O Alienista em cordel existe porque o conto de Machado de Assis cabe mal numa aula curta e num ouvido que não foi treinado no século XIX. Rouxinol do Rinaré reescreveu a história de Simão Bacamarte em estrofes, e a Nova Alexandria publicou o volume em 2010, com 48 páginas e xilogravuras de Erivaldo. Não é o texto de Papéis avulsos com outra capa. É outra dicção: rima, métrica de cordel e gravura no lugar do narrador distanciado.
O conto original, de 1882, acompanha o médico de Itaguaí que funda a Casa Verde para separar loucos e sãos e termina embaralhando os dois grupos. A adaptação guarda esse movimento. Uma estrofe citada na apresentação da edição apresenta o personagem sem o período longo de Machado: Simão Bacamarte surge como o especialista formado em Coimbra, excêntrico, famoso pelos estudos de alienista. O humor fica. A sintaxe muda. Quem já leu o conto reconhece a Casa Verde. Quem nunca leu encontra a trama pela primeira vez em verso.
Para quem o livro foi feito
O formato denuncia o uso. Quarenta e oito páginas, brochura, xilogravura em sequência, dentro da coleção Clássicos em Cordel. É leitura de ciclo escolar e de quem quer Machado sem enfrentar de saída o parágrafo machadiano. A biografia de Rouxinol registra que essa adaptação entrou em projetos da Biblioteca Nacional e em escolas de Belo Horizonte. Em 2013 o título figurou nas feiras de Frankfurt e de Bolonha. O cordel, nesse circuito, viajou como livro de editora, com ISBN 978-85-7492-173-0, e não só como folheto de banca.
Erivaldo assina as imagens. A capa põe o médico de jaleco diante de um casario, com a vila no meio da discussão que Bacamarte provoca. A gravura faz o serviço que uma nota de rodapé faria num clássico comentado: situa Itaguaí como povoado, não como conceito. Numa adaptação curta, isso pesa mais do que um prefácio longo. O leitor vê a rua, o jaleco e a multidão antes de decorar o nome do doutor.
O que a adaptação não substitui
Não substitui o conto. Quem precisa da ironia de Machado na frase original, das voltas do narrador e do vocabulário de 1882 tem de ir à prosa, no volume em que Machado de Assis a publicou. O cordel escolhe fidelidade de enredo e de tom, declarada pelo adaptador na abertura do livro, e abre mão do período. Um ensaio de Alex Sander Luiz Campos, saído em 2014 pela Unimontes no volume Tradições e traduções, trata exatamente desse traslado. O interesse acadêmico não transforma o livrinho em tratado. Confirma que a passagem do conto para a sextilha foi lida como problema literário, não como resumo descartável de vestibular.
Na trajetória de Rouxinol do Rinaré, o volume ocupa um lugar preciso. Não é o folheto de encomenda sobre o metrô de São Paulo, nem o infantil de lenda cearense, nem o épico de dragão. É o ponto em que o cordelista do sertão central pega o conto mais comentado da prosa brasileira e o devolve em versos que uma feira de Bolonha consegue incluir. Quem leva esta edição para casa leva a adaptação ilustrada de 2010, não um folheto solto de mesmo tema nem o texto integral de Machado.
O limite é útil na hora de escolher. Se a busca é pela Casa Verde em versos curtos, com gravura e tamanho de leitura escolar, este é o livro. Se a busca é pelo narrador de 1882, pelo vocabulário da época e pelas ironias que só a prosa sustenta, o caminho continua sendo o conto. As duas leituras conversam. Não ocupam o mesmo objeto.


