Escalavra é o segundo romance de Marcelino Freire, lançado em 25 de novembro de 2024 pelo selo Amarcord, do grupo Record. O título vem do verbo escalavrar: esfolar, roçar, deixar em carne viva. Freire o chama de romance megalítico, ou de teatro das escavações. A história é de um pai, um filho e o silêncio sepulcral entre eles.
O autor ligou esse silêncio ao próprio pai, que tinha quase sessenta anos quando o filho nasceu em Sertânia. Perto dali está o Vale do Catimbau, com monumentos de pedra. A prosa tenta o mesmo: palavra sobre palavra, sem a folga cômoda do capítulo convencional. Os blocos do livro — trecho publicado no jornal Rascunho em maio de 2024 — falam de rejunte, fossa, tijolo, cova, chorume. O trabalho braçal vira gramática.
O que “romance megalítico” quer dizer aqui
Não é metáfora solta de orelha. Freire já tratava Nossos ossos como romance arqueológico. A capa de BaléRalé, em 2003, trazia as múmias de Weerdinge. Escalavra dá o passo seguinte: a estrutura quer imitar o monumento pré-histórico, pedra encostada em pedra, feito para o descanso dos mortos. Uma palavra “escalavra” a outra. A frase não desliza; fricciona.
O título, disse o autor, saiu de um verso de Max Martins. Em 2026 ele devolveu exemplares a bibliotecas de Lisboa onde, em 2023, escreveu parte do livro. A circulação pública do romance passou por Flip, Entrelinhas da TV Cultura, Sesc e indicação ao Jabuti. Nada disso transforma o volume em livro fácil de indicar no fim de semana. A leitura pede ouvido e paciência com a oralidade antiga que Freire descreve como vento sonoro, nada eólico.
Para quem abrir este livro — e para quem esperar o outro
Escalavra faz sentido para quem já acompanhou a investigação da linguagem nos contos e em Nossos ossos, e quer o segundo romance dez anos depois. Faz sentido para o leitor de prosa poética brasileira que aceita o sertão sem folclore de cartão-postal. Não faz sentido para quem quer enredo de pai e filho resolvido em revelação psicológica no último terço.
O silêncio entre as duas gerações é o assunto, não o spoiler. Há Iansã, há pedra, há o Nordeste como chão e não como tema. Quem precisar de porta de entrada mais curta continua melhor em Contos Negreiros. Quem quiser o Freire de 2024, o da Amarcord, entra por aqui: 152 páginas, capa comum, ISBN 978-6585854146.
Edição, recepção e lugar na prateleira
A ficha da Amarcord apresenta o autor como escritor, dramaturgo e professor de oficinas, e o livro como continuação de uma arqueologia da linguagem. A recepção em livraria e imprensa literária tratou Escalavra como acontecimento de estilo, não como “volta ao romance” genérica. Há quem saia da leitura “escalavrado”; há quem peça a norma de volta. Os dois recados descrevem o mesmo objeto.
Na prateleira de Freire, este volume não substitui o Jabuti de 2006 nem o Machado de Assis de 2014. Completa o arco: do conto falado ao romance ósseo e, agora, ao romance de pedra. Se a pergunta for “qual o livro mais recente”, a resposta é esta. Se a pergunta for “qual o mais representativo”, a resposta ainda pode ser Contos Negreiros. As duas perguntas são honestas. Só não convém misturá-las.




