O tabelião escreveu Milton com a letra torta e o menino do Méier virou Millôr. O circunflexo nasceu de um traço incompleto no registro civil, e o nome — aceito na hora pela família — virou assinatura de desenhista, humorista, dramaturgo, tradutor e jornalista. Quem chega até ele quase sempre traz uma frase curta na cabeça, um hai-kai de três versos ou a pergunta simples: quem era o homem por trás da tirada que ainda circula no Brasil?
Nascido no Rio de Janeiro em 1923 e morto em Ipanema em 2012, Millôr Fernandes passou mais de setenta anos na imprensa. Dizia-se jornalista. O país o leu como cartunista de O Cruzeiro, colunista de Veja, força de O Pasquim e autor de peças como Liberdade, Liberdade. A pergunta que sobra é outra: como um órfão do subúrbio virou o humorista que governos e redações não conseguiam domesticar?
Quem foi Millôr Fernandes
O nome de batismo era Milton Viola Fernandes, filho do espanhol Francisco Fernandes e de Maria Viola Fernandes. Nasceu em 16 de agosto de 1923 no Méier; o registro só veio quase um ano depois, em 27 de maio de 1924, o que explica a confusão de datas que ainda aparece em fichas antigas. O pai, dono de casa de fotografia, morreu cedo. A mãe, costureira, morreu de câncer quando o menino tinha onze anos. Os irmãos se separaram. Millôr foi viver com a avó num quarto no fundo do quintal, na Pavuna — trecho que ele mesmo chamou de dickensiano.
A escola pública Enes de Sousa, no Méier, ficou para sempre como “Universidade do Meyer”. A professora Isabel Mendes, dizia, ensinou o único ofício durável: gostar de estudar. O resto veio sozinho. Copiava quadro a quadro as tiras de Flash Gordon, mandou um desenho para O Jornal e recebeu dez mil réis. Aos quinze anos entrou em O Cruzeiro como contínuo, factótum e tradutor de quadrinhos em inglês, idioma que aprendeu no dicionário. Entre 1938 e 1942 frequentou o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Aos dezessete, ao pedir a certidão, descobriu o Millôr no papel e abandonou o Milton sem cerimônia.
Do Cruzeiro ao Pif-Paf: o humor que virou ofício
Na revista A Cigarra, um caderno atrasado virou coluna. Frases, versos e tiradas ocuparam a página em branco e nasceram Vão Gogo e a seção “Poste escrito”. Em 1945, já em O Cruzeiro, estreou “O Pif-Paf” com o cartunista Péricles. A página dupla semanal, depois tocada sozinho, fez de Emmanuel Vão Gogo um nome nacional enquanto a revista vendia centenas de milhares de exemplares. Só em 1962 ele assumiu o nome civil na coluna.
O primeiro livro, Eva sem costela, saiu em 1946 sob o pseudônimo Adão Júnior. Tempo e Contratempo, de 1949, reuniu o que o jovem Vão Gogo já fazia na página: poema, conto, pastiche, sátira e piada visual. A estreia teatral veio em 1953, com Uma mulher em três atos no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. Em 1954 comprou a cobertura na Vieira Souto, em Ipanema, onde viveria o resto da vida. No ano seguinte dividiu com Saul Steinberg o primeiro lugar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura, em Buenos Aires. Em 1957 expôs desenhos e pinturas no Museu de Arte Moderna do Rio.
A liberdade de linguagem custou o emprego. Em 1963, A verdadeira história do paraíso — dez páginas em cores em O Cruzeiro — inflamou leitores católicos. A revista se retratou, acusou quebra de confiança e mandou carta de demissão. Millôr processou, ganhou a causa trabalhista e, um mês após o golpe militar, lançou a revista própria Pif Paf. Sem programa partidário, com Ziraldo, Jaguar, Stanislaw Ponte Preta e Claudius, durou oito números. O serviço de informações do Exército a tratou como início da imprensa alternativa no Brasil.
Pasquim, Veja e a briga que não era pose
Em 1968 começou a colaborar com Veja, relação longa com a Editora Abril. No mesmo ano, com Flávio Rangel, escreveu o musical Liberdade, Liberdade, estreado no Teatro Opinião. Não estava na equipe fundadora de O Pasquim, mas a experiência do Pif Paf pesou no jornal. Na primeira edição, em junho de 1969, profetizou: se a revista fosse independente, não duraria três meses; se durasse três meses, não seria independente. Retratou-se três edições depois e virou uma das forças do semanário.
