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Gregório de Matos

Boca do Inferno

Nascimento: 1636 Salvador, Bahia
Gregório de Matos e Guerra, o Boca do Inferno, nasceu em Salvador em 1636. Advogado e poeta do Brasil Colônia, deixou a sátira barroca mais citada da língua portuguesa.

Ele não mandou livro para o prelo. A fama chegou em cópia de mão, recitada na rua e temida na Câmara: Gregório de Matos e Guerra, o Boca do Inferno, escreveu Salvador do século XVII como quem passava o facão no clero, no fidalgo e no próprio vizinho.

Nasceu na Bahia em 23 de dezembro de 1636, formou-se em cânones na Universidade de Coimbra e voltou à terra para virar o poeta satírico mais lembrado do Brasil Colônia. A Academia Brasileira de Letras o tomou depois como patrono da cadeira 16. Quem busca o nome hoje quase sempre quer duas coisas ao mesmo tempo: o apelido e o motivo de o verso ainda cair em vestibular.

Quem foi Gregório de Matos

Gregório de Matos foi advogado e poeta do Brasil Colônia. A obra que circula com o nome dele mistura sátira, lírica amorosa, verso religioso e, em parte do acervo, erotismo explícito. Não é um autor de um livro-título. É um acervo copiado, atribuído, editado tarde e lido como o primeiro grande ouvido brasileiro em verso.

Filho de Gregório de Matos, português de Guimarães, e de Maria da Guerra, nasceu em Salvador, então capital da colônia, numa família abastada. A nacionalidade jurídica era portuguesa, como a de qualquer súdito nascido na América portuguesa antes da Independência. O que a crítica posterior chamou de “elemento brasileiro” está no assunto, no léxico e no tipo local: a cidade da Bahia, o clero, o governador, o mulato, o fidalgo e a rua.

A ABL e a fortuna escolar o colocam no centro do Barroco literário em língua portuguesa. A influência apontada com mais insistência é a dos espanhóis da Época de Ouro, sobretudo Francisco de Quevedo, ao lado de Góngora, Gracián e Calderón. Isso não transforma o baiano em apêndice ibérico: o que ficou famoso foi o golpe curto contra a Bahia que ele via de perto.

De Coimbra à Sé da Bahia

Estudou Humanidades no Colégio dos Jesuítas, em Salvador. Seguiu para Lisboa e, em 1652, entrou na Universidade de Coimbra, onde se formou em cânones em 1661. Em 1663 foi nomeado juiz de fora de Alcácer do Sal, no Alentejo, depois de atestar “pureza de sangue”, exigência jurídica da época. Representou a Bahia nas Cortes de Lisboa e, em 1672, o Senado da Câmara baiana outorgou-lhe o cargo de procurador — do qual foi destituído.

Voltou ao Brasil no fim da década de 1670. O arcebispo Gaspar Barata de Mendonça o nomeou desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia. Em 1682, já com ordens menores, D. Pedro II o fez tesoureiro-mor da Sé. O cargo não durou. O arcebispo seguinte, frei João da Madre de Deus, o destituiu por recusar batina e as ordens maiores exigidas para a função. Aí o verso ganhou o espaço que o foro eclesial fechou.

  • 1636: nascimento em Salvador, em 23 de dezembro.
  • 1661: formatura em cânones em Coimbra.
  • 1663: juiz de fora em Alcácer do Sal.
  • 1682: tesoureiro-mor da Sé da Bahia.
  • 1694: degredo para Angola.
  • 1696: morte no Recife, na data tradicionalmente aceita; a ABL registra estudos que apontam 1695.

Por que Boca do Inferno

A alcunha veio da ousadia. Gregório atacou padres, freiras, governadores, nobres — a quem chamou de caramurus — e o povo que apelidou de “canalha infernal”. O soneto que começa em “Tristes sucessos, casos lastimosos” trata Salvador como véspera de desgraça, cidade de quem perde o dinheiro e ainda perde a língua. “A cada canto um grande conselheiro” ficou como retrato do hipócrita que quer governar o mundo e não governa a cozinha.

Em 1685 o promotor eclesiástico da Bahia o denunciou à Inquisição: difamação de Cristo, falta de reverência em procissão, costumes livres. A acusação não teve seguimento. O governador António Félix Machado da Silva e Castro ainda o hospedou. O próximo, Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, entrou na lista dos inimigos. Em 1694, sob risco de assassinato, foi deportado para Angola. A condenação mais branda é atribuída ao governador João de Lencastre, que segundo a tradição mantinha livro público com cópias dos versos.

