Elogio da Superficialidade é o nome brasileiro de Ins Universum der technischen Bilder, o livro de 1985 em que Flusser leva a tese da fotografia para o ambiente das telas. A edição da É Realizações — o Universo das Imagens Técnicas no subtítulo — é o volume de quem já leu a caixa preta e quer saber o que acontece quando a imagem deixa o negativo e vira cálculo.
A “superficialidade” do título não é elogio da bobeira. É elogio da superfície: a imagem técnica não esconde uma profundidade romântica atrás da tela; ela opera na pele do visível, em pontos, pixels, linhas de programa. Quem busca profundidade onde só há código lê mal o objeto. Flusser inverte o insulto e transforma a superfície em problema filosófico.
O que muda em relação à Caixa Preta
Na fotografia, o aparelho ainda se parece com uma caixa que se segura. No universo das imagens técnicas, o aparelho se espalha: televisão, computador, rede de imagens que se calculam umas às outras. A ruptura da escrita linear se completa. Não se trata mais só do clique. Trata-se de viver num ambiente em que a imaginação técnica compete com a linha do texto — o tema que ele retoma em A escrita.
O leitor de comunicação e de artes visuais encontra aqui o Flusser da pós-história: o tempo em que a sociedade industrial da linha (fábrica, livro, progresso) cede lugar à sociedade dos aparelhos que geram, combinam e descartam imagens. A ameaça e a chance são a mesma: ou se vira funcionário do programa, ou se aprende a jogar contra as casas previsíveis.
- Quem leu Filosofia da Caixa Preta e quer a continuação, não o resumo.
- Quem estuda mídia, cinema, artes visuais ou cultura digital e precisa de um conceito de imagem que não se esgota em “representação”.
- Quem desconfia do discurso de que a tela “aproxima” e quer um vocabulário mais seco.
Como usar o livro
Não é história da arte digital. Não nomeia plataformas. Flusser morreu em 1991; o que ele descreve é a lógica do cálculo, não o produto de uma empresa. Por isso o texto envelhece pouco: o aparelho mudou de tamanho, o programa não mudou de espécie. A imagem gerada por modelo, o filtro, o arquivo infinito do celular são casos da mesma família que ele chamou de universo técnico.
A edição da É Realizações dialoga visualmente com a da Caixa Preta — o nome de Flusser repetido em coluna, o laranja do título. São volumes irmãos, não clones. Um trata do clique. O outro, do ambiente. Ler os dois em sequência é o percurso mais honesto para quem quer o Flusser da imagem sem parar no slogan da caixa preta.
Se a expectativa for um tratado sistemático, o livro vai parecer ensaio solto. Se a expectativa for um deslocamento de vocabulário — da profundidade da obra única para a superfície programada —, ele cumpre o título à letra.




