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Ricardo Kotscho

Nascimento: 1948 São Paulo, SP
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Paulistano, repórter desde os jornais de bairro. Quatro Esso, secretário de Imprensa da Presidência em 2003 e 2004, autor de Do golpe ao Planalto.

Em 1976, a série Mordomias d'O Estado de S. Paulo descreveu gastos, compras e hábitos de políticos e altos funcionários do regime militar. Quem assinou aquelas reportagens foi Ricardo Kotscho, repórter que tinha entrado no jornal em 1967 e só sairia dali no ano seguinte.

Quem chega ao nome hoje costuma cruzar quatro portas: o cronista das Diretas Já na Folha de S.Paulo, o secretário de Imprensa do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o autor de Do golpe ao Planalto e o colunista do Balaio do Kotscho. Por baixo dos cargos está o mesmo ofício. Ele entrou em redação de bairro num tempo em que, como lembraria depois, não se esperava diploma para começar a reportar.

De onde veio o repórter

Ricardo Kotscho nasceu em São Paulo em 16 de março de 1948, filho de Nikolaus Kotscho e de Elisabeth Kotscho. Numa coluna de fevereiro de 2022, ele mesmo situou as duas famílias no mapa da guerra: a paterna, de origem russa, perseguida pelos comunistas e refugiada na Romênia, onde o pai nasceu; a materna, dos Rebholz-Heinz, perseguida pelos nazistas na Alemanha e vinda para o Brasil, onde ele nasceu.

O alemão foi a primeira língua em casa. O português chegou por volta dos sete anos. Na entrevista reunida em Nas Asas do Destino, de 1995, ele disse que escrevia com mais facilidade do que falava, e ligou o interesse pelo jornalismo a um avô repórter morto na Segunda Guerra. São relatos dele, não uma explicação única da profissão. Servem para entender por que a escrita apareceu cedo, como jeito de se fazer entender.

Antes da grande imprensa houve banca de jornal, o Verbômidas do Colégio Santa Cruz e dois títulos de bairro: alguns meses na Folha Santamarense e, em seguida, a Gazeta de Santo Amaro. A nota biográfica da Companhia das Letras marca 1967 como o ano em que o trabalho ganhou escala n'O Estado de S. Paulo. Um perfil publicado em 1998, quando ele dirigia o jornalismo da TV Bandeirantes e do Canal 21, acrescenta que chegou a cursar Rádio e TV na Escola de Comunicações e Artes da USP, Ciências Sociais na mesma universidade e Economia no Mackenzie, sem concluir nenhum dos três cursos.

Dez anos no Estadão e a série que o projetou

Entre 1967 e 1977, Kotscho foi repórter, chefe de reportagem e editor do Estadão. As memórias recontam, desse período, a cobertura no Ceará do desastre aéreo que matou o ex-presidente Castello Branco, em 1967, e a série de 1976 sobre as mordomias de Brasília. O verbete do CPDOC, da Fundação Getulio Vargas, registra também a cobertura da morte do operário Manuel Fiel Filho.

Em 1977 ele deixou o Estadão para ser correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, por cerca de um ano. A volta, já no ciclo da redemocratização, passou pela revista IstoÉ, a convite de Mino Carta. Veio depois uma fase forte na Folha de S.Paulo, sobretudo na campanha das Diretas, e nova passagem pelo Jornal do Brasil.

No início dos anos 1980, ainda como correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha Ocidental, Kotscho foi condenado pelo II Tribunal de Alçada do Rio de Janeiro a um ano e quatro meses de prisão, com sursis, por calúnia contra um magistrado. A ação nasceu de uma entrevista em que um juiz aparecia como amigo influente do pai de um traficante. Ele comprovou que a citação reproduzia declaração do entrevistado ao jornal suíço Neue Zürcher Zeitung. A condenação, proposta pelo próprio magistrado, foi mantida. O caso está em Juarez Bahia, no livro Jornal, História e Técnica.

O perfil de 1998 ainda aponta uma atuação de categoria que quase não aparece quando o assunto é só política: diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa.

Diretas, campanhas e os dois anos no Planalto

Em 1984, poucas semanas depois da rejeição da emenda Dante de Oliveira, a Brasiliense publicou Explode um novo Brasil, diário das reportagens que Kotscho fez para a Folha ao longo da campanha das Diretas. O prefácio da primeira edição coube a Ulysses Guimarães, que o chamou de cronista das Diretas. O volume parte do ato de 27 de novembro de 1983, em frente ao Pacaembu, descrito por ele como uma confraternização que virou comício modesto do PT, e segue até a madrugada da votação em Brasília.

