Donnar, o matador de dragões, leva o cordel para um território que a banca nordestina quase não frequenta: príncipe, dragão, escudo e uma saga que Rouxinol do Rinaré apresenta como devedora das lendas nórdicas e germânicas. A edição ilustrada de 2017 tem 66 páginas e ISBN 8569097271. Na capa, o nome do poeta fica acima do título, e a cena é a de um guerreiro ajoelhado diante da boca de um dragão. Não é folheto de oito páginas em papel jornal. É livro de fantasia em verso.
O texto de apresentação amarra as fontes sem esconder o empréstimo. A história do príncipe guerreiro conversa com a Saga dos Volsungos, com O anel do Nibelungo, de Richard Wagner, e com a Canção dos Nibelungos, poema medieval do século XIII. O cordel não vira aula de mitologia. Usa esse repertório como motor de aventura: há um matador de dragões, há um reino, há um confronto que a capa entrega antes da primeira estrofe. O leitor de fantasia reconhece o gesto. O leitor de folheto reconhece o metro.
O folheto da Tupynanquim e o livro de 2017
Antes dessa edição ilustrada, a bibliografia já listava As bravuras de Donnar, o matador de dragões, folheto de 32 páginas pela Tupynanquim. O livro de 2017 não é um reprint com outra capa. Ganha página, ilustração e o formato de volume único. Quem procura o poema épico encontra o livro. Quem procura o folheto de feira encontra o título anterior, mais curto, da mesma linha narrativa. São parentes, não o mesmo objeto. Por isso a edição ilustrada é a que se compra como livro, e o folheto continua sendo outra peça.
O lugar na carreira também é outro. O Alienista em cordel traduz um clássico brasileiro para a sextilha. Donnar importa um clássico europeu de dragão e o verte no mesmo metro. Os dois gestos se espelham. Nenhum dos dois é o livro infantil de lenda indígena, como Um curumim, um pajé e a lenda do Ceará, nem o manual de sala de aula escrito com Arlene Holanda. Donnar fala com quem gosta de aventura épica e aceita que ela venha rimada, com vocabulário de cordel e não de romance de alta fantasia traduzido.
O que dá para saber antes de abrir
Dá para saber o tamanho, a data e o tom. São 66 páginas em português, publicadas em 2017, com uma capa que não deixa dúvida sobre o gênero: dragão, guerreiro, fogo, ossos no chão. As fichas públicas não trazem sinopse capítulo a capítulo nem anunciam uma coleção em volta do príncipe. O que a apresentação sustenta é um poema épico de cordelista já premiado em outros certames, escrito para quem quer aventura em verso.
O volume chega depois de mais de uma década de folhetos assinados como Rouxinol do Rinaré e depois de livros infantis já adotados em escola. A fantasia não é um desvio tardio de um autor só escolar. O folheto da Tupynanquim já carregava Donnar. O livro de 2017 deu a essa peleja de dragão o corpo de um volume ilustrado, que se guarda fora da banca e se distingue, pela capa e pela extensão, do folheto de 32 páginas que o antecedeu.


