Quinze anos depois de Cidade de Deus, Paulo Lins mudou de século e de ouvido. Desde que o samba é samba, lançado em 2012 pela Planeta, reconstitui o Rio do fim dos anos 1920: Estácio, zona do meretrício do Mangue, terreiros de umbanda e candomblé, e a invenção do samba urbano que viraria escola.
O título cita a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. A matéria é outra: sambistas, prostitutas, malandros de terno branco, estivadores, e a polícia que batia em quem fazia parte da sociedade “em forma de canto”. A edição em português tem cerca de 300 páginas.
O que o livro de fato propõe
Não é biografia de escola de samba nem manual de história da música. É romance histórico com triângulo amoroso no centro: a jovem Valdirene, o malandro e compositor Brancura (Sílvio Fernandes, personagem real) e o português Sodré, invenção do autor. Ao redor, desfilam Ismael Silva, Tia Ciata, Francisco Alves, Carmen Miranda, visitas modernistas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira.
O ponto de virada coletivo é a fundação da Deixa Falar, tratada como a primeira escola de samba. Lins mistura figura histórica e invenção, letra de samba e prosa. A pesquisa historiográfica é ostensiva: ruas, terreiros, códigos de vadiagem, o Estácio como fábrica de ritmo e de estigma.
Quem esperava uma reprise da neofavela se engana. A violência existe — polícia, preconceito, prisão — mas o motor é outro: como um povo negro da pós-escravidão fez da cultura arma de dignidade, “com duas batidas fortes no surdo”.
Para quem faz sentido
Serve a quem quer o Lins além do tráfico. Serve a quem lê romance histórico brasileiro e tolera trama coral, sexo, malandragem e fé cruzada com samba. Não serve a quem busca ensaio acadêmico puro: a crítica já apontou que a precisão histórica às vezes aperta a invenção, e que a estrutura de romance nem sempre segura tantas linhas.
O livro conversa com leitores de samba, de Estácio, de umbanda e de literatura que trata a cidade como personagem. Não é volume de estreia nem “o outro Cidade de Deus”. É o romance em que Lins prova que o ouvido treinado na favela também escuta 1928.
Como ler sem se perder
Aceite o vai-e-vem entre fato e ficção. Nem todo nome famoso está ali como documentário. O esqueleto é o triângulo; o quadro é o Rio popular. Vale ter à mão a curiosidade de quem abre mapa e discografia: o livro puxa pesquisa. A cadência da prosa imita o samba — frase longa, ginga, improviso.
- Comece por aqui se já leu Cidade de Deus e quer o autor em outra época
- Espere personagens históricos misturados a invenção
- Não leia como manual de origem do samba: leia como romance que pesquisa
O lugar na obra do autor
É o segundo romance, depois de um silêncio editorial de quinze anos. Nasceu de um projeto antigo: Lins falou em épico de quase 600 páginas sobre o bairro em que viveu até os sete anos. O volume publicado é mais curto e mais focado no Estácio de 1928-1931.
Na trajetória do autor, este livro descola a fama do filme. Mostra o poeta que também é pesquisador de cultura negra carioca. Quem só conhece Zé Pequeno encontra aqui Brancura, o surdo e a avenida que o samba ainda tentava conquistar.