Há um ponto que a lenda escolar costuma apagar. A sátira não poupava só o poderoso branco. Negros, mulatos, indígenas e judeus também entram no facão. Ler Gregório como paladino moderno da colônia é anacronismo. Ele é cronista feroz de uma sociedade escravista da qual fazia parte.

Satírica, lírica e religiosa

A divisão escolar em três vertentes continua útil, desde que ninguém trate cada gaveta como biografia. A sátira deu o apelido. A lírica amorosa e o verso sacro mostram o mesmo engenho barroco — conceito, antítese, desengano — sem a gozação da rua. Perto do fim, poemas como “A Cristo N. S. Crucificado” trabalham culpa, pequenez do homem e pedido de perdão. “Buscando a Cristo”, incluído em edições da ABL, tem autoria disputada: críticos já o ligaram a outros nomes em português e espanhol. Vale o aviso antes de citá-lo como prova de conversão.

Nada disso saiu em livro enquanto ele viveu. Francisco Adolfo de Varnhagen imprimiu 39 poemas no Florilégio da Poesia Brasileira. Vale Cabral começou a divulgar a obra poética em 1882. Afrânio Peixoto editou seis volumes pela ABL entre 1923 e 1933, deixando de fora a parte pornográfica, publicada por James Amado em 1968. A edição que a crítica ainda trata como a mais completa é a Crônica do viver baiano seiscentista, do mesmo Amado, depois condensada em dois volumes pela Record.

Para o leitor de agora, a porta mais estável em livraria é a antologia de José Miguel Wisnik na Companhia das Letras, leitura de vestibular em algumas universidades, e o volume curto da coleção Melhores Poemas da Global, com seleção de Darcy Damasceno. São recortes, não o acervo inteiro.

Degredo, Recife e o que restou do nome

Em Angola, advogou em Luanda. Ajudou o governo local a combater uma conspiração militar e ganhou permissão de voltar ao Brasil — sem entrar na Bahia e, segundo a tradição, sem espalhar verso. Foi para o Recife. Morreu de febre contraída na África. A data mais repetida é 26 de novembro de 1696; a ABL prefere 1695 com base em estudos mais recentes. A casa natal, no Largo do Cruzeiro de São Francisco, no Pelourinho, foi tombada pelo IPHAN. A estátua na Praça Castro Alves, em Salvador, é o retrato público mais visível. A Fundação Gregório de Mattos, da Prefeitura de Salvador, herdou o nome, não a biografia.

Na literatura brasileira do século XIX, o baiano seguinte a ocupar a rua com verso de denúncia seria Castro Alves. Não são a mesma escola. Um é Barroco colonial, copiado à mão; o outro é romantismo abolicionista, impresso e declamado no Império. A praça que hoje junta a estátua de Gregório ao nome de Castro Alves é coincidência urbana, não parentesco estético.

Como ler Gregório de Matos hoje

Quem chega pelo apelido leva um pacote pronto: poeta maldito, boca suja, herói da colônia. A leitura mais honesta começa pelo contrário. Primeiro, o acervo é atribuição, não autógrafo. Segundo, a sátira é local e datada — Salvador seiscentista, não libelo atemporal. Terceiro, o mesmo homem que xinga o clero escreve verso sacro e pede perdão. Quarto, o caminho de compra mais útil ainda é antologia anotada, não a promessa de “obra completa” sem aparato.

Gregório de Matos não deixou método, curso, empresa nem canal. A autoridade dele é outra: o poeta que a colônia não imprimiu e a escola brasileira não conseguiu largar. Para quem quer o texto, o volume de Wisnik e o de Damasceno resolvem a primeira leitura. Para quem quer o arquivo, a crônica de James Amado continua sendo o depósito. O resto é lenda de Boca do Inferno — e lenda, neste caso, já era o próprio ofício.

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Projetos de Gregório de Matos

Poemas escolhidos
Poemas escolhidos
Antologia de José Miguel Wisnik na Companhia das Letras, com sátira, lírica e verso religioso de Gregório de Matos.
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Melhores poemas
Melhores poemas
Volume da coleção Melhores Poemas da Global, com seleção de Darcy Damasceno para o primeiro contato com o Boca do Inferno.
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