Quando a “patota” foi presa em novembro de 1970, depois da paródia de Independência ou Morte, Millôr e Henfil mantiveram o jornal circulando com reforço de última hora de Chico Buarque, Glauber Rocha e Odete Lara. Em 1972 assumiu a presidência do Pasquim, então endividado e sob censura prévia até 1975. Liberto o jornal, discordou da equipe sobre satira ao ministro Armando Falcão e saiu, depois de reorganizar as finanças. Em 1976, É..., escrita para Fernanda Montenegro, tornou-se seu maior sucesso de palco.
Deixou Veja em 1982 ao recusar retirar o apoio público a Leonel Brizola, candidato ao governo do Rio. Voltou em 2004 e rompeu de novo em 2009, quando a revista digitalizou o acervo antigo sem acordo que o autor aceitasse. A Justiça condenou a Abril em 2013. Entre uma saída e outra, passou por IstoÉ, Jornal do Brasil, O Dia, O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense e Folha de S.Paulo. Em 2000 lançou o site Millôr Online, então um gesto raro de autor brasileiro na internet.
- Imprensa: O Cruzeiro, A Cigarra, Veja, O Pasquim, Jornal do Brasil, IstoÉ, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo.
- Palco: Uma mulher em três atos, Um elefante no caos, Liberdade, Liberdade (com Flávio Rangel) e É....
- Livros de entrada: O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr, Hai-kais, Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos e Tempo e Contratempo.
- Traço: exposições no MAM Rio e a mostra Millôr: obra gráfica no Instituto Moreira Salles.
Teatro, tradução e o desenho que não era enfeite
Millôr traduziu e adaptou mais de uma centena de peças — Shakespeare, Molière, Brecht, Tchekhov, Pinter, Fassbinder, Aristófanes. No palco brasileiro, isso não foi hobby de colunista: era ofício paralelo, tão público quanto a charge. Hamlet, Rei Lear, A Megera Domada e Lisístrata circularam em edições da L&PM com a marca do tradutor. A Enciclopédia Itaú Cultural o registra também como roteirista de cinema, em parceria com Carlos Hugo Christensen.
O traço nunca foi ilustração de apoio. Millôr desenhou enquanto escrevia, e escreveu enquanto desenhava. A página de humor gráfico misturava aforismo, caricatura e poema visual. Em 2016, o Instituto Moreira Salles reuniu originais na exposição Millôr: obra gráfica, com curadoria de Cássio Loredano, Julia Kovensky e Paulo Roberto Pires; a mostra foi ao IMS Paulista em 2018. Quem quiser o desenho, não só a frase, começa por esse acervo.
Na literatura de crônica e de humor, o parentesco aparece em nomes que o próprio Millôr acolheu. A gaúcha Martha Medeiros teve orelha dele em Persona Non Grata, na L&PM — o mesmo selo que concentrou hai-kais, aforismos e a “bíblia do caos”. A frase curta, nesse parentesco, não é truque de capa: é método.
O que ler de Millôr hoje
Quem chega pela citação solta encontra, atrás dela, um catálogo desigual e longo. O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr organiza aforismos por tema, colhidos de conversas, programas e publicações. Hai-kais reúne os três versos feitos entre 1959 e 1986, quase sempre com ilustração do autor. Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos compacta milhares de frases de meio século. Tempo e Contratempo devolve o primeiro livro, o Vão Gogo dos anos 1940, agora em edição da Companhia das Letras com apresentação de Luis Fernando Verissimo.
Há ainda as fábulas — Fábulas Fabulosas e 100 Fábulas Fabulosas — em que a moral clássica sai de ponta-cabeça, e as peças impressas, se o interesse for palco. Millôr recusava o rótulo de pensador de partido ou de igreja. Autoproclamado “livre-atirador”, mirava o poder público e desconfiava de dogma. O ceticismo, para ele, era ferramenta de ofício, não pose de gabinete.
Ipanema, a morte e o que ficou
A cobertura da Vieira Souto virou endereço mítico da República de Ipanema. A partir de 1980 viveu com a jornalista Cora Rónai. Teve dois filhos com Wanda Rubino, Ivan e Paula. Em fevereiro de 2011 sofreu um AVC isquêmico e passou longos meses internado. Morreu em 27 de março de 2012, no apartamento de Ipanema, por falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. O velório foi no Memorial do Carmo; a cremação, restrita, no Caju.
O que resta não é estátua de humorista bondoso. Resta o hábito brasileiro de citar Millôr sem saber de onde veio a frase — e, para quem abre o livro certo, a descoberta de que o humor era método de leitura do país, da linguagem e do poder. Quem busca o homem encontra o órfão do Méier, o contínuo de O Cruzeiro, o tradutor de Shakespeare e o desenhista que não pedia licença para pensar.





