Gestos é o Flusser que sai da caixa preta e volta ao corpo. Publicado em alemão em 1991, no ano da morte do autor, o ensaio propõe uma fenomenologia do gesto: movimento em que se articula uma liberdade, ainda que a física desse movimento seja tão determinável quanto qualquer outro. A edição brasileira da Annablume, de 2014, tem 120 páginas e é a porta para quem quer o pensador depois — ou antes — da câmera.
A definição de abertura não é ornamentação. Se o gesto fosse só movimento, bastaria a biomecânica. Flusser insiste que a explicação objetiva não alcança a liberdade que se articula ali. A teoria dos gestos seria então uma semiologia da expressão, alimentada pelas ciências que descrevem o movimento e atravessada pela contradição entre dado e decodificação. Ponte, diz ele, entre ciências do espírito e da natureza.
O que o livro faz — e o que a edição brasileira não faz
O volume em português é mais curto que Gestures, a edição em inglês. Leitores relatam a ausência de ensaios que existem noutras línguas, entre eles o gesto de ouvir música. Quem precisa do conjunto completo tem de cruzar edições. Quem quer o núcleo — o que é um gesto, por que ele não se reduz a movimento — encontra aqui a tese.
O recorte importa para o perfil de Flusser. Depois de nomear o funcionário da câmera, ele recua para a mão, o fumo do cachimbo, o ato de escrever, o ritual miúdo. A liberdade não some no aparelho; ela se joga em articulações do corpo que o programa ainda não engoliu por inteiro. Ou engoliu, e o ensaio serve para perceber isso.
- Leitor de filosofia da técnica que cansou de ouvir só “caixa preta”.
- Quem pensa relação corpo-psique, performance, dança ou comunicação não verbal.
- Quem quer o Flusser de 1991, no fim da vida, ainda a nomear fenômenos curtos.
Como ler
O texto é ensaístico, não enciclopédico. Não há taxonomia completa dos gestos humanos. Há um método: pôr entre parênteses o preconceito de que o gesto “exprime uma intenção” da mesma forma que uma frase. Às vezes o gesto é o próprio pensamento. Às vezes é hábito. Às vezes é programa social colado no músculo.
A capa da Annablume — mão, cachimbo, vermelho sobre preto — acerta o tom. Flusser fumava; o retrato público dele, óculos na testa, barba, cachimbo, é quase um gesto-assinatura. O livro não é biografia. Mas o objeto da teoria está na fotografia que o acompanha.
Há queixa recorrente de revisão na edição brasileira: erros ortográficos que atravessam páginas. O conteúdo, mesmo assim, é o que o título promete. Para uma teoria geral dos gestos em português, este continua sendo o volume disponível — incompleto em relação ao inglês, suficiente para o conceito, exigente com o leitor que espera manual.




