Um menino cruza o descampado perto do vilarejo de Riachão da Frente para entregar uma carta ao cangaceiro Zé Barbatão e, no meio do caminho, sente a realidade começar a se romper. A cena abre "Anda-luz", conto que inicia Gótico nordestino (2022), livro que firmou Cristhiano Aguiar entre os principais nomes da literatura fantástica brasileira e recebeu o Prêmio Clarice Lispector, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional à melhor obra de contos do país.
Nascido em Campina Grande, na Paraíba, em 1981, Aguiar é escritor, crítico literário e professor. Vive em São Paulo desde 2011 e hoje leciona na Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde também coordena o Programa de Pós-Graduação em Letras. Sua ficção combina horror, fantástico, ficção científica e folclore nordestino em uma vertente que ele mesmo chama de literatura insólita — a mesma que o levou, em 2012, à lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros da revista Granta.
Quem é Cristhiano Aguiar hoje
Na Mackenzie, Cristhiano Aguiar leciona literatura e pesquisa ficção latino-americana contemporânea e literatura de gênero, com atenção ao horror, à ficção científica e à fantasia. A coordenação do Programa de Pós-Graduação em Letras o colocou no centro da formação de novos pesquisadores, depois de anos como professor e orientador na mesma instituição.
Antes da docência, o caminho foi pouco linear: começou o curso de Direito, abandonou a carreira jurídica e migrou para as Letras. É graduado e mestre em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 2012, fez pesquisa como visitante na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos — no mesmo ano em que entrou na lista da Granta.
De Campina Grande para a literatura brasileira
Filho de pais religiosos, Aguiar cresceu entre narrativas bíblicas e uma rotina em que o sobrenatural e o milagroso faziam parte do cotidiano — matéria que mais tarde reapareceria em seus contos. Na adolescência, passou pelos quadrinhos de super-heróis e pelos selos adultos da Vertigo e da Heavy Metal, além de videogames e RPGs. A literatura chegou por Edgar Allan Poe, Augusto dos Anjos, Machado de Assis, Clarice Lispector, José Saramago, Gabriel García Márquez e Franz Kafka.
Em Recife, onde estudou, mergulhou na cena literária local: foi curador e coordenador do Festival Recifense de Literatura, editou revistas artesanais e o site Vacatussa, colaborou com as revistas Mariposa Cartonera e Eita e coorganizou a antologia de contos Tempo Bom, pela Editora Iluminuras. Em 2011, mudou-se para São Paulo, cidade onde vive e trabalha até hoje.
Granta 2012, prêmios e reconhecimento nacional
Em 2012, a revista Granta incluiu Aguiar na antologia Os melhores jovens escritores brasileiros, lista anunciada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A escolha tirou o autor de uma circulação independente e artesanal e o colocou no radar nacional.
Uma década depois, Gótico nordestino confirmou a projeção: o livro recebeu o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, e foi pauta de boa parte dos cadernos culturais do país. Seus contos também foram publicados no exterior, em veículos e antologias dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Argentina. Desde 2020, sua obra é representada pela agência literária MTS.
O que define a literatura insólita de Cristhiano Aguiar
A obra de Aguiar se organiza em torno do que ele chama de literatura insólita: histórias em que o estranho irrompe no cotidiano, sem abandonar o chão brasileiro. Em Gótico nordestino, essa escolha aparece em nove contos que atravessam o tempo do cangaço, os anos da ditadura militar e um futuro próximo sombrio, misturando folclore, cultura pop e medo.
O crítico Antonio Xerxenesky aproximou o livro da produção de Mariana Enríquez e Samanta Schweblin, na busca de uma síntese entre a cultura pop anglófona e as questões sociopolíticas da América Latina. O próprio autor resume a virada: "Gótico nordestino é o divisor de águas da minha carreira e me permitiu abraçar plenamente a vertente na qual me vejo mais confortável: a literatura insólita. A partir do insólito, busco uma literatura imaginativa que perturbe, mas que também dê prazer narrativo ao leitor."
A Quimera: o primeiro romance
Depois de sete livros de contos, ensaios e narrativas curtas, Cristhiano Aguiar lança em novembro de 2026 A Quimera, seu primeiro romance. A história se passa em um território contaminado no interior da Paraíba, onde fungos com formas humanas, casebres abandonados e animais deformados embaralham a percepção de quem entra. A capa é assinada por Kiko Farkas, o mesmo designer de Gótico nordestino, e a pré-venda está aberta no site da Companhia das Letras e em livrarias.
Livros e projetos de Cristhiano Aguiar
- Ao lado do muro (2006) — primeiro livro de contos;
- Os justos (2010) — folheto de narrativas em edição artesanal;
- Recortes de Hannah (2014);
- Narrativas e espaços ficcionais: uma introdução (2017) — ensaio derivado do doutorado, publicado pela Editora Mackenzie;
- Na outra margem, o Leviatã (2018) — contos que se cruzam entre o cotidiano e o insólito, pela Lote 42;
- Trilogia da Febre (2020);
- Gótico nordestino (2022) — vencedor do Prêmio Clarice Lispector;
- Linguagem Guilhotina — newsletter com crônicas e ensaios sobre literatura, cinema e artes.
As páginas abaixo aprofundam os principais títulos do autor, do livro de contos premiado pela Biblioteca Nacional ao romance que chega às livrarias em 2026.
Por que Cristhiano Aguiar importa para a literatura contemporânea
A trajetória de Aguiar ajuda a entender um movimento maior da ficção brasileira recente: a incorporação do horror, do fantástico e da ficção científica por autores que recusam tratá-los como gênero menor. Ao lado de outros contistas brasileiros contemporâneos, como João Anzanello Carrascoza, ele construiu uma obra que circula entre a universidade, a crítica e o público leitor.
Contista de formação, crítico e professor, Aguiar ocupa hoje uma posição rara — a de quem escreve, pesquisa e ensina a literatura insólita ao mesmo tempo. Com A Quimera, testa pela primeira vez a forma longa, levando o leitor a um território onde memória, ciência e medo se confundem. Quem quer acompanhar de perto o que se produz de mais inventivo no fantástico brasileiro encontra em literatura uma boa porta de entrada.





