Nove contos, nove mergulhos no medo. Gótico nordestino é o livro que mudou a posição de Cristhiano Aguiar na literatura brasileira: publicado pela Alfaguara em 2022, recebeu o Prêmio Clarice Lispector, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional à melhor obra de contos do país, e colocou o autor no centro do debate sobre a nova ficção fantástica nacional.
O ponto de partida é "Anda-luz". Um menino é obrigado a cruzar o descampado perto de Riachão da Frente para levar uma carta que a mãe escreveu a Zé Barbatão, o cangaceiro local. Na madrugada, as sombras do caminho e a ameaça do bando crescem, e a realidade parece a ponto de se romper. O conto anuncia o que vem nos oito seguintes.
O que o livro faz com o gótico e o folclore
Aguiar parte de elementos góticos e folclóricos para construir narrativas que atravessam épocas. As histórias vão dos tempos do cangaço à ditadura militar e chegam a um futuro próximo, passando por referências da cultura pop, do cinema, das séries televisivas e dos quadrinhos. O resultado foge da prosa literária tradicional sem abandonar a pergunta política sobre o Brasil.
Na leitura do crítico Antonio Xerxenesky, o livro se insere na nova leva de narrativas de horror e reinventa medos atemporais. A aproximação com autoras como Mariana Enríquez e Samanta Schweblin aparece na busca de uma síntese entre a cultura pop anglófona e as particularidades sociopolíticas da América Latina.
O que o próprio autor diz sobre o livro
"Gótico nordestino é o divisor de águas da minha carreira e me permitiu abraçar plenamente a vertente na qual me vejo mais confortável: a literatura insólita. A partir do insólito, busco uma literatura imaginativa que perturbe, mas que também dê prazer narrativo ao leitor", afirmou Aguiar em texto para o Itaú Cultural.
O autor também já declarou que, apesar das influências estrangeiras, é a partir da América Latina que entende e pensa tudo o que escreve. Essa combinação — sotaque nordestino, repertório pop e consciência latino-americana — é o que dá identidade ao livro.
Para quem é Gótico nordestino
- Leitores de horror e literatura fantástica que procuram autores brasileiros;
- Quem gosta de contos com estrutura forte e final surpreendente;
- Pesquisadores e estudantes de literatura brasileira contemporânea;
- Leitores de autores como Mariana Enríquez, Samanta Schweblin e Antonio Xerxenesky.
O que faz o livro funcionar
Três escolhas explicam a força de Gótico nordestino. A primeira é o tempo: os contos não se limitam ao passado rural. O cangaço convive com os anos de chumbo e com um futuro próximo, o que transforma o livro em um passeio por diferentes temporalidades do país. A segunda é o repertório: o autor trata quadrinhos, séries e cinema como matéria-prima legítima, sem hierarquia entre alta e baixa cultura. A terceira é o ponto de vista: o medo não é decoração, e sim chave para ler o Brasil e suas violências.
Há ainda um conto escrito sob o impacto da pandemia de covid-19, que desloca o livro para o presente imediato. Amor, perigo e desalento aparecem nos mesmos textos, e o resultado valoriza e critica o país ao mesmo tempo — uma literatura que perturba e, ao mesmo tempo, dá prazer narrativo.
Ficha técnica
- Editora: Alfaguara, do Grupo Companhia das Letras;
- Lançamento: 2 de fevereiro de 2022;
- Páginas: 136;
- Formato: 15 x 23 cm;
- Capa: Kiko Farkas e Máquina estúdio;
- ISBN: 978-85-565-2135-4.
O livro está disponível na Amazon e em livrarias de todo o país.




