Mateus Soares de Azevedo viu um ensaio seu sair em inglês pela World Wisdom e ficar em primeiro lugar na categoria Religião Comparada do USA Best Books Awards de 2011. O volume se chama Men of a Single Book. No Brasil, o mesmo núcleo tinha saído em 2008, pela Nova Era, como Homens de um Livro Só. Quem procura o nome quase sempre chega por esse argumento: fundamentalismo religioso e o que o autor chamou de fundamentalismo secular, com Richard Dawkins e Christopher Hitchens no mesmo mapa dos homens de um livro só.
Não é romancista de banca de aeroporto nem comentarista de televisão. É escritor, jornalista, tradutor e editor. O centro do trabalho está na Filosofia Perene, no cristianismo místico e no Islã. Nasceu em Belo Horizonte em 1959, passou a infância em Ouro Preto e vive em São Paulo. A família, na biografia, tem raiz nessa cidade histórica: entre os antepassados estão Bernardo Pereira de Vasconcelos, ministro da Justiça e da Fazenda no Império e governador de Minas, e Diogo de Vasconcelos, autor da História Média de Minas Gerais.
Por que o nome aparece em religião comparada
A busca costuma juntar três perguntas. Quem escreveu Homens de um Livro Só. O que ele entende por fundamentalismo. E se o sufismo, nos livros dele, é folclore ou via espiritual dentro do Islã. O recorte é estável. Soares de Azevedo escreve a partir da escola perenialista, a linha de Frithjof Schuon, René Guénon, Martin Lings e William Stoddart, e verteu vários desses autores para o português.
Em 1994, J. C. Ismael descreveu no Estado de S. Paulo um estilo de clareza, objetividade e despretensão proselitista. A frase serve menos como elogio do que como aviso de tom. Os livros não pedem conversão. Discutem doutrina, rito, história e o choque entre tradição e mentalidade moderna.
A edição americana, revista, com prefácio e dois capítulos novos, ainda recebeu medalha de prata do Midwest Book Award na categoria de acontecimentos da atualidade e ficou entre os finalistas do Book of the Year em Religião. O Globo registrou, em abril de 2011, a presença do mineiro nessa disputa.
Formação, de Santa Cruz ao mestrado
O percurso escolar é público e pouco linear. Ginásio e científico no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, escola de padres franco-canadenses. Letras na Universidade de São Paulo. Jornalismo na PUC-SP. Relações Internacionais na George Washington University. Mestrado em História das Religiões na USP, com trabalho sobre a atualidade da Filosofia Perene.
Biografias de editora não contam o mesmo detalhe com as mesmas palavras. A World Wisdom resume línguas modernas e jornalismo na universidade católica. O relato em português, mais específico, separa Letras na USP e Jornalismo na PUC-SP. O que não oscila é o mapa: São Paulo como cidade de estudo e de moradia, Washington no currículo, e um mestrado dedicado à Filosofia Perene.
Ouro Preto entra como infância, não como brasão de carreira. Bernardo Pereira de Vasconcelos e Diogo de Vasconcelos explicam a raiz mineira. Não explicam, sozinhos, por que o autor passou a escrever sobre confrarias sufis e sobre o sermão da montanha lido pela Filosofia Perene.
Jornais, revistas e sala de aula
A World Wisdom registra anos de trabalho na editoria de assuntos internacionais de grandes jornais. Os textos assinados, mais fáceis de apontar do que o cargo, saíram na Folha de S.Paulo, no Estado de S. Paulo, na História Viva e na Gazeta Mercantil. Parte deles ganhou versão em inglês, francês, espanhol e italiano, em revistas como Sophia, Sacred Web, Dossier H e Ultreia.
Um título basta para ver o ângulo. Em Outros Islãs, na Folha, o plural já recusa a ideia de um Islã único, reduzido ao noticiário de atentado. Com William Stoddart, outros artigos separaram tradição islâmica e ideologia radical. Não é coluna de política diária. É ensaio de religião comparada ocupando página de jornal.
Fora da redação, o circuito é de universidade e de centro de estudo. A lista pública inclui USP, PUC-SP, Universidade Federal da Paraíba, UFRJ, Universidade de Caxias do Sul, George Washington University, o Instituto Agostinho dos Santos em Lisboa e o Itamaraty, em Brasília. Em 2012, o Jornal da Paraíba noticiou palestra dele em João Pessoa, na condição de finalista de prêmio literário americano.
