Hai-kais reúne os três versos que Millôr Fernandes escreveu entre 1959 e 1986, quase sempre acompanhados de uma ilustração do próprio autor. O livro da L&PM não é manual de forma japonesa. É o diário comprimido de um humorista brasileiro que pegou o haicai, acrescentou rima quando quis e empurrou o gênero para o ônibus, a chuva e o cotidiano carioca.
O haicai clássico, popularizado no século XVII com Bashô, tem três versos sem rima. Millôr recriou a medida no português falado: “olha, / entre um ping-o e outro / a chuva não molha”. A imagem ao lado do poema, segundo o método que ele reivindicava do Japão, traduz ou interpreta o texto. No pocket, texto e desenho ocupam o mesmo palco. Sem a gravura, o livro perderia metade da graça.
O que o volume entrega
São 128 páginas na edição de bolso de 1997, herdeira do volume Senzala de 1968. A leitura é rápida e irregular: um hai-kai cabe num fôlego, o seguinte pede que o olho desça até o traço. Não há enredo. Há série. O prazer está na variação — natureza, cidade, sexo, política, bobagem elevada a precisão — e no fato de o mesmo homem que fazia charge de jornal caber em dezessete sílabas sem pedir licença à tradição oriental.
Quem chega pelos aforismos do Vermelho encontra aqui outro músculo: o da elipse. O aforismo explica invertendo. O hai-kai omite. Millôr usa os dois, mas neste livro a omissão ganha desenho. Por isso o volume interessa tanto ao leitor de poesia quanto a quem só quer o humorista em dose mínima.
- Poemas curtos criados entre 1959 e 1986.
- Ilustrações do autor, parte da proposta, não vinheta decorativa.
- Adaptação brasileira do haicai, com rima e assunto do dia a dia.
- Edição L&PM Pocket, formato de entrada para a poesia de Millôr.
Para quem ler — e para quem não ler
Indicado a quem gosta de poesia breve, de humor gráfico e de livros que se abrem em qualquer página. Indicado também a professores e leitores que querem um Millôr diferente da citação de WhatsApp. Não é antologia completa da obra, não substitui as peças e não ensina a “escrever haicai em dez lições”. O limite é honesto: uma fatia de quase trinta anos de três versos, escolhida para caber no bolso.
A edição em papel permanece a melhor porta, porque o desenho pede página. Há e-book para quem prefere arquivo. Em qualquer formato, Hai-kais é o livro em que Millôr prova que a frase curta dele não nasceu só no aforismo de coluna: nasceu também no poema mínimo, com tinta e tesoura.




