Imagem de capa do perfil de Marcelino Freire
Foto de perfil de Marcelino Freire

Marcelino Freire

Marcelino Juvêncio Freire

Nascimento: 1967 São Paulo, SP
Contista pernambucano radicado em São Paulo, venceu o Jabuti com Contos Negreiros e o Machado de Assis com o romance Nossos ossos.

Ainda menino, Marcelino Freire pediu à mãe que saísse de Sertânia. Dizia que, se continuasse no sertão de Pernambuco, morreria. A família foi para Paulo Afonso, na Bahia, e depois para o Recife. Em 1991, o filho mais novo de nove irmãos chegou a São Paulo com textos na gaveta e sem editora à espera.

Quem busca o nome hoje raramente chega pela peça de 1981. Chega pelo conto que parece falado em voz alta, pelo Jabuti de Contos Negreiros, pelo primeiro romance Nossos ossos e, agora, por Escalavra, o livro que ele chama de romance megalítico. Entre um título e outro, Freire virou editor de selo próprio, criador da Balada Literária e professor de oficinas de escrita criativa.

Quem é Marcelino Freire

Marcelino Juvêncio Freire nasceu em 20 de março de 1967, em Sertânia, no sertão de Pernambuco. É escritor, editor e um dos nomes mais reconhecíveis da prosa brasileira contemporânea — sobretudo do conto. A marca que o leitor identifica de imediato não é um tema único. É o ritmo: a frase curta, a oralidade que fura a norma culta, o humor ácido e a primeira pessoa de quem fala de dentro da cena, não de uma cadeira de observador.

A Enciclopédia Itaú Cultural descreve essa prosa como articulação de violência contemporânea, lirismo e ironia, com um veio teatral herdado da fala. O crítico Bruno Zeni apontou o ritmo “da conversa, com suas repetições e construções que infringem a norma culta”. Homossexualidade, marginalização, masculinidades e o Brasil que vende o corpo, a droga ou o órgão para continuar de pé atravessam os livros sem virar cartilha.

Quem chega pela literatura escolar ou pela livraria costuma ter a mesma dúvida: por onde começar. A resposta curta é o conto. A resposta completa inclui o editor que publicou os outros, o evento que mistura livro e palco e o romancista que demorou a aparecer.

De Sertânia ao Recife, e a mudança para São Paulo

A primeira lembrança literária, segundo o próprio Freire, é um poema de Manuel Bandeira, aos nove anos. A família deixou Sertânia em 1969, passou seis anos em Paulo Afonso e, em 1975, fixou-se no Recife. Ali ele encontrou teatro, leitura de poesia e o grupo Poetas Humanos, com Adrienne Myrtes, Denis Maerlant, Jobalo, Pedro Paulo Rodrigues e Regi So Ares. Em 1981 estreou no palco com O Reino dos Palhaços.

Na década de 1980 trabalhou como bancário e começou o curso de Letras na Universidade Católica de Pernambuco, sem concluí-lo. Em 1989 frequentou a oficina literária de Raimundo Carrero. Dois anos depois, já premiado pelo governo de Pernambuco, embarcou para São Paulo. O Recife perdeu um gerente de banco em potencial; a cidade grande ganhou um autor que iria se autopublicar até alguém topá-lo.

A primeira lembrança de São Paulo, no depoimento ao Itaú Cultural, é trabalho e gaveta. “Chegando aqui, só fiz trabalhar… E aqueles textos olhando para mim nas gavetas. Então, comecei eu mesmo a publicar os livros.” Em 1995 saiu AcRústico, de forma independente. Em 1998, EraOdito. A oralidade que depois viraria assinatura já dava sinais; Freire diz que ela se tornou mais presente porque ele estava longe da origem.

  • 1967: nascimento em Sertânia, Pernambuco; 1969–1975 em Paulo Afonso, Bahia; Recife a partir de 1975.
  • 1981: estreia teatral com O Reino dos Palhaços; 1989: oficina de Raimundo Carrero.
  • 1991: mudança para São Paulo; 1995 e 1998: primeiros livros independentes.
  • 2000: Angu de Sangue, com prefácio de João Alexandre Barbosa, pela Ateliê Editorial.
  • 2005–2006: Contos Negreiros (Record) e Prêmio Jabuti de contos.
  • 2013–2014: romance Nossos ossos e Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional.
  • 2024: Escalavra, segundo romance, pelo selo Amarcord.

Como o conto o tornou conhecido

O mercado editorial brasileiro trata romance como prova de escritor e conto como exercício. Freire fez o contrário. Depois dos volumes independentes, Plínio Martins, da Ateliê Editorial, publicou Angu de Sangue (2000) e BaléRalé (2003). O primeiro veio com a leitura atenta de João Alexandre Barbosa, que Freire reconhece como porta de entrada da prosa que viria. O segundo reúne dezoito contos sobre personagens gays; a capa traz as múmias de Weerdinge, o casal que o autor chamou de “o casal gay mais antigo” da Holanda.

Em 2005 a Record lançou Contos Negreiros: dezesseis narrativas de brasileiros miseráveis que vendem o que tiverem para sobreviver. Há prostituição, tráfico de órgãos, preconceito racial, turismo sexual, analfabetismo — vistos de dentro. O livro dialoga com Cruz e Sousa, Jorge de Lima e Lima Barreto. Em 2006 levou o primeiro lugar do Jabuti na categoria contos. Houve audiolivro gravado pelo próprio autor.