Três portas de entrada na obra
O conjunto próprio passa de dez livros, fora traduções e introduções. Três títulos bastam para situar o leitor. O resto pede página própria ou fica como contexto.
- Homens de um Livro Só examina fundamentalismo no Islã, no cristianismo e no pensamento moderno, com introdução de William Stoddart.
- Ordens Sufis no Islã, da Polar, em 2020, é apresentado como o primeiro livro brasileiro dedicado só às confrarias sufis, no Irã xiita e no mundo sunita.
- A Vida Secreta das Cidades, da Ponte Editora, em Lisboa, em 2023, lê Moscou, Istambul, Quioto, Siena, Fez, Esfahan, São Paulo e o Cairo pelo que o cartão-postal não conta.
Há ainda A Inteligência da Fé, de 2006, sobre convergências entre cristianismo, Islã e judaísmo; Iniciação ao Islã e ao Sufismo, com várias tiragens e uma versão espanhola; Mística Islâmica, pela Vozes; O Livro dos Mestres e Filosofia Perene e Cristianismo, pela Ibrasa; e Alchemy of Love, volume em inglês de 2020, pela Sophia Perennis, sobre sexualidade e vida espiritual, organizado por ele com ensaios de Schuon, Titus Burckhardt e outros. Em 1984, bem antes desse eixo, saiu um Bob Marley em coautoria com Cassiano Quillicci, pela Brasiliense. O livro de música não define a obra posterior. Mostra que o nome já estava em livro antes de a Filosofia Perene ocupar o centro.
No mapa da literatura brasileira, ele fica na faixa do ensaio de religião, não na do romance. Quem chega da ficção estranha o vocabulário. Quem chega de uma reportagem sobre o Islã encontra um autor que insiste em separar tradição, mística e extremismo político.
O que ele traduz e organiza
Parte da presença no Brasil não está na capa com o próprio nome. Está na tradução e na organização. Do francês e do inglês, verteu Frithjof Schuon, William Stoddart, Martin Lings, Rama Coomaraswamy, Mahmoud Bina e Alireza Ziarani. Entre os títulos ligados a esse trabalho estão Para Compreender o Islã, O Homem no Universo e Forma e Substância nas Religiões, de Schuon; A Arte Sagrada de Shakespeare, de Martin Lings; e Cartas do diabo ao seu aprendiz, de C. S. Lewis.
Nos Estados Unidos, organizou a antologia Ye Shall Know the Truth: Christianity and the Perennial Philosophy, publicada pela World Wisdom em 2005, com introdução e um capítulo seu sobre sábios e santos do século XX: Padre Pio, Consolata Betrone, o sufi Ahmad al-Alawi, o pajé sioux Black Elk e Ramana Maharshi. Também organizou Remembering in a World of Forgetting, coletânea de William Stoddart. A página de autor na World Wisdom resume essa função dupla: quem escreve o próprio ensaio e quem põe Schuon, Lings e Guénon em circulação no português.
Viagem, Irã e o sufismo visto de perto
O método descrito nas biografias não é só de gabinete. Soares de Azevedo viajou à Europa, ao Oriente Médio e à Ásia para falar com autoridades espirituais e acadêmicas, recolher material e entrevistar autores perenialistas. Na Europa, o roteiro público cobre países católicos, protestantes e ortodoxos, de Portugal, Espanha, França e Itália à Inglaterra, Alemanha e Rússia. No mundo muçulmano, Irã, Turquia, Marrocos, Bósnia e Tunísia. No Japão, budismo amidista e xintoísmo.
Esse roteiro ajuda a ler Ordens Sufis no Islã. A Polar apresenta o autor não apenas como islamólogo de biblioteca, mas como alguém que acompanhou práticas e cerimônias sufis no Brasil e em países muçulmanos. O livro, de 168 páginas, pergunta o que é o sufismo, se as ordens são via de poucos ou de acesso mais amplo, e como as confrarias atravessam arte, arquitetura, costume e política.
O endereço público de agora é a capital paulista. Não há site pessoal estável nem rede social verificada em nome dele. O rastro confiável continua sendo livro, editora, jornal e palestra. Para o argumento sobre fundamentalismo, o caminho é Homens de um Livro Só. Para o Islã além do telejornal, Ordens Sufis no Islã e os livros anteriores de iniciação ao sufismo. Para o viajante tardio, A Vida Secreta das Cidades, de 2023, troca o tratado pela cidade.




