Dois romances de Nico Horta, o segundo romance de Cornélio Penna, foi publicado em 1939, quatro anos depois de Fronteira. O livro é dedicado a Itabira do Mato Dentro — a "melhor amiga do escritor", nas palavras da dedicatória — e organiza toda a narrativa em torno do signo do duplo.
A história começa com D. Ana, que na infância temia o pai e cresceu entre uma mãe resignada e irmãos violentos. Ela se casa com um amigo da família, Nico, e fica viúva grávida; mais tarde, casa-se com Pedro e dá à luz gêmeos. O primeiro recebe o nome do pai morto, Antônio, e passa a ser chamado de Nico Horta; o segundo leva o nome do padrasto. A preferência dos pais por Pedro e a indiferença com que tratam o outro irmão alimentam uma rivalidade que atravessa a vida dos dois.
O duplo como estrutura do romance
Dois maridos, dois irmãos, dois lugares, duas paixões: o romance transforma a repetição em tema e em forma. Nico cresce atormentado, fala consigo mesmo, vê fantasmas e busca um sentido para a própria vida enquanto as alucinações não o abandonam. A fazenda e a cidade se alternam como cenários de uma mesma cisão, e a prosa de Penna acompanha o protagonista por dentro do conflito, sem explicações fáceis.
A Itabira de Cornélio Penna
O livro é o mais itabirano dos quatro romances do autor. A dedicatória à cidade e a presença constante da paisagem serrana fizeram com que a crítica lesse a obra como uma reconstituição ficcional da memória de Minas Gerais — a mesma memória que apareceria, anos depois, em Repouso e A menina morta. Para quem acompanha a obra em ordem, é aqui que a cidade imaginária do autor ganha contornos mais nítidos.
Para quem é a leitura
O romance interessa a leitores de ficção psicológica, a estudiosos da literatura mineira e a quem quer entender como Cornélio Penna construiu, livro a livro, o seu território literário. A edição da Faria e Silva, de 2021, tem 132 páginas e traz o texto integral do romance.





