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Vilém Flusser

Flusser

Nascimento: 1920 Praga / São Paulo
Filósofo tcheco-brasileiro da comunicação e da imagem técnica. Autor de Filosofia da Caixa Preta, viveu três décadas em São Paulo e escreveu em quatro línguas.

Quem busca Vilém Flusser quase nunca quer só a ficha de Praga. Quer a tese que atravessou curso de fotografia, redação de jornal e ateliê de design: a câmera não é um lápis com obturador. É uma caixa preta. Quem aperta o botão opera um programa — e a fotografia, nesse recorte, deixa de ser recorte fiel do mundo para virar imagem técnica.

Nasceu em 12 de maio de 1920, numa família judaica de intelectuais. Fugiu da ocupação nazista em 1939, perdeu o pai em Buchenwald e a mãe, a irmã e os avós em Theresienstadt e Auschwitz. Chegou ao Brasil no fim de 1940, casou-se com Edith Barth no Rio de Janeiro, naturalizou-se em 1950 e passou trinta e dois anos em São Paulo como professor, jornalista e ensaísta. Escreveu em português, alemão, inglês e francês. Morreu em 27 de novembro de 1991, num acidente de carro na volta de uma palestra na cidade natal — a primeira depois de mais de cinquenta anos.

Quem foi Vilém Flusser

Flusser é o filósofo tcheco-brasileiro da comunicação e da fotografia como aparelho. Não montou sistema à maneira de tratado universitário. Escreveu ensaios curtos, provocativos, em várias línguas, e voltou sempre às mesmas perguntas: o que a língua faz com a realidade, o que o aparelho faz com o olhar, o que resta de liberdade quando o programa já escolheu as categorias.

Autodidata depois da interrupção dos estudos na Universidade Carolina de Praga e de um semestre na London School of Economics, ele não colecionou diploma para entrar no debate. Entrou pela Revista Brasileira de Filosofia, pelo Instituto Brasileiro de Filosofia de Miguel Reale, pelas aulas na Escola Politécnica da USP, na Escola de Arte Dramática, na Escola Superior de Cinema e, sobretudo, na FAAP. No jornal, colaborou com o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, com a Folha e, a partir de 1966, com o Frankfurter Allgemeine Zeitung.

O traço que o distingue de um teórico de mídia genérico é o percurso: a obra começa em português, no Brasil dos anos 1960, e só depois a Europa o lê como pensador da fotografia e das novas mídias. Filosofia da Caixa Preta é o livro que o tornou reconhecível fora do circuito paulistano. Não é o começo da obra.

Da Praga ocupada ao porto do Rio

O pai, Gustav Flusser, era professor de matemática e física na Universidade Carolina. A mãe, Melitta Basch, musicista. Vilém cresceu numa Praga de línguas sobrepostas — alemão, tcheco, o latim e o grego da escola — e conheceu Edith Barth ainda nessa cidade. Em 1938, começou filosofia na Faculdade de Direito da Carolina. Em 1939, com a invasão nazista, saiu com Edith e os pais dela rumo a Londres.

A guerra cortou a família. Em 1940, já no caminho para o Brasil, soube da morte do pai. Mãe, irmã Ludvika, avós e tios foram assassinados nos anos seguintes. O casal desembarcou no Rio, casou-se em 1941 e fixou-se em São Paulo. Os primeiros anos foram de trabalho na empresa da família Barth — importação, rádio, transformadores — enquanto Flusser lia Heidegger, Kant, Cassirer e tentava publicar no exterior, sem sucesso imediato.

Três filhos nasceram nessa década. A naturalização brasileira saiu em 1950. A casa deixou de ser um dado e passou a ser problema filosófico: Heimat não é morada eterna, e o exílio, para ele, é terreno de criação porque quebra o hábito invisível de quem nunca saiu. Essa nota atravessa a autobiografia Bodenlos e os ensaios sobre migração. Não transforma tragédia em causa única da teoria — só registra o chão de onde ele escreveu.

São Paulo, a FAAP e o primeiro livro em português

O salto público veio no começo dos anos 1960. Flusser aproximou-se do Instituto Brasileiro de Filosofia, publicou na revista do instituto e encontrou o interlocutor que mais marcou essa fase, o filósofo Vicente Ferreira da Silva. Lecionou Filosofia da Ciência na Politécnica da USP e Filosofia da Comunicação nas escolas de cinema e de teatro. Ajudou a fundar o curso de Comunicação e Marketing da FAAP; as aulas, segundo relatos da época, lotavam o teatro da fundação.

Em 1963 saiu Língua e realidade, o primeiro livro. A tese é seca e ambiciosa: a língua não descreve o mundo, ela o torna apreensível. Sem estrutura linguística, o caos das aparências não vira cosmos. Daí a consequência que irrita quem espera uma filosofia universal: cada tipo de língua carrega uma ossatura ontológica distinta. O português, língua sem cânone filosófico rígido, lhe parecia plástico o bastante para pensar sem a armadura do alemão acadêmico.

