Depois do sucesso de Ronda noturna, Cadão Volpato voltou ao conto com Dezembro de um verão maravilhoso, publicado pela Iluminuras em 1999. São 23 textos que têm na elipse sua característica principal: o essencial não está no que é dito, e sim no volume escondido sob a superfície, como nos icebergs de Hemingway.
O título sugere o clima do conjunto. São histórias de temperatura ambígua, em que o verão pode ser maravilhoso e incômodo ao mesmo tempo, e em que os personagens fingem escrever na estação de telégrafos mais próxima enquanto o leitor precisa completar o que falta. A escrita aposta na confiança em quem lê.
O que torna esta coletânea diferente
Se Ronda noturna já trazia humor e concisão, aqui o autor radicaliza o procedimento. Cada conto é construído para deixar um resto: uma frase que não se explica, uma cena interrompida, um gesto sem justificativa. O resultado é uma leitura rápida em extensão e lenta em efeito — o tipo de livro que se termina em uma tarde e se revisita depois.
A coletânea também documenta um momento específico da ficção brasileira: o fim dos anos 1990, quando autores formados no jornalismo cultural levavam para o conto o ritmo da reportagem e a economia de recursos da redação.
A elipse como método
Na prática, a elipse significa que o narrador corta o que a maioria dos contistas explicaria: a causa de uma briga, o desfecho de uma viagem, a razão de uma mudança. O leitor recebe os efeitos e precisa montar o quebra-cabeça. Em 23 contos, o procedimento poderia soar repetitivo, mas o autor varia o ângulo a cada texto — ora pela voz do personagem, ora por um objeto que atravessa a cena, ora por uma data que volta.
Com 96 páginas, o volume mantém o formato enxuto das edições da Iluminuras e funciona como um bom exemplo do que se convencionou chamar de conto de atmosfera.
Para quem é indicado
Leitores de contos que preferem sugestão a explicação encontram aqui um dos títulos mais representativos dessa linhagem. Quem escreve ou estuda narrativa curta pode observar, conto a conto, como a elipse organiza o texto sem torná-lo hermético.
A edição é da Iluminuras, em formato impresso, e circula principalmente em livrarias independentes, sebos e catálogos de literatura brasileira. Para quem quer começar pelo autor, funciona bem como segundo passo, depois de Ronda noturna, ou como porta de entrada para quem prefere histórias curtas.





