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Dois amores

Livro
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Narrativa curta de 2019 sobre dois irmãos de Queimados atrás de um tênis de marca para o baile funk.

Dois amores cabe na palma da mão e não pede desculpa por isso. Publicado em 2019 pela Editora Nós, o livro de Paulo Lins tem 48 páginas e conta Lulu e Dudu, irmãos de Queimados, na Baixada Fluminense, a uns 50 quilômetros do Rio. Querem namorada. Querem beijar na boca. O lugar disso é o baile funk. O passaporte é um tênis colorido de marca.

Para comprar o tênis falta dinheiro. A mãe é faxineira. O pai faz bicos. A dieta da casa é salsicha, macarrão, farinha. Os meninos vendem bala no trem da Central, Mentex na porta do cinema, viram flanelinha no sinal. A cidade partida — Copacabana, Leblon, favela, asfalto — aparece como luva de aço.

O que o livro de fato propõe

Não é romance de 400 páginas nem apêndice de Cidade de Deus. É narrativa curta, cadenciada, próxima do slam e da rapsódia urbana, como notou a crítica do O Globo na estreia. Lins usa fala oral, ritmo de verso e o olhar de quem conhece a pobreza por dentro. A orelha do volume lembra João Antônio sobre Lima Barreto: há escritores atrás dos quais se vê um povo — cara, roupa, cheiro, jeito de ser.

A promessa pública é essa: dois meninos, dois mundos, a delicadeza feroz de quem sabe que a carência e a brutalidade estão em tudo. Há milícia, polícia, tráfico, o risco de um dia de trabalho virar abordagem. Não é livro infantil. É livro sobre infância, com palavra dura e ogro armado.

Para quem faz sentido

Serve a quem quer Lins em dose curta. Serve a quem lê literatura da Baixada, da periferia e da juventude pobre sem paternalismo. Não serve a quem espera o painel coral de Cidade de Deus ou o recorte histórico do samba. São 48 páginas. O recado cabe nisso; a fome de enredo longo, não.

A edição da Nós, de setembro de 2019, circula em capa comum e em Kindle. O texto não promete redenção nem moral de cartilha. Promete dois irmãos tentando impressionar no baile com o que o mundo lhes fecha.

Como ler sem se perder

Leia de uma sentada. A cadência importa mais que o “o que acontece depois”. O tênis é McGuffin e é tesouro: objeto de desejo, classe e masculinidade precoce. A linguagem falada não é enfeite; é o chão. Quem limpa a fala para “português correto” perde o livro.

  • Comece por aqui se quiser um Lins curto, sem o arquivo do romance de 1997
  • Espere fala oral, Baixada e infâncias sem salvação fácil
  • Não trate como literatura infantil só porque os protagonistas são meninos

O lugar na obra do autor

É o Lins depois do samba e muito depois do filme. Prova que o ouvido da Cidade de Deus também escuta Queimados, o funk e o tênis de marca como drama. Na prateleira do autor, funciona como contraponto: menos etnografia de décadas, mais um dia na selva de pedra.

Quem leu o romance de 1997 e achou que Lins só escrevia tráfico de época encontra aqui outra insistência: pobreza, desejo, irmãos, a cidade que limita a vida como luva de aço. O formato mudou. O olho, não.

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