A convivência com Lula vinha das greves do ABC. A edição da Companhia das Letras de Do golpe ao Planalto registra que Kotscho foi assessor de imprensa em três das quatro campanhas presidenciais do então candidato, acompanhou as Caravanas da Cidadania e, depois da vitória de 2002, ficou dois anos na Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência. No intervalo, dirigiu o jornalismo da Rede CNT e, em São Paulo, o da TV Bandeirantes e do Canal 21.

O decreto de 1º de janeiro de 2003 criou o cargo sob a Casa Civil de José Dirceu. Em 5 de julho de 2004, outro decreto o admitiu na Ordem do Mérito Militar no grau de Grande-Oficial. A exoneração saiu em 30 de novembro de 2004, com a nomeação de Fábio José Kerche Nunes no lugar. Dentro do governo, Kotscho defendeu que o correspondente do New York Times, Larry Rohter, permanecesse no Brasil depois de uma reportagem que desagradou ao Planalto. O CPDOC anota que a cassação do visto derrubou essa posição, que ele pediu demissão e que o pedido não foi aceito de imediato. Na entrevista dada quando a saída enfim ocorreu, falou em saudade da família e no plano de escrever sobre quarenta anos de redação, não um balanço do governo.

Livros que mostram o método, não o catálogo

Os livros ajudam a ver como ele trabalha. Não substituem a rua. A prática da reportagem, da Ática, é o volume curto em que responde dúvidas de quem está entrando no ofício: pauta, apuração, entrevista e o limite entre opinião e o que foi visto. A aventura da reportagem, escrita com Gilberto Dimenstein e lançada pela Summus em 1990, separa duas coberturas que ele trata como ofícios diferentes, a do poder e a das questões sociais. Serra Pelada: uma ferida aberta na selva, da Brasiliense, também de 1984, sai do garimpo quando o lugar ainda era ferida aberta, não metáfora. Em 1986, Essa escola chamada vida reuniu Kotscho, Paulo Freire e Frei Betto numa conversa sobre educação que não cabe na prateleira de memórias políticas.

A bibliografia assinada por ele é maior do que esses quatro títulos. Os que melhor orientam a leitura, com editora e ano verificáveis, são estes:

  • A greve no ABC, de 1980, e O massacre dos posseiros, Brasiliense, 1981
  • Serra Pelada e Explode um novo Brasil, os dois de 1984
  • A prática da reportagem, na Ática, e A aventura da reportagem, com Dimenstein, em 1990
  • Do golpe ao Planalto: uma vida de repórter, Companhia das Letras, 2006

Do golpe ao Planalto percorre o Ceará de 1967, Brasília de 1976, as Diretas de 1984 e os dois anos dentro da comunicação do Planalto. A Folha registrou, em 14 de agosto de 2006, a estreia do livro na lista de não ficção. Kotscho levou cerca de um ano para escrever, de dezembro de 2004 a dezembro de 2005, e acrescentou um posfácio sobre a crise política de 2005. Em outubro daquele ano de lançamento, um e-mail falso circulou como se o volume provasse que Lula conhecia o mensalão. O Congresso em Foco desmentiu a corrente. O livro é memória de repórter, com um posfácio sobre a crise, não a “bomba” que o e-mail anunciava.

Há também livro sobre ele, e convém não misturar a autoria. Em 12 de outubro de 2024, o UOL noticiou Ricardo Kotscho, um contador de histórias, de Lira Neto, primeiro volume da série Memória do Jornalismo Brasileiro Contemporâneo. Meses antes, em 18 de março de 2024, Kotscho deu a aula magna “O Jornalismo pelo Olhar de Três Gerações” na ECA-USP, ao lado da filha Mariana Kotscho e da neta Laura Kotscho.

Onde a coluna continua

Em julho de 2007 ele foi um dos fundadores da revista Brasileiros. O nome Balaio do Kotscho, usado por ele desde 2008, passou a identificar a coluna no UOL Notícias em 2 de março de 2020. Na estreia, a nota do próprio UOL lembrou os quatro Prêmios Esso e o troféu especial de direitos humanos da ONU, de 2008, concedido a cinco jornalistas brasileiros. O CPDOC acrescenta dois Prêmios Vladimir Herzog e um Prêmio Cláudio Abramo.

É casado com a socióloga Mara Kotscho. As filhas seguiram ofícios vizinhos: Mariana no jornalismo, Carolina no cinema. Em entrevista ao Jornal da Unesp, em maio de 2024, no ano em que ele contava sessenta anos de profissão, Kotscho condensou o critério que atravessa Estadão, Folha, Planalto e coluna: o jornalista tem lado, mas não pode brigar com os fatos. Reportagem, disse ali, continua sendo ir ao lugar, ouvir quem viu e publicar o relato mais próximo do que aconteceu, mesmo quando não se é o primeiro a publicar.

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Explode um Novo Brasil
Explode um Novo Brasil
Diário das Diretas Já publicado em 1984 pela Brasiliense e reeditado pelo Senado em 2025, com as reportagens da Folha.
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