Nossos ossos é o primeiro romance de Marcelino Freire, publicado pela Record em 2013. Até então o autor era, no mercado e na crítica, o contista do Jabuti. O livro muda a escala sem trocar o ouvido: a oralidade continua, agora em viagem. Um dramaturgo consagrado decide levar o corpo de um garoto de programa assassinado de volta aos pais, numa estrada que desce de São Paulo a Pernambuco.
Freire chamava o romance de arqueológico. A capa da Record, com caveiras, não é enfeite. Ossos, ligamentos, músculos: o corpo morto organiza a prosa. Em 2014 a obra ganhou o primeiro lugar do Prêmio Machado de Assis de romance da Fundação Biblioteca Nacional. Foi finalista do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura. Saiu na França como Nos os (Anacaona, tradução de Paula Anacaona), além de edições na Argentina e em Portugal.
Do conto ao fôlego de romance
Quem conhecia só Contos Negreiros pode esperar capítulos-estilhaço. Há herança: a fala, o sexo pago, o Nordeste como destino e origem, o humor que não consola. A diferença é o deslocamento. O palco paulistano — Largo do Arouche, farmácia, agência bancária — vira estrada e encargo fúnebre. O protagonista carrega fama, dinheiro em conta e um corpo que o país prefere não ver.
O enredo público é esse, e basta. O restante é o modo. Freire não escreve o romance “de estreia” como prova de que o contista amadureceu. Escreve um livro de ossos: o que resta quando a linguagem tira a carne do eufemismo. A viagem para o Nordeste não é volta romântica à terra. É transporte de um morto que o teatro, o banco e a família terão de acomodar.
Para quem este romance existe
Existe para o leitor que já aguenta o conto de Freire e quer saber o que acontece quando a mesma voz ocupa 200 e poucas páginas de estrada. Existe para quem procura ficção brasileira contemporânea sobre homossexualidade, trabalho sexual masculino e o abismo de classe entre o artista premiado e o michê. Não existe para quem quer um thriller de estrada com reviravolta a cada posto.
Também não substitui os contos. Quem nunca leu Freire e entra por Nossos ossos pode achar a prosa “errada” — frases que se atropelam, repetição, oralidade. Isso não é descuido de editoração. É o método. Se a orelha pedir norma culta o tempo todo, o livro vai parecer hostil. Se a orelha aceitar a conversa, o hostil vira precisão.
Prêmio, tradução e lugar na obra
O Machado de Assis da Biblioteca Nacional, em 2014, deslocou Freire no mapa: de “melhor contista daquela safra” para romancista premiado. A final do Jabuti no mesmo ano confirma que o mercado passou a tratar o volume como obra central, não como desvio. A tradução francesa e as edições hispânicas e portuguesa ampliaram o alcance sem mudar o chão: São Paulo, Pernambuco, um corpo no porta-malas da linguagem.
Na cronologia, Nossos ossos fica entre os contos da Edith — Rasif, Amar é crime — e o intervalo longo até Escalavra, em 2024. Quem lê os dois romances em sequência vê a obsessão óssea continuar: do esqueleto da viagem ao monumento de pedra do segundo livro. Este, o de 2013, é o primeiro movimento. É o romance para quem quer o Freire da Record no fôlego longo, com o prêmio da Biblioteca Nacional no lombo e a estrada no meio.




