Homens de um Livro Só pergunta o que o noticiário chama de fundamentalismo e o que esse nome deixa de fora. Mateus Soares de Azevedo publicou o ensaio em 2008, pela Best Seller/Nova Era, no Rio, com o subtítulo O fundamentalismo no Islã, no cristianismo e no pensamento moderno. ISBN 978-85-7701-283-1, 128 páginas, introdução de William Stoddart. Em 2010 a World Wisdom lançou nos Estados Unidos Men of a Single Book, edição revista, com prefácio e dois capítulos novos.
A tese cabe numa distinção. Fundamentalismo, no uso do autor, é apego passional a um único ponto de vista com recusa veemente dos outros. A palavra não fica presa ao Islã militante nem a uma única forma de cristianismo. Entra também o que ele nomeia fundamentalismo secular, o anti-religioso de polemistas como Richard Dawkins e Christopher Hitchens. A revista americana Parabola, na primavera de 2011, descreveu o livro como análise desse fundamentalismo secular.
Como o ensaio está armado
A forma é de ensaio doutrinal e histórico, em duas partes, não de reportagem nem de romance de tese. Uma parte enfrenta o sequestro da religião pela intolerância. Outra enfrenta o espelho moderno: a certeza anti-religiosa que também se comporta como livro único. O leitor não encontra manual de diálogo inter-religioso com dinâmicas de grupo. Encontra argumento, nome de autor e uma definição estreita o bastante para ser discutida.
A sinopse da Record, casa que hoje hospeda a ficha do título, insiste no mesmo ponto com outra frase. O problema, para o autor, não é levar a liturgia a sério. É lê-la segundo interesse político que não tem a ver com a paz que os textos sagrados anunciam. Cristianismo, Islã e o fundamentalismo científico entram no mesmo exame. A frase de capa da editora chama o autor de especialista em filosofia das religiões. O livro mostra o que isso significa na prática: comparar estruturas de certeza, não colecionar curiosidades de fé.
O que a edição americana mudou no alcance
A versão da World Wisdom não é só tradução de prateleira. O volume americano acrescenta dois capítulos e um prefácio. Foi essa edição que ficou em primeiro lugar na categoria Religião Comparada do USA Best Books Awards de 2011, recebeu prata do Midwest Book Award em acontecimentos da atualidade e chegou à final do Book of the Year em Religião. O Globo noticiou a disputa em abril de 2011, quando o resultado ainda não tinha saído. O prêmio de religião comparada veio depois e passou a ser o dado que acompanha o nome do autor.
Wolfgang Smith, em outro contexto, elogiou a seleção de textos de Filosofia Perene e Cristianismo. Para Homens de um Livro Só, o endosso mais útil é o da Parabola: o livro é lido, nos Estados Unidos, como diagnóstico de fundamentalismo secular, não como panfleto de uma confissão contra outra. Isso ajuda o leitor brasileiro a saber o que está comprando quando encontra o título esgotado na Record e a edição inglesa ainda circulando.
Quem deveria ler e quem vai frustrar
O livro serve a quem chega de uma manchete sobre extremismo e quer um quadro mais largo, e a quem já leu os ateus militantes dos anos 2000 e procura a resposta tradicionalista, não a resposta liberal. Não serve a quem busca história militar do jihadismo, exegese versículo a versículo ou um guia de convivência prática entre mesquita e paróquia. São 128 páginas na edição brasileira. A densidade está na definição, não no arquivo de casos.
Também não se confunde com Ordens Sufis no Islã, de 2020. Lá o objeto são as confrarias. Aqui o objeto é o estreitamento, religioso ou secular. Ler os dois em sequência mostra o movimento do autor: primeiro nomear a redução, depois mostrar uma largura mística que essa redução não consegue ver.
Onde está o exemplar
A ficha oficial da edição brasileira está na Record, editora do grupo que absorveu o selo Nova Era. O ISBN 9788577012831 identifica esse volume, não um homônimo. A edição inglesa, ISBN 978-1-935493-18-1, é o mesmo argumento revisto, não outro livro. Para o leitor em português, a porta continua sendo Homens de um Livro Só. A premiação americana explica a procura. Não substitui a leitura do ensaio curto que Stoddart apresentou.



