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Paulo Lins

Nascimento: 1958 Rio de Janeiro / São Paulo
Escritor e roteirista carioca, autor de Cidade de Deus, romance de 1997 que Fernando Meirelles levou ao cinema com quatro indicações ao Oscar.

Antes de ser filme, Cidade de Deus foi caderno de pesquisa. Paulo Lins morava no conjunto, dava aula ali perto e, nos anos 1980, trabalhou como assistente da antropóloga Alba Zaluar num estudo sobre crime nas classes populares. O material — relatos, arquivos, o que ele já via da janela — virou romance em 1997, pela Companhia das Letras.

Quem busca o nome hoje quase sempre chega pela adaptação de Fernando Meirelles e Kátia Lund, de 2002, com quatro indicações ao Oscar. O livro é outra máquina: um painel da neofavela, da pequena criminalidade dos anos 1960 ao tráfico que reorganizou o território. A página fala do homem que escreveu isso de dentro — poeta, professor, roteirista — e do que ele fez depois, quando o sucesso do filme ameaçou engolir o autor.

Quem é Paulo Lins

Paulo Lins nasceu no Rio de Janeiro em 11 de junho de 1958, filho de pais baianos. Cresceu na Cidade de Deus, conjunto habitacional da zona oeste carioca criado nas remoções dos anos 1960. Mora hoje em São Paulo. É romancista, poeta e roteirista de cinema e televisão. O nome público se confunde com o do livro, mas a trajetória começa na poesia e na sala de aula, não no set.

Formou-se em Letras. Nos anos 1980 integrou a Cooperativa de Poetas e estreou com o volume Sobre o sol, publicado pela UFRJ em 1986. Em 1995 recebeu a Bolsa Vitae de Literatura. O romance que o tornou conhecido saiu dois anos depois. Em 2003, a John Simon Guggenheim Memorial Foundation concedeu-lhe fellowship na área de ficção.

Há um parentesco de recorte — não de tom — com Carolina Maria de Jesus: os dois escreveram o território periférico em primeira pessoa de quem viveu ali, sem pedir licença ao olhar de fora. Em Lins, o testemunho vira ficção coral. Em Carolina, o diário. Os dois desmentem a ideia de que a favela só entra na literatura brasileira como cenário visto da janela do asfalto.

Como a Cidade de Deus entrou na literatura

O conjunto onde Lins cresceu nasceu como política de remoção. A ideia, no governo Carlos Lacerda, era tirar favelas do centro e da zona sul e empurrar gente para a periferia. O romance reconstitui essa origem e o que veio depois: da malandragem dos anos 1960 à “neofavela de cimento” armada de bocas, silêncios e tiros.

Lins não partiu de uma ideia de best-seller. Partiu de um trabalho de antropologia. Entre 1986 e 1993, no projeto sobre crime e criminalidade nas classes populares, coletou relatos de presos e moradores. Entrevistou chefes do tráfico. Enviou as primeiras cento e poucas páginas a Roberto Schwarz, que viu romance onde o autor ainda via relatório. Schwarz editou o livro na Companhia das Letras.

A crítica saudou a obra como marco da literatura brasileira contemporânea. Schwarz apontou a agilidade de ação cinematográfica aliada ao lirismo da poesia. O termo “neofavela”, usado pelo próprio Lins, marca a diferença em relação à favela antiga das rodas de samba: aqui o território já está tomado pelo narcotráfico e pela polícia que o alimenta.

  • 1986: estreia poética com Sobre o sol (UFRJ)
  • 1995: Bolsa Vitae de Literatura
  • 1997: Cidade de Deus, Companhia das Letras
  • 2002: filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund
  • 2003: Guggenheim Fellowship de ficção
  • 2005: melhor roteiro da APCA por Quase dois irmãos
  • 2012: Desde que o samba é samba (Planeta)
  • 2019: Dois amores (Editora Nós)

O livro, o filme e o que cada um faz

O filme Cidade de Deus estreou em 2002 com roteiro de Bráulio Mantovani a partir do romance. Recebeu quatro indicações ao Oscar 2004 — direção, fotografia, montagem e roteiro adaptado — e indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Elenco em grande parte saído de favelas reais. O sucesso internacional puxou traduções do livro, entre elas a inglesa de Alison Entrekin, de 2006.

