Tempo e Contratempo é o primeiro livro de Millôr Fernandes no formato que ele depois passaria a vida recusando classificar. Publicado em 1949 sob o nome Emmanuel Vão Gogo, reúne poemas, contos, crônicas, sátiras, pastiches e piadas visuais dos anos de “Pif Paf” em O Cruzeiro. A reimpressão da Companhia das Letras devolve esse começo com apresentação de Luis Fernando Verissimo.
O jovem que assina o volume ainda não era o colunista de Veja nem o fiador do Pasquim. Era o humorista precoce da revista de maior tiragem do país, capaz de mudar de estilo no mesmo caderno e de se declarar, com orgulho, “autor sem estilo”. A seleção, feita pelo próprio Millôr, mostra o laboratório: quadrinho, verso, fábula e pastiche convivendo como se fossem o mesmo ofício — porque, para ele, eram.
Por que este livro importa na trajetória
Quem só conhece o aforismo maduro encontra aqui o traço e a prosa ainda em ebulição. Verissimo, na apresentação, descreve um Millôr que andava “ipanemamente” entre as coisas do mundo, “amando tudo e acreditando em nada”. A frase ajuda a ler o volume: não há conversão ideológica a testemunhar, há um humorista já formado no ceticismo, décadas antes de virar citação nacional.
A edição atual, em formato amplo, trata o livro como objeto visual tanto quanto literário. Poemas e charges pedem página. Por isso a reimpressão da Companhia das Letras é a porta mais fiel: recupera o primeiro livro sem transformá-lo em pocket de frases. Quem quiser só a máxima vai ao Vermelho. Quem quiser o Vão Gogo inteiro vem para cá.
- Primeiro livro, originalmente de 1949, assinado Emmanuel Vão Gogo.
- Material oriundo da seção “Pif Paf” em O Cruzeiro.
- Mistura de poema, conto, crônica, sátira e piada visual.
- Edição Companhia das Letras, com apresentação de Luis Fernando Verissimo.
Para quem ler
Indicado a quem quer entender de onde veio o Millôr público, não só o arquivo de frases. Indicado ao leitor de humor gráfico e de imprensa brasileira dos anos 1940 e 1950. Menos indicado a quem busca o aforismo isolado para citar: este livro pede tempo, olho no desenho e paciência com um autor que ainda experimentava formas. O título, aliás, avisa: tempo e contratempo, avanço e recuo, o mesmo homem em mais de um ritmo.
Há edição à venda em livraria e em lojas online, com a capa azul da Companhia das Letras e o desenho de dois personagens — o adulto de cartola e o menino — que já anunciam o traço inconfundível. Tempo e Contratempo não é o Millôr mais citado. É o Millôr que ainda cabia em uma revista semanal e já não cabia em um único gênero.