Dois anos depois veio A História do Diabo. Colaborou com a Bienal de São Paulo. Traduziu textos de Haroldo de Campos para o alemão e circulou no mesmo São Paulo em que a poesia concreta e a teoria da comunicação se atravessavam — o território de Augusto de Campos e de Décio Pignatari. Em 1970, na reforma universitária da USP, os professores de filosofia foram reunidos na FFLCH; Flusser, que lecionava na Politécnica e não tinha títulos acadêmicos formais, não foi recontratado. Em 1972, durante a preparação da 12ª Bienal, ele e Edith viajaram à Europa e decidiram ficar: primeiro a Itália, depois Robion, no sul da França, a partir de 1981. Continuou voltando ao Brasil para aulas na FAAP nos anos 1980.

  • Língua e realidade (1963): o livro de estreia, em português, sobre língua como estrutura da realidade.
  • A História do Diabo (1965): ensaio de juventude paulistana, depois reescrito em alemão.
  • Filosofia da Caixa Preta (1983–1985): a filosofia da fotografia que o tornou internacional.
  • O universo das imagens técnicas: a passagem da fotografia ao ambiente programado das telas.
  • Gestos (1991): fenomenologia do gesto como articulação de liberdade.

O que a Filosofia da Caixa Preta mudou na conversa sobre fotografia

Escrito primeiro em alemão em 1983 (Für eine Philosophie der Fotografia) e vertido pelo próprio autor ao português, o livro curto virou o endereço padrão de quem chega a Flusser. A invenção da fotografia, diz ele, é ruptura histórica comparável à da escrita linear. A pintura ainda se deixa “decodificar” como gesto de um pintor. A fotografia parece cópia fiel, mas nasce de um aparelho cujas categorias — proximidade, contra-plongée, tempo de exposição — já estavam programadas antes do fotógrafo escolher o enquadramento.

O léxico pegou porque nomeia o que o senso comum mistura: aparelho (ferramenta que muda o significado do mundo, não o mundo em si), funcionário (o operador preso às regras da máquina), programa (jogo em que o acaso vira necessidade se a partida durar o bastante) e imagem técnica (superfície que imita a imagem tradicional e esconde conceitos opacos). Em tempos de câmera no bolso e de imagem gerada por modelo, a pergunta não envelheceu: quem programa quem?

Flusser não era fotógrafo de autoria no sentido de um documentarista de série longa. Era filósofo da técnica da imagem. Por isso a página dele não substitui um manual de câmera. Substitui a ilusão de que “apertar o botão” é um ato inocente.

Comunicação, design e o universo das imagens técnicas

A fase europeia alargou o objeto. O universo das imagens técnicas — em português, Elogio da Superficialidade — leva a tese da fotografia para o ambiente das telas, da televisão e do cálculo. A escrita pergunta se o texto linear tem futuro quando a imaginação técnica compete com a linha. Gestos recua do aparelho para o corpo: o gesto é movimento em que se articula uma liberdade, mesmo quando a física do movimento é explicável.

A coletânea O mundo codificado, organizada por Rafael Cardoso, reuniu ensaios de design e comunicação que o Brasil lê em curso de formação. Os textos são curtos, precisos, e tratam o designer como figura central de uma cultura que tenta superar limites do corpo por artefato — com chão conceitual mais frágil do que o mercado admite. Não é manual de marca. É filosofia do objeto útil.

Flusser insistia que a comunicação humana é artifício: um véu de arte, ciência, filosofia e religião tecido para não viver o tempo inteiro a solidão da morte. Daí o tom que mistura ontologia e jornalismo. Ele não promete método de produtividade. Promete um vocabulário para quem convive com aparelhos e ainda quer decidir alguma coisa.

Onde está o acervo e o que ler primeiro

Não há perfil pessoal em rede: Flusser morreu em 1991. O que resta organizado está no Arquivo Vilém Flusser São Paulo e no arquivo da Universidade das Artes de Berlim. A revista acadêmica Flusser Studies segue o rastro em várias línguas. Quem quer começar sem se perder no catálogo completo costuma ir a Filosofia da Caixa Preta; quem vem do design e da comunicação, a O mundo codificado; quem quer o Flusser brasileiro de origem, a Língua e realidade.

Em novembro de 1991, no Goethe-Institut de Praga, ele falou pela primeira vez na cidade natal sobre mudança de paradigma. Reconheceu as ruas e não se reconheceu nelas. Na viagem de volta, o acidente perto de Bor matou o filósofo. Edith, que administrou o legado por mais de duas décadas, foi enterrada no mesmo túmulo do Novo Cemitério Judeu de Praga em 2014.

Vilém Flusser era brasileiro?

Nasceu em Praga em 1920 e naturalizou-se brasileiro em 1950. Viveu 32 anos em São Paulo, escreveu os primeiros livros em português e voltou à Europa em 1972, com base em Robion, na França.

Qual é o livro mais conhecido de Flusser?

Filosofia da Caixa Preta, ensaio para uma filosofia da fotografia. No Brasil de hoje, O mundo codificado disputa com ele a prateleira de quem chega pelo design.

Flusser tem site ou redes oficiais?

Não. Os endereços públicos do legado são o Arquivo Vilém Flusser São Paulo e o arquivo em Berlim, além da revista Flusser Studies.

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Projetos de Vilém Flusser

Gestos
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Fenomenologia do gesto em Vilém Flusser: o movimento em que se articula uma liberdade. Edição brasileira da Annablume.
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