Poemas escolhidos é a antologia que José Miguel Wisnik montou nos anos 1970 e a Companhia das Letras recolocou em circulação com notas, perfil biográfico e aparato de vestibular. Quem chega a Gregório de Matos pelo apelido Boca do Inferno encontra aqui as quatro modalidades que o organizador quis mostrar juntas: sátira, encomio, lírica amorosa e verso religioso.
O volume não pretende ser arquivo completo. Pretende ser porta. Wisnik parte de um diagnóstico que ainda vale: faltava coletânea acessível para estudante e leitor comum, e a edição crítica definitiva da obra atribuída ao poeta continuava — e continua — por fazer. A primeira edição saiu na Cultrix em 1975, a convite de José Paulo Paes. A da Companhia das Letras, de 2011, é a mesma seleção revista pelo organizador, com 360 páginas, formato 15,8 × 23 cm e o selo de leitura obrigatória em vestibulares da UPE, da UFLA e da Faculdade Cásper Líbero.
O que a seleção cobre
A proposta pública do livro é clara. O leitor vê o Gregório da rua e o Gregório do templo no mesmo tomo, com notas de esclarecimento de um português seiscentista que trava o olho moderno. Wisnik insiste na agudeza satírica, no léxico que já deixa transparecer sonoridades africanas e tupis, e no fato de o verso não recuar diante da pornografia quando o alvo é a dissolução de costumes da Bahia colonial. Isso não é capa de choque: é recorte de um acervo que James Amado só publicou inteiro, inclusive o erótico, décadas depois da edição da ABL.
Há um ganho prático. Em vez de caçar códice, o leitor ganha um mapa. Os poemas satíricos mais citados em sala — o conselheiro de cada canto, a cidade da Bahia, o retrato de classes — convivem com a lírica e o sacro, o que impede a biografia de virar só o apelido. Quem quiser o depósito completo ainda precisa da Crônica do viver baiano seiscentista. Quem quiser começar, este é o volume que as livrarias realmente sustentam.
Para quem faz sentido
Serve a estudante de literatura brasileira, a professor que precisa de texto anotado e a leitor curioso que já ouviu “Boca do Inferno” e nunca abriu um soneto. Não serve a quem busca edição crítica com discussão de autoria poema a poema. O próprio Wisnik admite que, passadas décadas, o quadro que motivou a antologia mudou pouco: a disputa acadêmica cresceu; a edição crítica definitiva não veio.
- Antologia, não obra completa.
- Aparato de notas e perfil biográfico curto.
- Quatro modalidades: satírica, encomiástica, amorosa e religiosa.
- Edição vestibular da Companhia das Letras, ISBN 978-85-359-1858-8.
Como usar o livro
O caminho mais honesto é ler a introdução de Wisnik antes dos poemas. Ela evita dois erros comuns: tratar Gregório como paladino anticolonial e tratar a sátira como único gênero. Depois, vale contrastar um soneto da rua com um poema sacro. O choque de tom é o método. A Amazon e a página da editora levam ao item exato desta edição; não confundir com e-books genéricos de domínio público que repetem o título sem o aparato.
Gregório de Matos não escolheu esta capa, este organizador nem este vestibular. A autoridade do volume é editorial: é o recorte que o século XX brasileiro elegeu para apresentar o poeta do XVII. Para o leitor de agora, isso já é bastante — desde que ninguém venda a antologia como se fosse o códice inteiro.