Antes do prêmio, Freire já organizava a cena. Em 2002 inaugurou o selo EraOdito EditOra e a Coleção 5 Minutinhos, de narrativas curtas inéditas — a provocação nasceu da frase “não leio porque não tenho tempo”. No mesmo período editou, com Glauco Mattoso e João Gilberto Noll no catálogo inicial, e ajudou a revista PS:SP, de prosa paulistana. Em 2004 organizou a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Também entrou em Geração 90 (Boitempo, 2001) e Os Transgressores (2003), e Heloísa Teixeira o escolheu para a antologia digital Enter.

Romances, oficinas e a Balada Literária

O primeiro romance chegou só em 2013. Nossos ossos, pela Record, acompanha um dramaturgo que leva o corpo de um garoto de programa de São Paulo a Pernambuco. Freire chamava o livro de romance arqueológico. Em 2014 a obra ganhou o Prêmio Machado de Assis de melhor romance da Fundação Biblioteca Nacional, foi finalista do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura, e saiu na França como Nos os, pela Anacaona, além de edições na Argentina e em Portugal.

Dez anos depois veio Escalavra (Amarcord, 2024). O título sai do verbo escalavrar: esfolar, friccionar, deixar em carne viva. É a história de um pai, um filho e o silêncio entre eles — silêncio que o autor ligou ao pai, que tinha quase sessenta anos quando o filho nasceu. Perto de Sertânia fica o Vale do Catimbau, com monumentos megalíticos; daí a ideia de romance “pedra sobre pedra”, sem a convenção cômoda de capítulos. O livro foi indicado ao Jabuti.

Fora da página, Freire construiu circulação. Desde 2006 organiza em São Paulo a Balada Literária, encontro de literatura, música e artes, com edições também em Salvador (a partir de 2015) e Teresina (a partir de 2017). Coordena oficinas de criação literária desde 2003; em 2021 o jornal Rascunho registrou uma oficina focada em autoficção. Entre 2002 e 2010 manteve o blog EraOdito; a partir de 2011 escreve em Ossos do Ofídio. Em 2018 publicou o volume de ensaios Bagageiro, pela José Olympio, que em 2021 também lançou a Seleta: Por pior que pareça, treze textos escolhidos pelo autor — entre eles “Muribeca”, “Homo erectus”, “Trabalhadores do Brasil” e “Da paz”.

Que livros ler primeiro

Quem quer o Freire do prêmio começa por Contos Negreiros. São 126 páginas na edição da Record ainda em circulação: dá para ler em uma tarde e não dá para esquecer o tom. Quem quer o estouro da Ateliê vai a Angu de Sangue, o livro que o tirou da autoedição. Quem quer o romancista tem dois destinos distintos: Nossos ossos para a viagem fúnebre entre São Paulo e o Nordeste; Escalavra para o pai, o filho e a pedra da linguagem.

Há ainda Rasif – Mar que Arrebenta (2008) e Amar é crime (2010), ambos pela Editora Edith, relançados depois; e o trabalho de editor, que não cabe em lombada de autor. A Coleção 5 Minutinhos e a antologia dos cem menores contos mostram o outro ofício: colocar o conto brasileiro em circulação quando o mercado preferia o volume grosso.

Contos Negreiros saiu em espanhol na Argentina e no México. Há presença em antologias francesas da Anacaona, como Je suis favela. Muitos textos foram adaptados para teatro. Isso não transforma Freire em autor “internacional” de catálogo; mostra que a fala que ele afiou em São Paulo, longe de Sertânia, viaja melhor do que a prosa lisa que o mercado às vezes pede.

Por que Marcelino Freire continua sendo procurado

A busca mistura vestibular tardio, indicação de livraria, Flip, Entrelinhas da TV Cultura e o hábito de quem lê conto em voz alta. Freire não suaviza o Brasil que descreve e não trata a língua como ornamento. A autoridade pública dele está nesse ponto: um contista que recusou esperar a grande editora, depois a ocupou, e no intervalo inventou selo, antologia, oficina e festa literária para os outros também caberem.

Quem chega agora encontra um autor ainda em trânsito. Mora em São Paulo desde 1991. Continua dando oficina, lançando livro e frequentando palco. Sertânia, Recife e a capital paulista entram na frase; o que o leitor reconhece é a voz, quando a prosa deixa de parecer escrita e passa a parecer dita.

O que você acha desta Autoridade?

Qual foi a sua experiência com Marcelino Freire? Os conteúdos, métodos ou serviços realmente entregam valor? Deixe sua avaliação sincera para ajudar quem vem depois.

Projetos de Marcelino Freire

Contos Negreiros
Contos Negreiros
Coletânea de 16 contos da Record que levou o Jabuti em 2006, com falas da margem brasileira em prosa oral e irônica.
00%
00%
Nossos ossos
Nossos ossos
Primeiro romance de Marcelino Freire: um dramaturgo leva o corpo de um garoto de programa de São Paulo a Pernambuco.
00%
00%
Escalavra
Escalavra
Segundo romance de Freire, pelo selo Amarcord: um pai, um filho e o silêncio entre eles, em prosa que ele chama de megalítica.
00%
00%
Angu de Sangue
Angu de Sangue
Livro de contos de 2000, pela Ateliê Editorial, que tirou Freire da autoedição e abriu caminho até o Jabuti.
00%
00%