa em dois volumes, Record.
- Códice James Amado, 1.344 páginas.
- Inclui a parte erótica omitida na edição da ABL.
- Item de arquivo, não de primeira leitura.
Para quem este conjunto faz sentido
Faz sentido para pesquisador, professor que monta corpus e leitor que já passou por Wisnik ou Damasceno e quer o restante. Não faz sentido como presente escolar nem como “o Gregório do vestibular”. O miolo é denso, o português é de códice, e a falta de notas de esclarecimento no nível da Companhia das Letras cobra preço de leitura.
Há um uso honesto e um uso vaidoso. O honesto: ter em casa o maior recorte impresso do acervo. O vaidoso: pôr “obra completa” na estante e não abrir. A crônica de Amado só justifica a compra se o leitor aceitar o arquivo com suas lacunas — atribuição, cópia, ausência de autógrafo. Gregório de Matos cabe nesse risco. Quem quiser o poeta da escola continua melhor servido na antologia de 360 páginas. Quem quiser o poeta do códice vem para cá.
A capa da Record traz o título longo no miolo visual: Gregório de Matos, Crônica do viver baiano seiscentista, obra poética completa, códice James Amado. Não é marketing vazio. É a ficha do que o livro pretende ser. O link da Amazon aponta para o conjunto de dois volumes; se o anúncio oscilar entre “obra poética completa” e o título da crônica, é o mesmo item. Conferir ISBN 850103200X antes de fechar a compra.



