Explode um Novo Brasil é o diário de Ricardo Kotscho sobre a campanha das Diretas Já, escrito quente. A Brasiliense o publicou em 1984, com 151 páginas, poucas semanas depois de a Câmara rejeitar a emenda Dante de Oliveira na madrugada de 25 para 26 de abril. Não é memória de velhice. É a cobertura ainda com o pó da praça, reunida enquanto o desfecho do Colégio Eleitoral nem tinha acontecido.
Ulysses Guimarães assinou o prefácio da primeira edição e fez o batismo que ficou: Osmar Santos seria o locutor das Diretas, Fafá de Belém a cantora, Kotscho o cronista. A frase não é marketing de reedição. Está no livro de 1984. O convite de Ulysses era ler para ver que, mais uma vez, o povo tinha razão. Kotscho, na apresentação que a edição do Senado recupera, empurra o heroísmo para o mesmo lado: se há herói na travessia, é o anônimo, a mulher moça ou velha, a criança.
O que as reportagens cobrem, do Pacaembu a Brasília
O material é o que ele publicou na Folha de S.Paulo ao longo de quase cinco meses. A abertura não é o comício gigante que a memória coletiva prefere. É o ato de 27 de novembro de 1983, em frente ao Pacaembu, em São Paulo. Kotscho o descreveu como uma confraternização suprapartidária que acabou em festa-comício do PT, com público modesto. O livro só fica inteligível se esse começo desajeitado permanecer no lugar. A campanha não nasceu pronta.
Dali em diante, o diário acompanha a subida. Os títulos internos da edição original dão o roteiro: os obstáculos do começo, o grande comício de São Paulo, a “resseca cívica”, a caravana, o comício de Minas, a apoteose do Rio, a grande passeata de São Paulo e a decisão em Brasília. Entram Ulysses, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Lula e o público que encheu praça sem garantir voto no Congresso. A emenda não passou. O livro não conserta isso. Para na pergunta que o último capítulo carrega no título: e agora?
Esse corte é o valor histórico do volume. Outros relatos das Diretas foram escritos depois da posse de Tancredo, da morte de Tancredo, da Constituição de 1988. Explode um novo Brasil foi impresso quando ainda não se sabia o tamanho da derrota. Ler a edição de 1984, ou a reedição que a preserva, é ler o repórter sem o privilégio do desfecho.
A reedição do Senado em 2025
Fora de catálogo por cerca de quarenta anos, o livro voltou em 2025 pelas Edições do Senado Federal, volume 340 da casa, na coleção História da ditadura: do golpe à redemocratização. A Folha deu a notícia em 17 de março de 2025, véspera do lançamento no plenário, às 10h do dia 18. A ficha da livraria oficial traz 295 páginas ilustradas, fotografias das manifestações, o texto da emenda Dante de Oliveira com as assinaturas e a lista de quem votou a favor e de quem votou contra. O ISBN dessa edição é 9786556766027.
A reedição não se limita a reproduzir 1984. Traz prefácios de Oscar Pilagallo e Eduardo Suplicy junto ao texto de Ulysses, posfácio de Fernando Mitre, depoimento de Pedro Simon, cronologia e uma nota autobiográfica. O Senado também liberou o PDF na Biblioteca Digital e anunciou distribuição impressa a escolas, bibliotecas e outras instituições públicas. A capa nova, com a fotografia de comício e a tarja “Diário da campanha das Diretas”, é desta edição, não da brochura da Brasiliense.
Mitre, no posfácio, usa a reedição para falar de vigilância democrática, não de nostalgia. O rastro de quem perdeu as Diretas naquela madrugada, escreve ele, continuou legível. O livro de Kotscho funciona, nessa chave, como ata de rua: comícios, passeatas, articulações e o placar que faltou no Congresso.
Como este diário conversa com o resto da obra
Não misture este volume com Do golpe ao Planalto. O de 2006 olha para trás e cobre a vida inteira de repórter, do golpe ao cargo de secretário. Explode um novo Brasil olha para a frente, semana a semana, e para no fracasso da emenda. Os dois se citam. Nas memórias, Kotscho dedica um capítulo às Diretas e reconta um telefonema de Ulysses, dias depois da votação, sobre o arranjo de Tancredo com dissidentes do PDS. Esse telefonema não está no diário de 1984 porque ainda não cabia nele. Está na memória de 2006. Ler os dois é ver a mesma campanha em duas temperaturas.
Também não é manual de reportagem. A prática da reportagem e A aventura da reportagem, este com Gilberto Dimenstein, ensinam ofício. Aqui o ofício aparece feito: a ida ao comício, a conta do público, o nome de quem falou, o cansaço da caravana. Quem estuda redação encontra um exemplo datado de como uma cobertura política longa vira livro sem esperar a comissão da verdade nem o aniversário de quarenta anos. O aniversário, no caso, veio depois. A primeira edição não esperou por ele.
O caminho de leitura, hoje, é a edição do Senado. A Brasiliense de 1984 segue sendo a peça histórica, encontrada sobretudo em sebo. A de 2025 é o texto disponível, com aparato, foto e a lista de votos que o leitor de agora usa para checar a madrugada de abril. O autor é o mesmo repórter que, na Folha, escreveu a campanha enquanto ela acontecia.


