Diário de um Cavaleiro Templário não conta a fundação do clã MacLachlan. Conta, no formato de manuscrito achado, a voz de um cavaleiro da Ordem do Templo na Segunda Cruzada. A edição que a Crux publicou em 1º de outubro de 2025, como volume um, traz na descrição da Amazon o achado: fragmentos nas mãos de uma carmelita descalça, no leito de morte, em junho de 1720. Nenhuma irmã sabia como os pergaminhos tinham chegado até ela. O exame teria mostrado a letra de Robert de la Croix, templário que viveu entre 1109 e 1186 e lutou sob o mestre Everard de Barres.
Esse quadro de “documento encontrado” é o convite do livro. O leitor não entra por um prólogo de historiador. Entra por um convento do século XVIII que guarda um diário do século XII. A guerra, a regra da Ordem e o nome de um mestre histórico funcionam como cenário. O que se lê é ficção montada como testemunho.
A edição da Record e a edição da Crux
O título já circulava no catálogo de Orlando Paes Filho bem antes de 2025. A Amazon lista uma edição da Record, ISBN 978-85-01-07641-0, com 433 páginas e data de 2006 na ficha, embora outras listas empurrem o ano para 2007. A capa da Record avisa, em letra menor, “autor da série Angus”. Ou seja: a casa vendia o diário para quem já conhecia o guerreiro escocês, não como manual de história da Ordem.
A edição da Crux é outro objeto físico. Tem 392 páginas, formato 14 x 21 cm, Orlando Paes Filho como autor, Pedro Rossini como editor e Solano Aquino como ilustrador. Solano Aquino é o mesmo artista plástico que expôs no lançamento de Rainhas da Guerra, em 22 de fevereiro de 2025, no Museu Municipal João Batista Conti, em Atibaia. A capa nova traz a cruz da Ordem, a marca Crux e a indicação de volume um. Há um volume dois anunciado à parte. Esta página fica no primeiro, que é o livro reconhecível pelo título clássico.
O que o leitor encontra, e o que não encontra
Encontra um romance histórico de cruzada, escrito por quem construiu a vida pública em cima de outro mapa medieval, o de Angus. O diário serve a quem já leu o clã e quer uma voz templária do século XII, e também a quem chega pelos cavaleiros da Ordem sem nunca ter aberto MacLachlan. Não substitui Angus - O Primeiro Guerreiro. Aquele livro é a origem do clã no século IX, entre vikings e reinos da Bretanha. Este é um testemunho fictício de Templário, dois séculos e um gênero de narrativa depois.
Também não é tratado de história da Ordem, nem álbum de pintura, embora a edição Crux seja ilustrada e o autor publique quadros de tema católico e medieval no Instagram. A capa promocional da Crux repete um slogan de centenas de milhares de livros vendidos. Esse número não foi auditado pela Folha em 2004, quando a Siciliano falava em 36 mil exemplares só do primeiro Angus. Aqui o slogan fica de fora da conta. O que dá para afirmar é a existência das duas edições, os nomes na ficha e o enredo-moldura publicado pela loja.
Como escolher a edição
Quem quer o livro de meados dos anos 2000, no catálogo da Record e na esteira direta de Angus, procura a edição antiga, em geral usada. Quem quer o volume ilustrado atual, com Solano Aquino e o selo Crux, procura o volume um de 2025, à venda na Amazon. Os dois carregam o mesmo título de base. Não são livros diferentes o bastante para virar dois projetos: são a vida editorial de um único diário templário, primeiro ao lado da série Angus na Record, depois reapresentado em volume pela casa que também publica o autor hoje.
O caminho de leitura, para quem está começando pelo autor, continua sendo Angus. O diário entra depois, quando o interesse já é a Ordem do Templo e não a fundação do clã.