Quem lê o romance depois do filme encontra um território mais largo. São três blocos longos — a história de Inferninho, a de Pardalzinho e a de Zé Pequeno — e uma malha de personagens que o cinema precisou cortar. A fala da comunidade entra inteira, com gíria, ritmo e violência sem eufemismo. O filme é corte; o livro é o arquivo.

Lins também escreveu para a série Cidade dos Homens, da TV Globo, spin-off desse universo. Foi roteirista de Quase dois irmãos (2004), de Lúcia Murat, pelo qual a APCA deu o prêmio de melhor roteiro em 2005. Trabalhou no roteiro de Faroeste Caboclo (2013), de René Sampaio, adaptação da canção de Renato Russo, e em Suburbia (2012), com Luiz Fernando Carvalho. Em 2024, falou publicamente sobre a série da HBO Max inspirada no livro, na qual entrou como roteirista da segunda temporada.

Samba, roteiro e os livros seguintes

Quinze anos depois do primeiro romance, Lins publicou Desde que o samba é samba (Planeta, 2012). O palco muda: Estácio, fim dos anos 1920, nascimento do samba urbano, terreiros, meretrício do Mangue, a escola Deixa Falar. Personagens históricos — Ismael Silva, Tia Ciata, Francisco Alves, o malandro Brancura — atravessam um triângulo amoroso inventado. O título cita a canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Quem lê o Lins só do tráfico descobre outro ouvido: o da música carioca como arma de dignidade depois da escravidão.

Em 2019 saiu Dois amores, pela Editora Nós: 48 páginas sobre Lulu e Dudu, irmãos de Queimados, na Baixada Fluminense, atrás de um tênis de marca para o baile funk. A crítica do O Globo aproximou o texto do slam e da rapsódia urbana. Não é apêndice de Cidade de Deus. É o mesmo olho sobre pobreza e desejo, em formato curto.

Há ainda o volume infantil Era uma vez... Eu! (2014) e trabalhos mais recentes pela Gryphus. O detalhe de cada romance principal está nas páginas de projeto. Aqui cabe o arco: poesia, etnografia, romance-território, samba histórico, prosa curta da Baixada, roteiro de cinema e TV.

Essa insistência em escrever de dentro da periferia negra e popular dialoga com outra voz já reunida neste site: Conceição Evaristo chama de escrevivência o que nasce da experiência de mulheres negras. Lins não usa o termo, mas parte do mesmo recado: a literatura brasileira contemporânea não se explica sem quem cresceu no conjunto, no morro, na Baixada.

Por onde começar a ler Paulo Lins

Quem chega pelo filme começa por Cidade de Deus: é a porta, o arquivo e o livro que o cinema não esgota. Quem quer o autor depois da fama vai a Desde que o samba é samba, romance de pesquisa sobre o Estácio. Quem prefere texto curto encontra Dois amores.

Não leia Lins como “o cara do filme”. Leia como o poeta que virou romancista porque um crítico viu literatura no que era, na origem, trabalho de campo. O resto — Oscar, série, entrevista — veio depois. O que permanece é a frase que ele mesmo usou para o território: neofavela de cimento, gente dentro, e a literatura como a arma que lhe restou.

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Cidade de Deus
Cidade de Deus
Romance de 1997 sobre a Cidade de Deus, da malandragem dos anos 1960 ao tráfico. Origem do filme de Fernando Meirelles.
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Desde que o samba é samba
Desde que o samba é samba
Romance de 2012 sobre o Estácio nos anos 1920: nascimento do samba urbano, Deixa Falar, terreiros e malandragem.
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Dois amores
Dois amores
Narrativa curta de 2019 sobre dois irmãos de Queimados atrás de um tênis de marca para o baile funk.
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